Sertão sem fim pelas lentes de Araquém Alcântara

Enviado por JNS

As vacas e os cavalos de Guimarães Rosa

Sertão sem fim

“Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor.”

Fotos do cracasso Araquém Alcântara

“… não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros.”

“Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!”

“… nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida.”

“Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel.”

Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (…) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda.”

– João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz – “Dialogo com Guimarães Rosa“.

 

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8 comentários

  1. Pedacinho do Céu

     

    Ser tão Gerais fincado nas raizes das quais não se pode fugir

    “Pinto o que vejo e o que vivo, sobrevivendo aos modismos contemporâneos, que vez ou outra insistem em me seduzir. Mas, as raízes, aquelas das quais não se pode fugir, me pedem para serem expostas.”

    “Tenho um compromisso com a arte: levar ao mundo um pedaço do meu mundo que o progresso ainda não conseguiu engolir” – José Rosário é um arteiro, de Dionísio, Minas Gerais, que possui raizes espalhadas até o pescoço.

    [video:http://youtu.be/FJJhm7gNL8c width:600 height:450]

  2. A Arte de José Ricardo

     

    José Ricardo de Souza, natural de João Monlevade, Minas Gerais, iniciou os experimentos na pintura em 1993, buscando referências no trabalho de artistas locais para fazer sua própria arte.

    Seus temas principais são as paisagens em torno do Rio Piracicaba, os animais e as montanhas de Minas.

    Através de suas obras, José Ricardo persegue a paz espiritual amoitada nas belas paisagens rurais de Minas Gerais.

    Ele retrata com respeito o sertão mineiro e a ele entrega os seus cenários encantados de montanhas, rios e ribeirões que serpenteiam por vales verdejantes entecortados pelas poeirentas estradas dos cantões das Gerais.

    O trabalho de José Ricardo é reconhecido em todo o território nacional e divulgado na América e Europa.

    O cheiro do sertão e o fulgurante brilho enluarado lançados pelos recantos da alma sertânica da eterna rainha Inezita Barroso

    [video:http://youtu.be/HYte6cy4_J4 width:600 height:450]

  3. Registros de um andarilho

     

    “Crônica da beleza e do extermínio”

    – Araquém de Alcântara sintetiza a própria fotografia

    “Eu renego as estradas de asfalto. Decidi conhecer este País com o coração. O meu mapa do Brasil é feito de nomes de lugares mágicos”, filosofa.

    Celebrado como um dos precursores da fotografia ecológica no país, Araquém Alcântara já publicou mais de 15 livros, tendo ainda participado de uma vintena de obras coletivas e realizado mais de meia centena de exposições individuais.

    Seu livro Terra Brasil é o livro de fotografia brasileiro mais vendido de todos os tempos, tendo ultrapassado a marca dos 100 mil exemplares.

    Merecem menção ainda os livros: Árvores mineiras (1987); Juréia, a luta pela vida (1988); Mar de Dentro e Brasil: Herança ambiental (1990); Estações Ecológicas do Brasil (1992); Santa Catarina (1993); Projeto Dique e Ecologia no Brasil: Mitos e realidade (1995); Brasil Iluminado (2000); Paisagem brasileira (2003); Pantanal (2003); Brasileiros (2004).

    Ele já foi homenageado com diversos prêmios nacionais e internacionais, já organizou mais de meia centena de exposições individuais e é considerado um dos maiores fotógrafos da atualidade.

    O fotógrafo Araquém Alcântara, 64, dedicou-se a uma missão: retratar o sertão do Brasil e não poupou a sola do sapato, nem os pneus do carro.

    Fez dez viagens, percorreu 100 mil quilômetros e bateu milhares de fotos. O resultado está em seu 47º livro, Veredas, e na exposição homônima, em cartaz na capital paulista até o fim deste mês.

    Obstinado, o “fotógrafo andarilho”, como gosta de ser chamado, caminhou pelas regiões mais recônditas, passando por lugares pouco ou nada conhecidos, como Serra das Confusões (PI), Buriti Cristalino (BA), Catimbau (PE) e Vão de Almas (GO). “Eu renego as estradas de asfalto. Decidi conhecer este País com o coração. O meu mapa do Brasil é feito de nomes de lugares mágicos”, filosofa.

    Araquém é considerado um dos melhores fotógrafos de natureza do País. Mas Veredas, além de paisagens e animais, traz retratos de quem ele conheceu em suas andanças.

    Como visita várias vezes alguns lugares, celebra muitos reencontros. “Outro dia fui visitar o seu Raimundo, no Rio Grande do Norte. Ele preparou camarões e eu ofereci um uísque. Naquele momento vivemos a felicidade”, conta.

    Para escolher as 69 fotos que estão no livro, o autor e o curador Eder Chiodetto partiram de uma pré-seleção de 1,5 mil imagens. Feitas em preto e branco, foram impressas em quadritone – um tom terroso.

