Robert Capa e a valise mexicana, por Walnice Nogueira Galvão

Robert Capa e a valise mexicana

por Walnice Nogueira Galvão

Corra que ainda dá tempo, mas não perca a exposição intitulada  A valise mexicana na Caixa Cultural, na Praça da Sé.

Os arquivos do grande fotógrafo Robert Capa tinham desaparecido de seu estúdio em Paris no início da Segunda Guerra, quando o caos se instalou. Ele mesmo cedo faleceria em 1954, quando pisou numa mina no Vietnã, país que então se chamava Indochina e lutava para expulsar o colonizador francês, depois substituído pelo invasor americano.

O acervo foi achado na Cidade do México e chegou a Nova York em 2007. Agora a salvo, contém – pasmem! – 4.500 negativos em 126 rolos de filme, caprichosamente preservados e identificados quadro a quadro.

Uma beleza de exposição. Os minúsculos negativos revelados trazem uma lupa que fica às ordens do visitante. Há explicações pelas paredes, além de vídeos e ampliações. Dois imensos gaveteiros oferecem material complementar: quem quiser saber mais, é só seguir as instruções abaixo das fotos e procurar nas gavetas devidamente numeradas. Há ali revistas e jornais com a história da guerra; publicações em que as fotos apareceram; cartas trocadas; papeis oficiais, salvo-condutos, passaportes e permissões; tudo muito elucidativo.

Numa das fotos vemos André Malraux e em outra Ernest Hemingway, que era correspondente de guerra e depois escreveria um romance sobre a campanha, Por quem os sinos dobram, mais tarde levado às telas com Ingrid Bergman e Gary Cooper. O futuro ministro da Cultura da França, Malraux, por sua vez, produziria um livro, L´espoir, e aquele que é o mais famoso filme de testemunho, Espoir, cujo belo e lacônico título diz tudo.

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Recebemos uma aula de história como raramente temos a sorte de receber. E que história!

Todas as guerras são um horror, mas esta começou quando o General e depois Generalíssimo Franco deflagrou um golpe de direita, derrubando um governo democraticamente eleito. Os espanhóis resistiram e o resultado foi um conflito armado que se arrastou por vários anos. O pior ainda estava por vir, pois os golpistas se eternizariam por 40 anos no poder, mergulhando a Espanha em obscurantismo,  acarretando um atraso difícil de recuperar.

A ascensão da direita na Europa foi geral à época, quando a Espanha com Franco e Portugal com Salazar se tornaram ditaduras, a Itália se tornou fascista com Mussolini e a Alemanha nazista com Hitler, levando à Segunda Guerra e à aniquilação da Europa. Fascistas e  nazistas enviaram tropas e armamentos aos golpistas de Franco:  os aviões de Hitler efetuaram pela primeira vez na História bombardeios indiscriminados sobre a população civil indefesa. O conflito espanhol foi campo de prova para as novas tecnologias bélicas que logo seriam utilizadas numa guerra generalizada.

Voluntários de boa-vontade acorreram do mundo todo para apoiar os espanhois nas Brigadas Internacionais, constituídas por 40 mil estrangeiros, com baixas que chegaram a um quarto.

A derrota foi completa e irreversível. Robert Capa acompanhou o êxodo das multidões em fuga, sobretudo rumo à França, fotografando-as em trânsito e na esqualidez dos campos de concentração. É o que acontece quando se bombardeia população civil, como os americanos e sua coalizão estão fazendo com os sírios, criando nove milhões de refugiados.

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Essa é a razão de Picasso ter pintado Guernica e proibido que a tela fosse exibida em território espanhol antes do fim da ditadura: Guernica foi a primeira cidade destruída sistematicamente pelos aviões alemães. A tela ficou exposta no MoMa de Nova York e até veio para a 2ª. Bienal de São Paulo em 1953. Hoje paira soberana no Museu Reina Sofia, em Madri.

Robert Capa vivia em Paris com sua namorada Gerda Taro, também fotógrafa, cujas fotos estão expostas conjuntamente na Caixa Cultural. Os dois decidiram registrar o lado popular da resistência espanhola e ela ali morreria, no front de Brunete, aos 27 anos. Detém a honra de ser a primeira fotógrafa da História morta em seu posto. E ambos ajudaram a definir a fotografia de guerra, de que são pioneiros.  

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP

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