Otaviano Canuto rebate o artigo sobre os vícios do PIB potencial

OTAVIANO CANUTO *

Nassif é um mestre na habilidade de escrever sobre os temas e aceitei o convite dele para comentar seu artigo sobre a armadilha do PIB potencial.

Primeiro, corretamente destaca os efeitos perniciosos sobre o PIB potencial advindo de recessões prolongadas, algo reconhecido na literatura como efeitos de “histerese”. Cabe também lembrar tais efeitos na presença de inflação alta, persistente e sob risco de descontrole, porque neste caso se eleva a incerteza quanto a preços relativos e isso tende a afetar negativamente os investimentos. Nossa longa experiência com indexação, mesmo estabelecendo alguma ordem para alguns preços relativos, nunca evitou tal efeito.

Segundo, também corretamente observa que o pleno emprego – ponto ou faixa – é não observável e muda com o tempo. Contudo, não por acaso se usa os sinais observáveis de comportamento da inflação como indicador de onde está a economia. Mais precisamente, focalizando na propagação da inflação, para não misturar com choques temporários e reversíveis. Aliás, é um conjunto de variáveis que se observa para se tentar avaliar se a demanda está excessiva em relação ao produto potencial não observável diretamente: incluindo desemprego e nível de utilização da capacidade, além de (importante) expectativas quanto à inflação. 

Terceiro, o caráter-chave de tais expectativas aparece no fato de que o sucesso na mudança para baixa inflação nas últimas décadas nos EUA pode ser em grande medida atribuído ao êxito da política econômica em ganhar credibilidade e confiança junto aos agentes privados quanto ao compromisso – objeto de um dos recentes artigos de Krugman no NYT.  

Quarto, por isso mesmo a definição de quem estará correto ou não quanto ao tamanho dos pacotes fiscais de Biden será dada pelo que se passar de maneira duradoura com tais expectativas. Caso os atuais choques forem com efeito tomados como temporários e reversíveis ou – agora ou adiante – como sinais de demanda excedendo limites de capacidade de resposta na oferta, ganharão respectivamente Yellen-Powell ou Summers. 

Quinto, isso me lembrou muito de discussão frequente que sempre tive com economistas que insistem em tomar uma versão da macroeconomia muito próxima do que está nos primeiros capítulos dos manuais, reduzindo tudo à demanda efetiva em cada momento no tempo e subestimando os limites de “PIB potencial”. Frequentemente com a suposição de que basta criar demanda, porque aí aumenta o investimento e este cria capacidade suficiente para atender a uma demanda maior sem se defrontar com limites de PIB potencial. Há aí o erro de não considerar que o cálculo capitalista não olha apenas para a demanda corrente na hora de decidir investir, na verdade levando em conta o retorno ajustado a riscos. O que inclui eventualmente riscos de calote público. A meu juízo, Nassif propugna a busca permanente de manejar a demanda de modo a assegurar o pleno emprego todo o tempo, mas a verdade é que, dependendo das circunstâncias e do modo, tal manejo pode ser autodestrutivo em um certo horizonte de tempo.

Sexto, aplico o que digo acima para interpretar o fracasso da política macro de Dilma. Reprimiu preços de energia e gasolina na expectativa de que isso baixaria a inflação, sendo acompanhada pela redução de juros pelo Banco Central e, assim, a mudança da economia brasileira para outro patamar. O problema é que as malditas expectativas não se convenceram de que aquilo era uma mudança sustentável, a defasagem de preços relativos de energia e gasolina só se acentuou e o BC acabou tendo que voltar a subir os juros. Só também a lógica de investimentos como “moto contínuo” para explicar a massiva emissão de dívida pública para repasse ao BNDES e provisão de crédito altamente subsidiado. Só que, ao invés de novos investimentos, a malta trocou dívidas. Afinal, os receptores não viram as taxas de retorno ajustado a riscos que os levassem a novos investimentos. O resultado acabou sendo simplesmente um aumento de dívida pública como contrapartida de transferência de recursos públicos para o setor privado sem investimentos desse. O cálculo capitalista complexo a que me referi não considera apenas demanda efetiva.

Sétimo, considero exageradas e inadequadas as críticas quanto a Malan-Armínio e Joaquim (não considero a extensão inadequada da valorização cambial do período anterior a 1998). Joaquim e Dilma 2 não tinham alternativa em relação a mostrar que fariam algo a respeito das contas públicas. Talvez a correção de preços de energia e gasolina tenha sido excessivamente rápida, provocando choques que induziram o BC a então subir tão dramaticamente os juros – depois da colaboração com baixa na fase anterior! Malan-Armínio também não tinham muita opção a evitar que o choque de reajuste cambial acabasse contaminando expectativas e inflação.  Algum desejo de ignorar os choques em nome de segurar o pleno emprego permanentemente seria um sonho de uma noite de verão.

Não era contrassenso e nem se tratava de questão de algum PIB potencial imaginário ou fantasmagórico nos correspondentes períodos. Foi muito mais uma questão de ressaca decorrente do acúmulo de erros macroeconômicos nos períodos anteriores. 

Agradeço o artigo bem escrito e provocativo.

* Otaviano Canuto é economista do Banco Mundial, e do Conselho de Diretores Executivos do IBRD, da IFC e da MIG, composto por membros do Banco Mundial.

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1 comentário

  1. O conceito de pib potencial é um engodo. Um conceito que tem dezenas de formas de se medir, várias instituições erram feio em relação ao pib corrente, já deveria ter virado historia há muito tempo. Ressalto que há diversos textos acadêmicos sérios que desacredita tal conceito. Querem discutir inflação, pois bem, vamos ao conflito distributivo ( taxa de lucro vs aumento salarial), à taxa de câmbio. Nos EUA, a mídia discute essas variáveis. Em terras tupiniquins, ficamos presos às calendas Globonews.

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