A memória, a história e a mitologia do mito

A jornalista Hildegard Angel publicou um Twitter ironizando a suposta participação de Jair Bolsonaro na caçada aos guerrilheiros de Lamarca em Eldorado SP.

https://twitter.com/hilde_angel/status/1315418417986494465

Aqui mesmo no GGN já publiquei alguns comentários sobre esse episódio https://jornalggn.com.br/cronica/historias-de-milicos-e-de-micos-do-exercito-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/. Todavia, o Twitter provocou uma torrente de outras lembranças que tomo a liberdade de compartilhar com o leitor.

Em 1970 o Exército acampou num pasto na entrada de Eldorado SP, pertinho da casa da minha família. A casa dos Bolsonaro não era muito distante. A molecada ia lá ver os soldados, que logo começaram a trocar seus fogareiros e refeições de campanha por pratos de comida.

Fui ao local uma ou duas vezes, mas perdi o interesse assim que consegui um fogareiro de campanha. Além disso, eu adorava brincar com meus amiguinhos que eram muitos. Bolsonaro era esquisitão, não tinha amigos. Ele deve ter gostado de adular a soldadesca. O resto ele deve ter inventado.

Na verdade eu não prestava muita atenção no Jair Bolsonaro naquela época. Lembro mais do pai dele, que foi meu primeiro dentista. Geraldo Bolsonaro era parceiro político do meu avô materno. Várias vezes vi ambos debatendo política enquanto brincava na oficina de marcenaria do meu avô.

Minha família já fazia parte da história de Eldorado e do Brasil na época em que os Bolsonaro eram apenas os Bolsonaro. Não me parece que eles tenham feito qualquer coisa boa para o país desde que o seu Jair foi expulso do Exército e entrou no crime organizado e político.

Bolsonaro diz que ajudou a caçar Lamarca em Eldorado SP, mas a verdade é que o cujo escapou. Portanto, se ele não reinventou seu passado como diz Hildegard Angel devemos concluir que o Exército aceitou a ajuda de um imprestável. O fracasso da caçada à Lamarca no Vale do Ribeiro não é um mito e sim uma verdade histórica dolorosa que persegue os militares que comandaram aquela operação. Mas não sei se eles ainda estão vivos.

Meu avô João Ribeiro nasceu em 1898 e caçava nas matas de Eldorado desde os anos 1920. Ele conhecia aquela região como a palma da mão dele. Mas ele não ajudou o Exército a caçar Lamarca, pois era um chefe político local do MDB de Ulisses Guimarães.

Meu pai, que era comunista desde meados dos anos 1940, morava em São Paulo naquela época. Lembro-me bem da visita que ele fez a Eldorado quando Lamarca perambulada pela região. Se fechar os olhos consigo lembrar a expressão facial sarcástica do meu pai ao troçar das pessoas que expressavam medo dos terroristas.

– Fiquem tranquilos, Lamarca vai explodir a ponte e matar essa velharada toda de Eldorado.

Cruz credo. Diziam as pessoas ao se distanciar dele. Obviamente eu não entendia o que estava ocorrendo. Aprendi que a memória não é considerada uma fonte muito confiável pelos historiadores. Também sei que existe uma diferença qualitativa importante entre a história e a mitologia.

Alguns homens, como Getúlio Vargas e Lamarca, parecem fadados a fazer história enquanto estão vivos e a provocar debates calorosos até mesmo depois de suas mortes. Outros passam pela vida sem ter tempo de se preocupar com qualquer coisa. Os que preenchem o vazio de suas existências com religiões correm o risco de ser iludidos e manipulados por líderes fanáticos e inescrupulosos. Existem, entretanto, homens capazes de criar uma mitologia pessoal para suportar as contradições de suas próprias vidas ou para explorar as fragilidades das pessoas à sua volta.

Quando uma mitologia pessoal historicamente questionável (como a da punhalada que os judeus teriam dado nas costas do Exército alemão, versão alternativa da derrota na I Guerra Mundial inventada pelo general Erich F. W. Ludendorff e explorada à exaustão por Hitler nos anos 1920; a suposta participação de Jair Bolsonaro na caçada a Lamarca, que ele mesmo tem vomitado publicamente desde os anos 1990) começa a ser compartilhada e transformada em fato histórico o resultado é quase sempre o mesmo: uma tragédia de proporções cataclísmicas que destroça toda a sociedade.

Se não for dissolvido mediante a apuração e a divulgação da verdade factual, o conflito entre a realidade histórica e a ficção transformada em plataforma política pode provocar uma guerra civil ou externa. E Bolsonaro já demonstrou várias vezes que tem uma predileção mórbida por conflitos militares.

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