O último blefe simbólico do mito: empunhar a American Flag

Ontem Jair Bolsonaro uma vez mais reuniu um punhadinho de correligionários para dar uma demonstração de força. Alguns deles agrediram jornalistas do Estadão. O mito fez questão de ser fotografado ao lado de uma bandeira dos EUA.

A minoria barulhenta e raivosa reunida em torno do presidente enfraquecido não impressionou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Os comandantes militares já afirmaram várias vezes que não pretendem embarcar numa aventura autoritária.

Cauteloso, Hamilton Mourão demonstrou preocupação com o risco do bolsonarismo aumentar o vácuo político e o isolamento do governo. O vice-presidente fez questão de lamentar a agressão aos jornalistas do Estadão. O Exército preferiu expor publicamente sua irritação em razão de Bolsonaro usar a bandeira dos EUA.

Seguido apenas por fanáticos religiosos, o mito já se apresenta como um messias ungido pela White House. Bolsonaro é considerado um profeta infalível por ministros lacrimosos. Menos política e mais religião… O mito acima do Estado e a racionalidade institucional abaixo da sarjeta. A última flor do Lácio chegou enfim ao fundo do poço sem as pétalas.

A mística do poder… Os romanos entendiam perfeitamente a necessidade dela. Os augúrios sempre reforçavam aquilo que os Cônsules haviam decidido previamente após apreciar de maneira cuidadosa a situação política, o moral da tropa e as perspectivas militares.

A religião romana tinha uma função pública: reforçar a autoridade do comando politico/militar. Favoráveis ou não, os augúrios possibilitavam a mobilização da credulidade popular em favor das decisões tomadas por governantes e generais que eram sobretudo pragmáticos.

Foi o pragmatismo político permitiu a Roma sobreviver cercada de inimigos poderosos. Sem ele Roma não teria crescido e se expandido tolerando as crenças religiosas dos povos derrotados e incorporados ao império.

“Não há glória maior que perdoar a quem me atacou, e premiar a quem me serviu”, disse certa feita Júlio César. Ele não conquistou a Gália e derrotou Pompeu Magno porque contava apenas com a Fortuna e sim porque estava sempre disposto a redobrar o esforço para sobrepujar as adversidades. No momento em que acreditou que seria adorado ou temido por todos Cesar foi apunhalado e morto por alguns inimigos.

Um poder que não existe precisa ser pragmaticamente construído com trabalho, seriedade e persistência. O poder que já existe deve ser exercido calmamente em silêncio. É inútil tentar exercer um poder que deixou de existir. Essas são três lições obviamente ignoradas pelo führer do Reich bananeiro.

Jair Bolsonaro é um líder inseguro, nervoso e irracional. Ele não consegue ser pragmático. Não percebe os limites objetivos e subjetivos do poder que exerce. Ele premia seus filhos e amigos, mas é incapaz de perdoar seus adversários. Cada vez que reúne alguns zumbis para demonstrar força e/ou exigir a submissão do Legislativo e do Judiciário o mito destrói uma parcela do poder que exerce.

Os caminhos que levam à derrocada final desse governo são três. Todos eles ficaram evidentes ontem.

Se tentar realmente dar um golpe de estado Bolsonaro vai morrer durante os combates ou ser preso ao final deles. Um presidente que demonstra publicamente sua inaptidão mental para exercer o cargo pode ser interditado. Ao fazer ameaças contra o livre exercício dos outros poderes republicanos para exercer um poder absoluto, Bolsonaro forneceu mais um motivo para o Impeachment.

“Abuso de poder” e; “Obstrução do Congresso”. Esses foram os dois artigos do Impeachment de Donald Trump. Se tivesse se apresentado ao público com a bandeira da Rússia o presidente norte-americano provavelmente seria acusado de traição ou morto como um traidor. Os seguidores de Bolsonaro o consideram um patriota justamente porque ele empunhou a bandeira dos EUA. Eles são tão ou mais insanos do que o líder que escolheram e isso deve ser levado em conta. A insanidade política é contagiosa.

O mito virou um blefe, uma vergonha nacional. O bolsonarismo pode ser considerado uma doença pública perigosa. A deslealdade patriótica e a irracionalidade simbólica de Bolsonaro não podem mais ser toleradas. Se não for encerrada logo, a tragédia pessoal desse presidente insano provocará uma crise nacional demorada e eventualmente sangrenta. Qualquer que seja a solução encontrada uma coisa é certa: o Brasil levará décadas para recuperar a credibilidade internacional que perdeu domingo.

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