Internauta se passa por João Gilberto em perfil do Facebook

MARCUS PRETO
DE SÃO PAULO

“Vou mandar prender! Entende? Vou mandar prender!”, repete Otávio Terceiro, agente de João Gilberto, assim que aFolha entra em contato, por telefone.

Leia troca de e-mails com o falso João Gilberto

A ameaça é dirigida ao próprio João. Ou melhor, vai para alguém que, há mais de um ano, se faz passar por ele em perfis do Facebook, em e-mails e até em telefonemas.

“No dia em que inventaram o telefone, inventaram também o trote telefônico. Com internet é a mesma coisa”, diz Terceiro, que além de empresariar João, é o amigo mais próximo há décadas.

João, como se sabe, é a figura mais reclusa da MPB. Não sai de casa, não dá entrevistas, não recebe amigos. Aos 80 anos, é nada verossímil imaginar o cantor frequentando redes sociais.

Mas o caso não é tão simples. O João virtual é bem informado demais sobre o João real para ser um qualquer.

Desde que inaugurou sua página no Facebook, ele se comunica com músicos como Danilo Caymmi, Jacques Morelenbaum, Mú Carvalho e Daniel Jobim, entre muitos.

E aprofundou a relação com vários deles. Roberto de Carvalho, que conheceu João de perto nos anos 1980, em trabalhos que ele fez com sua mulher, Rita Lee, conta: “Ele canta a bola e acontece. Foi assim com os shows cancelados no ano passado e com o lance do despejo. Ele, exatamente como se fosse João, avisou que aconteceriam.”

Sérgio Carvalho, que fez direção artística do JG real no disco “João, Voz e Violão” (2000), garante que se trata do próprio. O que confirma, segundo ele, são os detalhes.

“Ele fala sobre coisas que são só nossas”, diz. “Quando estávamos gravando o disco, ele me recomendou sua pizzaria preferida. Agora, pela internet, falei que tinha ficado viciado nela. E ele –pumba!– botou o nome da pizzaria embaixo. Como é que alguém ia saber isso?”

DESABAFO

Foi esse mesmo João Gilberto que procurou, um mês antes, via Facebook, a reportagem da Folha. Queria “desabafar”. Estava em crise de pânico, sofrendo muito e dormindo nada, angustiado com a possibilidade de ser despejado do apartamento em que vive há 15 anos, no bairro do Leblon, no Rio.

Mas seria ele mesmo? João Gilberto? “Ele jamais usaria a palavra ‘desabafar'”, garantiu Claudia Faissol, mãe da filha mais nova do artista. “Olha, em se tratando desta pessoa, tudo é possível. Até mesmo que seja ele de verdade”, disse Nelson Motta. “Vai em frente e me conta.”

A entrevista ficou marcada para aquela mesma noite, mas teria de ser feita por e-mail. “Não é duvidando de você, mas tenho medo”, escreveu o suposto João. “Esse ano que passou, a ‘Veja’ aprontou uma comigo. Me colocaram de bobo. Então, prefiro que seja por aqui.”

Se tudo isso já soava suficientemente surreal àquela altura, a sensação de delírio só aumentou a partir das 22h52, quando começaram a chegar à caixa postal, de meia em meia hora, mensagens assinadas por João Gilberto Prado Pereira Oliveira. De uma conta de Gmail.

VALE TUDO

Foram, ao todo, 11 mensagens, madrugada adentro. Os assuntos variavam entre o despejo, as chuvas que devastaram a região serrana do Rio, futebol, vale tudo, livros, yoga, televisão.

Também falou, é claro, sobre música. “Não sou gênio. Gênio é Einstein, Bach, Jobim, Caymmi, Mozart, Beethoven, Newton. Eu batalhei em cima do meu ofício, que é tocar, tocar, tocar e tocar.”

A fluidez com que comentava esses e outros temas, sempre com um estilo tão peculiar de encadear as palavras, levava a crer que era mesmo João do outro lado.

Entre o envio de um e-mail com as perguntas a JG e a chegada de outro com as respostas dele, 30 minutos depois, havia tempo livre para seguir com a investigação.

Notívago como João, Caetano Veloso haveria de estar no computador àquele horário. “Caetano, desculpe o inusitado deste e-mail. É que uma pessoa está trocando mensagens comigo se dizendo João Gilberto. Isso faz qualquer sentido para você?”

Veio a resposta. Caetano nunca havia ouvido falar que João tivesse um e-mail, nem que usasse computador. Quis ver as mensagens.

IGNORANTE E JOVEM

“Pode tirar seu cavalinho da chuva: não é João”, cravou Caetano. “O cara faz erros crassos na letra do ‘Carnaval da Vitória’. A letra fala de um soldado que lutou na Segunda Guerra. A idade influi para o entendimento dessa canção: quem está escrevendo não conhece a música, é ignorante e é jovem.”

E decidiu, ele mesmo, também escrever ao tal João.

“É você mesmo?”, duvidava o JG virtual. Mas, apesar da dúvida, pediu ao compositor: “Eu queria, se fosse possível, que você falasse [no jornal] ‘O Globo’ que não posso sair do apartamento”.

Citava os artigos já escritos pelas cantoras Rita Lee e Rosa Passos e pelos jornalistas Ruy Castro e Luis Nassif.

Na sequência, seguiu com a entrevista invertendo a informação: “Caetano acaba de me escrever e-mail prestando solidariedade. Quer saber como poderia ajudar”.

Ao final da série e mensagens, já no meio da madrugada, pedi: “Preciso de uma confirmação. Comprovar para minha chefia que você é você mesmo. Um telefonema resolveria. Você me liga?”.

Dia seguinte, mesmo horário, toca o telefone. Uma televisão altíssima grita ao fundo. E a voz de uma pessoa de, no máximo, 30 anos (Caetano estava certo), força um sotaque baiano sussurrado: “Sou eu mesmo. João. Pode publicar”. Só isso. Desliga.

Em quatro semanas, a Folha tentou, por meio de pessoas próximas a ele, entrar em contato com o João real. Impossível. Ele se esquiva de encontrar os oficiais de justiça que querem levar a ação de despejo. E mesmo o porteiro do apartamento diz que ele não mora lá.

“Pelo que conheço, João jamais ligaria para você só para dizer que ele é ele”, argumentaria Miúcha, no outro dia. “Esses pequenos detalhes negam, mas não sei dizer. Não acho nada impossível, João é imprevisível.”

Essa não foi a única ligação que João, o virtual, fez em sua história. No Natal, telefonou para a casa da mãe de Sérgio Carvalho. Sabia que, naquele horário, a família estaria toda reunida para a ceia. Além de Sérgio, estariam na casa os irmãos Dadi (que conviveu com JG quando integrava a banda Novos Baianos, nos anos 1970), Mú Carvalho e Heloísa Tapajós.

“Não falou nada. Só cantou”, diz Heloísa. “Ficamos passando o telefone de um para o outro, até ele desligar. Quer presente melhor?”

No que depender da ordem de prisão de Otávio Terceiro, Papai Noel não visitará a família no Natal que vem.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/882912-internauta-se-passa-por-joao-gilberto-em-perfil-do-facebook.shtml

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