Eu, o dragão e a flecha negra que matou Smaug


Nós estamos em segurança, mas o dragão encurralou nosso amigo antes dele entrar na casa. Ninguém pode sair para ajudá-lo. Esse impasse transfere a iniciativa do jogo para o animal terrível. Ao zombar de nós ele demonstra ter percebido que domina o tabuleiro. 

Intranquila, a vizinhança observa o desenrolar da tragédia. Alguns apostam no dragão. Outros acreditam que a situação dele não é tão vantajosa assim.

Ante de prosseguir, porém, preciso fazer explicar como chegamos à situação em que nos encontramos.

Após a queda e morte de Smaug, o dragões ficaram transformados. Ele havia destruído uma poderosa cidade de homens e controlado o reino dos anões por um longo período de tempo. Smaug era um herói, um símbolo. Portanto, os dragões não haviam perdido apenas um parente, um conhecido. 

A queda de Smaug levou seus iguais a repensar suas relações com os homens. Após aproximações e distanciamentos, um acordo tácito foi feito entre as duas espécies.

Os dragões aceitaram viver nos arredores das cidades sem atacar fazendas, fazendeiros e centros urbanos. Os homens se comprometeram a complementar a alimentação dos dragões com alguns porcos, vacas e carneiros por mês. Com o tempo, os dragões também passaram a devorar pessoas condenadas à morte. E alguns deles desenvolveram a habilidade de identificar criminosos pelo cheiro, ajudando as autoridades a resolver crimes.

Após alguns séculos de coexistência pacífica, os dragões ficaram menores e perderam a habilidade de voar e de cuspir fogo. Mas em compensação eles se tornaram mais inteligentes e sarcásticos. Em geral, podemos dizer que homens e dragões haviam superado o trauma causado pelos conflitos que culminaram com a ascensão e queda de Smaug. Com o tempo lembrança daquele episódio traumático se dissipou.

Mas então a vida começou a se tornar um pouco complicada. Enxotado de sua cidade sob a acusação de ter  se tornando guloso (talvez ele tenha sido apenas uma vítima da crise econômica que reduziu a capacidade da população local de alimentá-lo), um dragão começou a perambular pelo país causando estragos. Ele foi rapidamente neutralizado por tropas combinadas de homens e dragões. 

A vitória, entretanto, não pacificou os corações dos dois grupos. Quando surge, a desconfiança sempre cresce nas sombras como os cogumelos.

Na cidade vizinha à nossa, o dragão foi acusado de ter identificado um criminoso pelo cheiro da vaca que lhe foi paga por um inimigo do acusado. Ele negou ter sido corrompido, mas os restos da refeição inexplicável que ele havia feito denunciavam que algo estranho havia ocorrido. Pressionado, o inimigo da vítima injustamente incriminada reconheceu que subornou o devorador de criminosos.

Provada a culpa, o dragão se comprometeu a devorar quem o havia corrompido, mas a comunidade dos homens não podia mais acreditar na palavra dele. Os homens disseram que ele poderia ir embora em paz , mas antes de sair de sua cidade o dragão foi emboscado e morto.

Quando souberam do ocorrido os outros dragões ficaram temerosos e horrorizados. Cada vez mais desconfiadas, as comunidades humanas começaram a voltar a nutrir um ódio secreto pelos dragões. As histórias das tragédias causadas por Smaug começaram a ser recontadas. 

Humilhados e desafiados por causa do renascimento da história, os dragões começaram a nutrir sentimentos negativos em relação aos homens. Mas eles não queriam romper a paz. Na verdade, apesar dos contratempos, os dragões estavam satisfeitos com a situação em que se encontravam e sabiam muito bem que os homens são volúveis. Assim como alimentam desconfianças e se tornam ingratos, ele preferem seguir em frente se não forem atacados.

Ao avistar o dragão de nossa cidade passar, algumas pessoas passara a murmurar comentários de desaprovação. Outras, a cuspir desafiadoramente no chão. Certa feita, eu estava em companhia do nosso dragão quando alguém gritou.

-A flecha que matou Smaug não vai ficar muito tempo no fundo do lago.

Imediatamente ambos percebemos que algo precisaria ser feito.

Nesse ponto retorno à história que comecei a contar. Em virtude do que estava ocorrendo, eu e meus irmãos e um amigo resolvemos recuperar a flecha negra que havia abatido o terrível Smaug. O dragão nos perseguiu antes que conseguíssemos sair da cidade. Nós voltamos correndo para casa, mas o nosso amigo ficou encurralado na rua. 

Para solucionar o impasse o dragão convocou uma assembléia. Todos os habitantes compareceram. Nós fomos convidados a participar da reunião com a garantia de que não seríamos molestados pelo dragão.

-Esses moleques aqui decidiram recuperar a flecha negra que matou Smaug. Isso é inadmissível. – disse o dragão.

-É verdade que nós queríamos fazer isso.  A flecha seria apenas uma garantia de que o dragão não poderia nos ferir alguém sem ficar impune. – disse eu como se fosse inimigo do dragão.

-Vamos lá moleque… Quando foi que eu fiz qualquer mal a você ou aos seus amigos? Há décadas eu cumpro minhas obrigações nessa comunidade. E nunca deixei de agradecer o alimento que recebi em troca. – disse o dragão bufando, como se estivesse com raiva.

-Isso é verdade! – disse um popular.

-O problema é que ele é um dragão e ninguém pode confiar num parente de Smaug. – disse alguém na multidão.

-Smaug está morto há séculos, meu caro amigo. O parentesco entre eu e ele é tão distante quanto o parentesco entre vocês e aqueles homens que o mataram. Nossa vida em comum não deveria ser envenenada por algo que ocorreu num passado e distante do qual nós mesmos não participamos.

-Você tem razão, senhor dragão! – disse uma menina.

-Um dragão é sempre um dragão. – respondeu um velho jornalista rabugento.

-Verdade. O problema é que os homens também podem ser dragões. – disse meu amigo, reconhecendo que estava errado.

Quando isso foi dito a assembléia ficou atônita. O dragão abraçou meu amigo. Algumas pessoas se sentiram ofendidas, outras aplaudiram a iniciativa de ambos.  Não sei dizer como essa história termina. De fato, enquanto todos estavam entretidos peguei minhas coisas e parti sozinho para o lago. Minha missão era recuperar a flecha negra que havia matado Smaug. Além disso, enquanto aquela arma terrível estivesse comigo eu teria a certeza de quem ninguém poderia usá-la sem minha autorização. 

O objetivo da conquista do poder não é necessariamente seu uso. O medo que o poder inspira naqueles que não desejam que ele seja empregado é uma droga extremamente potente. Algumas vezes, a restauração da confiança entre homens e dragões é algo impossível de ser obter sem que os desordeiros tenham certeza absoluta de que os homens-dragões podem ser humanos exageradamente humanos.

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