Diário da Peste 35

Ontem foi um dia especialmente tenso. Após o almoço comecei a assistir um filme e, por força disso resolvi abaixar a cortina da sala que havia levantado pela logo de manhã para ensolarar minhas plantas.

O cordão enguiçou. A cortina não decia. Quando forcei-a a subir um dos cordões arrebentou. Fiquei irritado.

Tirei o suporte com a cortina da parede soltando os parafusos. Cortei um pedaço de cordão coloquei no mecanismo, recoloquei a cortina no lugar e apertei os parafusos que mantém no suporte fixo. O mecanismo não funcionava, pois o cordão não foi enfiado corretamente na polia móvel que permite subir e descer a cortina.

Fiquei desesperado. A cortina travou no meio. Durante o dia aquilo não seria um incômodo, mas durante a noite o problema seria realmente insuportável. O condomínio onde eu moro trocou a iluminação tradicional por luminárias de LED. A luminosidade delas me obrigaram a trocar a cortina da sala e a colocar um forro nela para voltar a dormir.

Merda. Vou ter que fazer tudo de novo. Retirei os parafusos, desci a cortina e arranquei o cordão que havia colocado. Cortei outro pedaço de cordão e colocoquei no mecanismo de uma maneira diferente. Levantei a cortina e ela soltou do suporte. Perdi de vez a paciência. Fixei a cortina no suporte e o suporte na parede suando de raiva.

O mecanismo ainda não funcionava. Essa porcaria não pode ficar assim. Mas não vou mais mexer nisso. Farei uma nova tentativa depois que o filme terminar.

Duas horas depois voltei ao trabalho. Antes de descer a cortina observei o mecanismo e descobri a maneira correta de passar o cordão na polia móvel sem que ela trave. Desci o suporte com a cortina, cortei o cordão e o passei entre a polia e a trava. Ao levantar o suporte com a cortina para fixa-los na parede noto outro problema.

O engate do suporte na parede está se soltando. Retiro-o sem qualquer esforço. Substituo dois dos três pregos de aço por pregos novos e maiores. Passo cola no engate recoloco-o no local e fixo os dois novos pregos. O prego do centro, maior do que os outros dois foi bezuntado com cola especial.

Pouco tempo depois parafuso o suporte com a cortina no engate. Voilà. O mecanismo está funcionando perfeitamente.

Esse pequeno incidente caseiro me faz perceber algo importante.

É impossível concertar qualquer coisa (uma cortina, um país, etc…) ficando com raiva e pensando nas consequências negativas do insucesso. O foco deve ser na ação correta. O resultado positivo será uma consequência dela. Uma ação errada produz resultados indesejados.

Já ficou evidente que o caminho neoliberal escolhido por Bolsonaro garante o lucro dos banqueiros e apenas dos banqueiros. Se algo não for feito a catástrofe econômica (desindustrialização, redução da massa salarial, encolhimento do comércio e redução da arrecadação fiscal) são inevitáveis. A pandemia apenas potencializará um tombo inevitável.

A economia é como uma cortina delicada. As finanças são os cordões que a fazem subir ou descer. Mas o mecanismo que possibilita realizar essa operação é composto por polias móveis (a indústria e o comércio). Se os cordões forem curtos a cortina não se estenderá totalmente, se não forem colocados corretamente as polias móveis serão inúteis. O conjunto todo tem que estar bem ajustado. Caso contrário a cortina não poderá ser levantada e abaixada de acordo com a necessidade.

Esqueci de fazer a higiene bucal depois do almoço. Isso não é bom.

Uma última observação. Será necessário ver, rever e memorizar bem a versão feminina que Regina Duarte criou do protagonista de Mephisto (1981) na CNN. Essa serviçal voluntária do poder é cúmplice sorridente da violência estatal e merece receber o tratamento dado a Hendrik Höfgen no final da obra.

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