Considerações sobre o Podcast Justificando #51


Em seu Twitter, o jurista e escritor Rubens Casara pediu para as pessoas comentarem o Podcast do qual ele participou. Tomarei a liberdade de fazer isso, mas antes de começar gostaria de evocar aqui uma cena do filme Quills (2000) para fins didáticos.

Proibido de escrever, o marquês de Sade encontra uma maneira criativa de contornar o tratamento repressivo. Ele ditaria o texto de uma novela erótica ao louco que está na cela ao lado. A mensagem seria repassada de cela em cela até ser registrada por alguém que tinha acesso a papel e tinta e se dispôs ajudar mediante pagamento.

Tudo ajustado, durante a noite o marquês começa a ditar a obra de arte. Mas ao invés de reproduzir a mensagem recebida, o louco dita uma pobre versão dela ao maluco da outra cela. A cada vez que um fragmento do texto do marquês era repetido algo se perdia ou era modificado. Condicionados pelas respectivas doenças mentais, os intermediários insanos suprimiam ou acrescentavam algo à novela erótica.

A prosa elegante e cheia de metáforas sexuais do marquês vai se perdendo no caminho. E no final o texto registrado é muito diferente daquele que foi ditado. Em certo momento o marquês usa a palavra “fogo” de maneira conotatica, quando essa palavra chega ao piromaniaco com sentido denotativo ele coloca incendia a cela. O fogo se espalha e o caos se instala levando ao aumento da repressão contra o próprio marquês.

Gostei do Podcast Justificando #51 com Rubens Casara e Marcelo Semer
http://www.justificando.com/2020/05/01/podcast-justificando-discute-pandemia-sociedade-sem-lei-e-pos-democracia/. Minha preocupação é menos com o conteúdo da mensagem de ambos do que com a possibilidade de deterioração dela.

Rubens Casara emprega com facilidade conceitos sofisticados. A linguagem dele é acessível aos leitores dele. Difícil dizer como as pessoas leigas interpretarão o que ele disse. Como ocorre na cena do filme Quills acima mencionada, a mensagem dele sobre as características do neoliberalismo e suas relações com o Estado Pós Democrático certamente sofrerá alguma deterioração em razão do ruído que for acrescentado a ela.

Marcelo Semer foi muito feliz ao criticar de maneira incisiva a judicialização da política. Aqui mesmo no GGN tenho batido nessa tecla várias vezes https://jornalggn.com.br/opiniao/justica-x-bolsonaro-solucao-ou-problema/.

A sofisticação do discurso é uma armadilha. A prosa do marquês de Sade é empobrecida porque ele não tem outro recurso e/ou não está em condições de prever e minimizar as consequências retóricas das doenças mentais dos intermediários que estão a disposição dele.

Rubens Casara e Marcelo Semer falam para um público supostamente apto a captar e divulgar o que eles disseram. Impossível dizer como a mensagem de ambos chegará ao grande público leigo. É aqui que o problema fica complexo.

O neoliberalismo pode conviver com o ruído e com o empobrecimento da linguagem. O experimento neoliberal é, de certa maneira, uma transposição bem sucedida daquela cena do filme Quills para a realidade política e econômica.

A linguagem que não comunica nada ou que transmite mensagens vazias garante a maximização do lucro. A inaptidão de retransmitir mensagens é um projeto educacional. O mundo reduzido a um asilo de loucos em que cada qual é levado a se aferrar à sua própria loucura deformando o que aprende ou fazendo os demais mergulharem no pântano de Fake News, Fake Politics, Fake Law, Fake Justice, Fake Diplomacy, etc. não é um acidente de percurso. Ele é o próprio neoliberalismo em sua exuberância caótica e irracional.

O maior pedagogo brasileiro nos ensinou que é preciso partir das limitações culturais do público alvo para ajudá-lo a construir um conhecimento mais sofisticado sobre si mesmo e sobre o mundo em que ele vive. Só depois que isso for feito é que o público poderá transformar a si mesmo transformando o mundo.

A esquerda gosta de citar Paulo Freire. Me parece evidente que é preciso fazer muito mais do que isso. Caso contrário, intelectuais bem intencionados continuarão falando para um público pequeno, ou pior, facilitando a produção de ruído em benefício do adversário enlouquecedor.

Casara enfatizou várias vezes que as pessoas estão sendo ensinadas a se tornar egoístas e a encarar os demais como adversários. Seria necessário reconstruir um espaço comum em que a cooperação substitua a competição. Não me parece que essa tarefa possa começar antes que exista uma linguagem comum entre os formuladores e os destinatários de uma mensagem.

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