A morte do inseto

O cadáver rígido e imóvel não estava na sacada do meu apartamento ontem pela manhã. Suponho, portanto, que a tragédia imensa de pequenas proporções ocorreu durante a noite e não foi testemunhada por ninguém. Eis aqui um relato possível do que aconteceu.

Depois de um dia normal caçando e sendo caçado, a vítima se sentiu mal e pousou no local mais próximo sem iluminação. As dores abdominais haviam aumentado muito. A tontura a impedia de se locomover livremente. Onde pousou ela ficou parada esperando mal estar passar. Mas a náusea apenas aumentou.

Não é fácil suportar a vontade de evacuar sem conseguir fazer isso. Preso na gargante, o vômito indigesto que se recusa a ser expelido. Uma sede imensa aliada à impossibilidade de procurar água. A letargia dolorosa, a rigidez dos membros e a nítida impressão de que a morte é um privilégio conferido pela natureza.

A luz que habitava aquela pequenina carcaça se apagou. Antes disso, porém, todos os sentidos que animavam aquela vida deixaram de existir. Ninguém consegue sentir o cheiro do próprio cadáver, tocar as carnes frias, inertes e desfalecidas, provar o gosto da última gota de suor, escutar os batimentos de um coração parado ou ver a reação do mundo a própria morte.

Morrer é se tornar invisível, inodoro, intocável e inaudível a si mesmo. A tragédia sem testemunhas não deixou testamento ou mensagem eloquente. Ele não era um artista. Seu único legado foi um pequenino cadáver imóvel na sacada do apartamento.

Por que resolvi escrever uma oração fúnebre para o inseto que morreu na sacada do meu apartamento? A resposta é singela: notei que um vírus está deixando as pessoas insensíveis. Os cadáveres das vítimas da pandemia são ignorados, desprezados ou simplesmente humilhados por aqueles que querem garantir a perpetuação de uma tirania política insana.

Bolsonaro fez discursos emocionados para lamentar a morte dos seus apoiadores que contraíram COVID-19 nas manifestações e morreram nos hospitais? Não. Quantas homenagens o mito fez aos heróis anônimos do bolsonarismo? Nenhuma.

Aos olhos do tirano os nossos mortos e os mortos dele são apenas insetos. E daí? Eles não estavam verdadeiramente vivos. Tanto que até a oposição os chamava de zumbis. Confesso que também fiz isso e peço aqui perdão aos parentes dessas vítimas da desumanização política.

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