Diário da Peste 38


Hoje pela manhã descobri algo interessante. A unha do dedão do meu pé esquerdo cresce mais rápido do que a unha do dedão do meu pé direito. Talvez isso tenha uma explicação científica que eu ignoro. Mas eu não ficaria surpreso se um maluco evangélico descobrisse uma passagem obscura da Bíblia elucidando esse grande mistério teológico.

Noite passada tive mais um pesadelo militarizado.

“Estou esperando o transporte público na região central de Osasco-SP. O trânsito está simplesmente caótico. Todos os ônibus da grande São Paulo resolveram circular na cidade em que moro.

Meu ônibus chega. Em virtude do congestionamento ele mal sai do lugar. Meia hora depois, irritado, desço a alguns metros de onde havia entrado no veículo. Cruzo velozmente as ruelas que ligam as principais ruas do centro da cidade.

Um fusca branco para ao meu lado e buzina. Dentro dele, o sociólogo que conheci no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Plásticas de São Paulo em 1987. Ele usa uma jaqueta preta de couro semelhante à minha.

“O que esse cara está fazendo em Osasco? Ele sempre tirou sarro de mim em razão de eu morar na periferia e ele não.”

– Entre no carro. Levo-o para casa depois que resolvermos um problema.

Não tendo uma razão específica para desconfiar dele, entro no carro. No banco de traz, o adolescente de 15 anos parece um clone mais jovem do sociólogo.

O fusca sai em disparada. Alguns metros depois para em frente á antiga sede da Frente Nacional do Trabalho em Osasco. Frequentei o local a partir de 1985. Ele manda o adolescente ficar no carro e pede para eu acompanhá-lo.

“O que esse cara está querendo fazer na FNT? Ele nem mesmo sabia da existência dela.”

Descemos do fusca e entramos na sede da FNT.

– Antes de deixar você em casa tenho que resolver um problema. Mas para fazer isso preciso das ferramentas.

A FNT está movimentada. O sociólogo parece conhecer todo mundo. Depois que é autorizado a pegar o que precisa ele se vira para mim e sorri.

– Está tudo resolvido. Levaremos três fuzis automáticos de marcas diferentes e uma centena de munições para cada um.

– Opa. Mas eu não sei usar esse tipo de arma.

-Não tem problema. Você só precisa apontar o cano para onde eu mandar e puxar o gatilho.

Levamos as armas e munições para o carro. O sociólogo volta para a FNT dizendo que precisa usar o banheiro. Meia hora depois eu vou chamá-lo e descubro que o local está totalmente vazio. Retorno ao carro. O adolescente balança a cabeça.

– Meu pai é foda. Ele sempre faz isso. Vamos. Eu levo você para a sua casa.

O rapaz me deixa em casa. Não na casa onde moro em Osasco-SP e sim naquela em que eu morei em Barueri-SP quando era casado. O sobrado parece maior do que era e está vazio. O portão está trancado. Fico imaginando o que teria ocorrido…

– Vamos lá, camarada. Chegou a hora de resolvermos os problemas do país.

Alguém interrompeu o silêncio dissipando minhas divagações. Subindo a rua em passo acelerado, o sociólogo se aproxima do fusca branco.

O adolescente senta no banco do passageiro na frente. O sociólogo assume o volante e me convida a sentar ao lado dos fuzis e das munições.

– Sinto muito. Ainda não consigo ver a necessidade de resolver qualquer problema usando esse tipo de ferramenta.

– Você sempre foi um bunda-mole.

O fusca sai em disparada. E eu acordo tranquilo”

Ontem não aconteceu nenhum caseiro incidente digno de nota. Voltei a escutar o som característico da matraca utilizada pelos vendedores de beiju. Suponho que eles ficaram desesperados e não conseguiram receber o auxílio emergencial que Jair Bolsonaro preferiu mandar pagar aos militares que tem renda.

Em nosso país, a única política pública de longa duração é a injustiça. Desde a era colonial, a principal função do Estado tem sido garantir o empoderamento dos ricos e o empobrecimento dos pobres. Lula e Dilma tentaram corrigir essas distorções e foram trucidados pelos jornalistas que transformam o justo em injusto com a finalidade de manter o “status quo”.

A gravação da reunião presidencial parece um filme B policial norte-americano dos anos 1950. Jair Bolsonaro usa palavrões e exige mudanças na PF para proteger seus filhos. Damares Alves quer prender prefeitos e governadores que discordam dela. O Ministro da Educação chama os ministros do STF de bandidos e filhos da puta. Ninguém, nem mesmo o suposto herói Sérgio Moro, foi capaz de se levantar e exigir um pouco de decoro e seriedade do presidente e dos parceiros dele.

Em 2016 a imprensa sodomizou a soberania popular. Em 2020 foi liberada a prova em vídeo de que o Brasil foi transformado num típico Estado fracassado africano. Cuidado… Bolsonaro é o nosso Idi Amin Dada branco.

A matraca do vendedor de rua não anuncia apenas o beiju. Ela é uma verdadeira “tocada e fuga” da desigualdade social. Nesse momento, a matraca melancolicamente anuncia o fracasso do Brasil e o sucesso da pandemia.

Há alguns dias minha mãe sofreu um acidente caseiro. Ela acordou no meio da noite e foi ao banheiro urinar, dormiu sentada no vaso sanitário e caiu no chão. Felizmente ela não sofreu nenhuma fratura. Isso seria terrível. Minha mãe tem 92 anos e há mais de uma década virou uma bonequinha de louça em virtude da osteoporose.

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