O ocaso do Facebook?

Em apenas alguns anos o Facebook se transformou de uma rede social “cool” em um negócio milionário. A segunda transformação foi ainda mais drástica. O Facebook virou um negócio bilionário submetido ao imperativo de vigilância total da NSA. Após Edward Snowden estourar a bolha de espionagem massiva, a empresa de Mark Zuckerberg virou uma máquina de produção de resultados eleitorais e de difusão de Fake News.

O escândalo Cambridge Analytica abalou um pouco mais a credibilidade do Facebook. Mas não afetou de maneira substancial sua rentabilidade.

Nos últimos dias, o negócio de Zuckerberg entrou no seu inferno astral financeiro. Desde que começou a se tornar rentável o Facebook dependia do rendimento produzido pelos anunciantes. Tudo o que o Facebook fez, inclusive e principalmente extrair excedente comportamental para refinar sua capacidade de prever o comportamento futuro dos internautas, estava relacionado à sua capacidade de otimizar espaços de propaganda. Esse modelo está entrando em colapso.

Os principais concorrentes do Facebook (Microsoft, Google e Amazon) exploram tanto a extração de excedente comportamental para o refinamento de propaganda quanto outras atividades econômicas (produção e comercialização de software e hardware, Smartphones e comercialização de produtos on line). Sem a sua principal fonte de renda a empresa de Zuckerberg conseguirá se manter no mercado?

Em seu livro, Shoshana Zuboff afirma que o principal matéria prima do capitalismo de vigilância é o excedente comportamental extraído por empresas como o Facebook com ou sem autorização dos internautas https://jornalggn.com.br/artigos/o-florescimento-lucrativo-do-capitalismo-de-vigilancia/. Esse capital virtual, entretanto, não tem qualquer valor se não for processado e utilizado para a criação de produtos comercializáveis no mercado de predições futuras.

Ao contrário dos seus concorrentes, Mark Zuckerberg é um comerciante de propaganda altamente refinada e segmentada produzida com base nos perfis traçados criados e constantemente atualizados dos usuários da sua rede social. Se ninguém comprar o produto que ele vende a empresa dele não terá condição de remunerar engenheiros, manter servidores e expandir sua capacidade de coletar matéria prima para continuar a fazer o que aprendeu a fazer bem.

O drama econômico enfrentado pelo Facebook (a empresa perdeu anunciantes e seu valor de mercado começou a declinar rapidamente https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/06/27/mark-zuckerberg-perde-r-39-bi-de-sua-fortuna-com-coca-cola-e-unilever-fora-do-facebook.ghtml) demonstra que os capitalistas da vigilância estão começando a enfrentar uma rebelião do capitalismo real. Uma parte do dinheiro economizado com o Facebook será provavelmente utilizado em outras plataformas virtuais que também vendem previsões de comportamento dos consumidores feitas com base em excedente comportamental extraído da internet. A outra será economizada, pois a crise provocada pela Pandemia já começou a afetar a economia real.

Uma reestruturação corporativa do capitalismo de vigilância (provocada pela falência, diminuição de ativos ou diversificação do Facebook) afetará inevitavelmente o desenvolvimento de Inteligência Artificial. Em condições de processar as fotos de 2,27 bilhões de usuários, Zuckerberg estava investindo bastante na tecnologia de reconhecimento facial. Ele já sofreu alguns prejuízos por causa disso https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/01/30/facebook-vai-pagar-us550-milhoes-em-processo-sobre-reconhecimento-facial.ghtml.

Impossível dizer o que ocorrerá nas próximas semanas. Se continuar a ser desidratado financeiramente, o Facebook pode acabar jogado na lata do lixo da história. Qual será o destino das informações coletadas pela empresa? Como serão tratados os usuários brasileiros, cujos dados são protegidos pelo Marco Civil da Internet? Zuckerberg se tornará um duplo do capitão Ahab ou ele vai se desvencilhar de sua Moby Dick antes de submergir enroscado nela?

Uma coisa me parece certa. A sequência do filme “A rede social” (2010) não será tão gentil com o dono do Facebook. Mark Zuckerberg já começou a entrar na galeria da infâmia e só conseguirá sair dela se não virar um looser. Os norte-americanos toleram quase todos os pecados cometidos pelos bilionários, mas eles incapazes de perdoar o fracasso empresarial.

O Facebook inventou uma maneira de maximizar seus lucros adoecendo os usuários https://jornalggn.com.br/artigos/viciados-em-curtidas-e-vitimas-de-agressoes-morais-programadas/. Como eles ficarão se essa plataforma simplesmente desaparecer como ocorreu com o Orkut e o Multiply?

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