Trump again, o que é ruim para os EUA é bom para o Brasil


Não é possível fazer escolhas políticas levando em conta apenas as preferências pessoais. Digo isso pensando especificamente no alinhamento automático e irrefletido da esquerda brasileira à candidatura de Joe Biden.

Ok. Bolsonaro se apoia em Trump. Mas isso não significa que o Trump seja um apoiador de Bolsonaro. Muito pelo contrário. Até a presente data os EUA não ofereceu nada, absolutamente nada, em troca da submissão do nosso país à política externa norte-americana.

As demonstrações de amor de Bolsonaro por Trump não foram correspondidas. Mas isso não é suficiente para a esquerda brasileira apoiar a reeleição dele nos EUA. É preciso acrescentar um fator mais importante à essa equação.

Com seus Twitters, Trump criou disputas internacionais que não existiam e amplificou aquelas que poderiam ser minimizadas. Conscientemente ou não, ele dinamitou as pontes lentamente construídas entre os EUA e seus aliados (Europa, Japão e China).

Ao caos externo criado por Trump podemos acrescentar os problemas internos que ele criou e continuará criando. Ao que parece o presidente norte-americano não consegue entender a impossibilidade de comandar um país da mesma forma que ele gerenciava suas empresas.

Um empresário não precisa contemporizar muito com seus empregados. Se for necessário ele pode simplesmente substituí-lo. Não é possível dispensar ou substituir uma parcela da população. Portanto, um chefe de estado tem que conciliar os interesses potencialmente contraditórios dentro de país que governa.

A concorrência entre empresas não é idêntica à concorrência entre Estados. Uma empresa poderosa pode causar a falência de outra que se encontra fragilizada. Se for um bom negócio para ambas e não existir violação da legislação antitruste, a empresa menor poder ser comprada. Os países estão condenados à coexistir. Um conflito militar entre eles, especialmente se ambos forem potências nucleares, está totalmente fora de questão.

É possível aumentar ou diminuir as linhas de tensão entre os países. Mas nenhum país conseguirá crescer isolado. Os norte-americanos precisam vender seus filmes. Se ninguém quiser comprá-los a indústria cultural dos EUA deixará de produzir lucros e impostos. Os chineses precisam vender seus produtos manufaturados. Não faz qualquer sentido deixar de vendê-los no mercado dos EUA, principalmente porque uma parte deles é produzida por empresários norte-americanos que se instalaram em solo chinês.

Trump acredita que a globalização acabou. Entretanto, o endividamento internacional dos EUA não deixou de existir. Além disso, a dependência norte-americana da importação de petróleo e de produtos manufaturados certamente continuará limitando as ambições isolacionistas do presidente dos EUA.

Se for reeleito Trump continuará produzindo estragos no cenário internacional e isso é ruim para os EUA. Mas o que é ruim para os norte-americanos pode ser bom para o Brasil. Quanto mais Bolsonaro alimentar seu amor por Trump menores serão as chances do nosso país romper o isolamento diplomático causado pelo golpe de 2016 e amplificado pela política externa bolsonarista.

Caso fosse obrigado a se distanciar dos EUA, Bolsonaro poderia ser cortejado por europeus e asiáticos. Biden pode ser o herói dos gays e dos negros nos EUA e no Brasil, mas a vitória dele não seria necessariamente boa para os brasileiros que se identificam com aqueles agrupamentos sociais norte-americanos.

E aqui convém pensar no resultado de uma vitória eleitoral de Trump. Ela certamente não será capaz de pacificar os EUA. Muito pelo contrário. O mais provável é que os conflitos que estão ocorrendo no Oregon se tornem maiores, mais intensos e se propaguem para outros Estados norte-americanos.

As forças que produziram o conflito no Oregon são bem conhecidas. De um lado estão os defensores da secessão daquele Estado https://en.wikipedia.org/wiki/Cascadia_(independence_movement). De outro, aqueles que querem separar uma parcela da a área rural do Oregon para anexa-la ao Estado de Idaho https://www.opb.org/news/article/move-oregon-border-greater-idaho-petition/.

De fato, as tensões regionais reforçadas pelos resultados eleitorais continuam sendo mais ou menos aquelas identificadas pelo analista Igor Panarin https://www.theatlantic.com/politics/archive/2010/06/map-of-the-day-ex-kgb-analyst-predicts-balkanization-of-us/58945/. Os fenômenos que causaram o colapso da URSS (aumento de gastos militares, empobrecimento da população e desesperança política) também parecem estar agindo nos EUA https://br.sputniknews.com/opiniao/2018061411467566-eua-russia-europa-urss-colapso/.

Quanto mais os norte-americanos brigarem entre eles é melhor para o Brasil? Sim, sem dúvida. Algumas civilizações foram destruídas por seus inimigos. Outras simplesmente cometeram suicídio. Esse parece ser o caso da civilização norte-americana desde que Trump chegou à Casa Branca. Portanto, ele deveria ser apoiado pela esquerda brasileira. A permanência de Trump no poder é pior para os EUA e, sem dúvida alguma, melhor para o nosso país.

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