Três erros estratégicos do bolsonarismo


Fracassou a tentativa de Bolsonaro de criminalizar o PT e derrubar os governadores da oposição. A imprensa e os artistas rejeitam a censura política e evangélica. O isolamento diplomático causado pela destruição da amazônia e pela diplomacia ideológica submissa aos EUA compromete o crescimento econômico. A pandemia e a gestão desastrada da crise sanitária destruíram o que restava do capital político do bolsonarismo.

Por mais que tenha tentado, o presidente não conseguiu seduzir, cooptar ou domesticar o Judiciário. Em algum momento Bolsonaro e os filhos dele serão abatidos pelas investigações criminais em curso. O golpe militar não ocorreu, pois a agenda dos comandantes das Forças Armadas não é idêntica à do capitão cloroquina.

Não é necessário repisar os erros políticos cometidos por Jair Bolsonaro. Afinal, em menos de dois anos ele conseguiu se tornar prisioneiro dos esquemas políticos que supostamente denunciados e rejeitados pelo bolsonarismo. O poder econômico-jurídico-político que gestou e amplificou o anti-petismo até concluir com sucesso o golpe de 2016 não é equivalente ao poder que os Bolsonaro conquistaram e acreditaram desfrutar.

Ao reunir sua matilha nas ruas para dar demonstrações de força, o mito conseguiu apenas destruir o poder aparente que exercia. A criminalização das Fake News e a destruição do gabinete do ódio limitaram o poder de desinformação da familícia.

Ao que tudo indica, o reinado de terror de Jair Bolsonaro já chegou ao fim. Nem mesmo a reeleição de Donald Trump será capaz de perpetuar o bolsonarismo. Esse movimento, que cresceu artificialmente durante o vácuo político criado pelo golpe de 2016, está fadado a ser vítima das contradições insolúveis geradas pela incompetência do mito.

Quais foram os erros estratégicos de Bolsonaro?

O primeiro foi acreditar que o discurso militar seria capaz de substituir o discurso político. As Forças Armadas agradeceram o aumento salarial, mas os comandantes militares não ficaram impressionados com o bonapartismo bananeiro.

O segundo foi abusar das Fake News. A desinformação pode ser eleitoralmente útil, mas sozinha ela é incapaz de sustentar um projeto político que pretende ser duradouro.

O terceiro foi a incapacidade de Bolsonaro de notar e explorar a principal falha do republicanismo à moda brasileira. Todas as dinastias políticas brasileiras de direita tem um pé no Parlamento e outro no Judiciário. Bolsonaro colocou todos os filhos na política. Se um ou dois deles usassem togas a perpetuação da famílicia na política estaria garantida.

Dos três erros estratégicos cometidos pelo mito o terceiro é certamente o mais grave. Bolsonaro não tem garantia de que ficará impune. Enquanto for presidente ele certamente continuará intocável, pois está em condições de pagar o preço da proteção jurídica aos membros do Sistema de Justiça que cuidam apenas dos seus próprios interesses. Mas assim que Bolsonaro deixar o Palácio do Planalto ele e seus filhos poderão ser e provavelmente serão triturados por processos criminais.

A anormalidade do bolsonarismo não conseguirá ser maior e mais permanente do que a anormalidade republicana brasileira. O espaço que os Bolsonaro ocuparam em virtude do vácuo político criado pelo golpe de 2016 tende a ser reconquistado pelas dinastias políticas tradicionais que dominam concomitantemente o Legislativo e o Judiciário.

No mundo inteiro a cloroquina é inútil contra o COVID-19. No Brasil, o único remédio indicado para quem pretende se perpetuar na política é colocar alguns de seus parentes no Judiciário.

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