Não existirá um mundo sem a Rússia, disse Putin


Ao fim do longo artigo que publicou sobre a II Guerra Mundial referindo-se à verdade factual que estaria sendo ignorada ou desprezada por alguns países ocidentais, o presidente da Federação Russa dia o seguinte:

“Em primeiro lugar, acredito que seja útil discutir etapas para desenvolver princípios coletivos nos assuntos mundiais, falando francamente sobre as questões de preservação da paz, fortalecimento da segurança global e regional, controle estratégico de armas, bem como esforços conjuntos para combater o terrorismo, o extremismo e outros grandes desafios e ameaças.

Um tópico importante na agenda é a situação da economia global, superando a crise econômica causada pela pandemia de coronavírus.

Os países estão adotando medidas sem precedentes para proteger a saúde e a vida das pessoas e apoiar os cidadãos que se encontraram em situações difíceis.

Nossa capacidade de trabalhar em conjunto, como verdadeiros parceiros, definirá o tamanho do impacto da pandemia e com que rapidez a economia global emergirá da recessão.

Além disso, é inaceitável transformar a economia em um instrumento de pressão e confronto.

Questões populares incluem proteção ambiental e combate às mudanças climáticas, além de garantir a segurança do espaço global de informações.

A agenda proposta pela Rússia para a próxima cúpula dos “Cinco” é extremamente importante e relevante para nossos países e para o mundo.

Temos ideias e iniciativas específicas para cada tópico.

Não há dúvida de que a cúpula da Rússia, China, França, Estados Unidos e Reino Unido possa desempenhar um papel importante na busca de respostas para os modernos desafios e ameaças e que demonstrará o compromisso comum com o espírito de aliança, contando com os altos ideais e valores humanitários pelos quais nossos pais e avós lutaram ombro a ombro.

Com base em uma memória histórica, podemos e devemos confiar um no outro. Isso servirá de base sólida para negociações exitosas e ações concertadas com o objetivo de melhorar a estabilidade e a segurança do planeta, bem como a prosperidade e o bem-estar de todos.

Este é nosso dever e responsabilidade comum em relação ao mundo, em relação às gerações presentes e futuras.”
https://www.ocafezinho.com/2020/06/23/putin-as-verdadeiras-licoes-do-75-aniversario-da-2a-g-m/

Esse fragmento do texto de Putin contém uma linguagem diplomática precisa e extremamente cuidadosa. Putin valoriza o multilateralismo, rejeita qualquer tipo de excepcionalismo ou unilateralismo e coloca os “… ideais e valores humanitários pelos quais nossos pais e avós lutaram…” acima da intenção de qualquer país de “… transformar a economia em um instrumento de pressão…”. 

O presidente russo rejeita a hierarquização do mundo com base em critérios diferentes daqueles que estruturam as relações internacionais no pós-guerra. Putin trata as 5 potências vitoriosas (Rússia, China, França, Estados Unidos e Reino Unido) como iguais, com direitos e obrigações semelhantes. E dá a entender que seu país rejeitará uma nova ordem mundial pós-pandemia que não seja estruturada com base em  “…princípios coletivos nos assuntos mundiais”.  

A parte mais relevante do texto, creio, é aquela em que o presidente russo procura restabelecer a autoridade da história no contexto das relações internacionais. Ao dizer que  com “…base em uma memória histórica, podemos e devemos confiar um no outro…”, Putin rejeita a interferência das Fake News na arena internacional. Noticias falsas, crenças histéricas e revisionismos históricos não deveriam ser utilizadas por governos neopopulistas de extrema direita. Se depender da Rússia será impossível remodelar o mundo com base em mitos, mentiras e meias-verdades repetidas à exaustão.

Putin não especifica quais são esses países que passaram a usar Fake News para corromper a memória da II Guerra Mundial, alimentar desconfianças injustificadas e dificultar o entendimento entre as nações “…sobre as questões de preservação da paz, fortalecimento da segurança global e regional, controle estratégico de armas, bem como esforços conjuntos para combater o terrorismo, o extremismo e outros grandes desafios e ameaças.” Todavia, eles podem ser facilmente identificados: EUA, Polônia, Hungria, Itália e Brasil.   

Quais são os “…outros grandes desafios e ameaças…” que Putin se recusou a especificar? Um deles certamente é o aumento da tensão entre os EUA e China. O outro é a tentativa dos norte-americanos de isolar e criminalizar qualquer governo que não se submeta aos imperativos neoliberais ditados pelo mercado financeiro. A tentativa de destruir as instituições criadas no pós-guerra também é considerada inadmissível pela Rússia.

O discurso de Putin deixa claro que a Federação Russa não aceita ser tratada como uma potência de segunda classe num mundo unilateral liderado pelos EUA. O Kremlin não deixará de estimular o multilateralismo para facilitar distensões e desarmar conflitos provocados por intenções imperialistas. Ao dizer que os russos têm “… ideias e iniciativas específicas para cada tópico…”, Putin sugere que seu país não deixará de se posicionar no cenário internacional levando em conta seus próprios interesses. 

Tudo bem pesado, o texto de Putin é conciliador. Mas também funciona como um alerta.

O Kremlin considera a História como uma categoria diplomática fundamental e deseja uma paz construída mediante negociações entre iguais com base num conjunto de verdades históricas partilhadas por todos os países. Putin deu a entender que seu país não aceitará imposições unilaterais, nem se curvará às ameaças baseadas numa suposta superioridade moral ou militar de um país ou de um bloco de países.

Os russos acreditam que o passado e o presente estão indissoluvelmente ligados e que o futuro não poderá ser construído por Fake News ou sem a colaboração da Rússia. Essa verdade diplomática terá que ser levada em conta pelos outros países. Caso contrário as tensões entre eles e a Rússia serão inevitáveis.

Resumindo: para os russos existe uma linha que não poderá ser ultrapassada por ninguém. Cuidado, a Rússia não será colocada fora da ordem internacional. As instituições multilaterais devem continuar existindo e funcionando da maneira que foram concebidas. Uma paz construída através de negociações é possivel, mas os russos não negociarão sua história ou suas conquistas históricas.

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