Diário da Peste 29


Essa noite tive um sonho muito elaborado.

“Vago pelas ruas da cidade vestindo apenas uma pesada toga feita com edredom de casal. As pessoas vestidas sentem frio. Estou nu e aquecido.

Nas proximidades de uma antiga fábrica têxtil que faliu decido pegar um ônibus. Ele para na esquina onde estou. Entro nele. As pessoas admiram minha toga.

A motorista conduz o ônibus por uma rua de Osasco que nunca foi servida por transporte público. Conheço bem essa rua. Há algumas décadas eu frequentava a casa de uma moça que morava nela, próximo à uma escola pública. Devo visita-la?

Ao me aproximar da catacra meto a mão no bolso interno da toga, pego a carteira e pago a passagem com seis notas de dois dinheiros. O cobrador sorri e me devolve algumas delas.

Arrumo o troco na carteira, mas ao passar a catraca derrubo-a no corredor do ônibus. As pessoas sentadas olham para o objeto. Me limito a fazer o mesmo que elas. Não posso agachar e pegar a carteira, pois minhas mãos estão ocupadas. Com uma seguro as dobras da toga, com a outra tento não cair segurando na alça de metal de um dos bancos do ônibus.”

Após vários dias recolhido em casa decido ir ao supermercado. Fiz isso logo cedo. Dei uma boa caminhada até o mercado que fica mais longe de onde moro. Precisava caminhar um pouco. Estou cansado de ficar inativo em casa.

Comprei várias coisas necessárias. Algum tempo depois já estava em casa calculando mentalmente quantas refeições em potencial estão acumuladas na dispensa e na geladeira. Comprei mais uma garrafa de vinho. Uma taça diária é sempre revigorante.

Notei que as pessoas estão menos apavoradas. Ao que parece elas também já se acostumaram à rotina. Uma empregada do mercado, entretanto, parecia aterrorizada fazendo questão de manter distância de 2 ou 3 metros dos clientes. Num ambiente fechado e sem ventilação isso é obviamente inútil, pois se alguém contaminado tossir no local as chances dela contrair a doença são imensas.

Quem deveria arcar com o dano nesse caso?

Um doente que involuntariamente espalha o COVID-19 também é vítima da pandemia. Identificar exatamente quem transmitiu a doença à estoquista do supermercado seria uma tarefa hercúlea.

O empregador tem obrigações a cumprir, sem dúvida. Mas ele poderá sempre se defender alegando que cumpriu as normas de segurança e que a pandemia constitui uma força maior imprevisível.

O Estado, o Município e a União podem eventualmente ser responsabilidas, mas seria necessário demonstrar a incúria do poder público. No caso da União isso seria mais fácil, pois o governo Bolsonaro tem sabotado o isolamento social espalhando Fake News acerca da pandemia.

É engraçado como os hábitos profissionais condicionam nossa maneira de pensar. Eu sou advogado desde 1990 e sempre que algo me chama a atenção começo a refletir sobre a questão de maneira a identificar qual seria o pedido, a causa de pedir e o polo passivo da demanda.

Um poeta, um engenheiro e um médico certamente observariam a conduta da estoquista do mercado de maneira bem diferente. O primeiro tentaria recriar as emoções observadas através de imagens metaforicas. O segundo talvez imaginasse uma forma de eliminar o risco mediante um sistema de exaustão eficiente. O terceiro provavelmente nem entraria naquele supermercado, pois é capaz de avaliar o perigo de maneira mais precisa.

E aqui fica uma lição importante. Durante uma pandemia nós devemos tentar abandonar nossos hábitos mentais e passar a pensar como os engenheiros e médicos antes de correr riscos. Hoje eu só consegui fazer isso muito depois de ter voltado do supermercado.

E assim sou obrigado a retornar ao tema do sonho. Minha carteira no chão e a impossibilidade de pega-la pode ser interpretada da seguinte maneira: existem coisas mais importantes do que aquilo que pode ser acondicionado numa carteira. A saúde, a segurança e a vida são bem mais preciosas do que o vil metal obtido em qualquer atividade profissional.

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