    “Eu quis retratar o sertão como o palco de uma grande tragédia, tal como fez Guimarães Rosa” –  Araquém.

    Já a exposição tem uma amostra ainda menor: são 15 registros, alguns com até dois metros de altura. “É lindo ver as coisas em alto estilo. Meu ego está pra lá de Marrakesh”, brinca ele, que não expunha no Brasil há dez anos.

    E, como interpretar o País é o seu ofício, não lhe faltam novos projetos. As paisagens, os pescadores, as águas, o programa Mais Médicos e a Mata Atlântica são alguns dos temas sobre os quais ele promete se debruçar nos próximos meses. Tudo indica que o 48º livro sai em breve.

    Entre seus prêmios mais importantes, destacam-se: Prêmio Dorothy Stang de Humanidade, Tecnologia e Natureza – categoria Humanidade (2007); Prêmio Fernando Pini de melhor livro de arte do ano, com a obra Mar de Dentro (2007); Prêmio Jabuti para o livro Amazônia (2006), Prêmio Von Martius da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, categoria Natureza (2002); Prêmio Abril de Jornalismo pelas suas reportagens sobre a Amazônia (nos anos 1998, 2001 e 2010); e Prêmio Benny, pelo livro Araquém Alcântara – Fotografias (2011). 

    As principais fontes de consulta, com imagens disponibilizadas na Internet, foram:

    http://www.araquem.com.br/  |  http://www.funarte.gov.br/  |  http://www.azulmagazine.com.br/

  4. Jones

    Que fotos poéticas, retratros eloquentes de uma vida outra à essa a que estamos [mais] habituados. E as palavras de João Guimarães Rosa, como titulos dessas imagens, tira a teia de nossos olhos para nossa beleza mais simples e real.

    • Veredas

       

      Também guardo o mesmo sentimento de Rosa quando observo o olhar dos cavalos.

      Já fiz várias fotos aproximadas para captar a profunda tristeza transmitida pelo olhar e, no momento que fazia as minhas fotos, eu queria falar com eles – sou meio doido?

      “É que eu sou antes de mais nada este ‘homem do sertão’; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente como você, que ele, esse ‘homem do sertão’, está presente como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa.”

      “… gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.”

      “Não é possível dialogar com pessoas que manifestam por escrito a sua incompetência, pois lhes falta a condi­ção básica para o diálogo: o respeito mútuo. Por isto o que essa gente escreve não me perturba; simplesmente não leio mais jornais.”

      “Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo onde ele não adianta muito; lá se necessita de pão, armas, cavalos, e ainda se pratica o comércio de troca. Naturalmente, não fico infeliz, quan­do tenho dinheiro suficiente para viver como quero. Mas não nego esse fato. A esse respeito, quero dizer uma coisa: enquanto eu escre­via Grande Sertão,minha mulher sofreu muito porque nessa época eu estava casado com o livro. Por isso dediquei-o a ela, para lhe agradecer sua compreensão e paciência. Você deve saber que tenho uma mulher maravilhosa. Como sou um fanático da sinceridade lingüística, isto significou para mim que lhe dei o livro de presente, e portanto todo o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela, somente a ela, e pode fazer o que quiser com ele. Não necessito dele, tenho meus vencimentos; uma verdadeira mulher sempre sabe encontrar utilidade para o dinheiro, tanto no sertão como no Rio. Pode-se achar precipitada esta atitude, principalmente, quando de­pois o livro obtém grande êxito. Mas uma dedicatória é uma pro­messa, e devemos cumprir nossas promessas.”

      “Nós sertanejos somos muito di­ferentes da gente temperamental do Rio ou Bahia, que não pode fi­car quieta nem um minuto. Somos tipos especulativos, a quem o simples fato de meditar causa prazer. Gostaríamos de tornar a explicar diariamente todos os segredos do mundo. Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer. É por isso que nor­malmente não costumo conversar se antes não posso pensar tran­quilamente e até o final. Você conseguiu, pela primeira vez, me induzir a fazer o contrário. E também choco meus livros. Uma pala­vra, uma única palavra ou frase podem me manter ocupado durante horas ou dias. Para isso, não preciso forçosamente de um escritório. Gosto de pensar cavalgando, na fazenda, no sertão; e quando algo não me fica claro, não vou conversar com algum doutor professor, e sim com algum dos velhos vaqueiros de Minas Gerais, que são todos homens atilados. Quando volto para junto deles, sinto-me vaqueiro novamente, se é que alguém pode deixar de sê-lo. Temos de aprender outra vez a dedicar muito tempo a um pensamento; daí seriam escritos livros melhores. Os livros nascem, quando a pessoa pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras.”

      “Escrever é um processo químico; o escritor deve ser um alquimista. Naturalmente, pode explodir no ar, A alqui­mia do escrever precisa de sangue do coração. Não estão certos, quando me comparam com Joyce. Ele era um homem cerebral, não um alquimista. Para poder ser feiticeiro da palavra, para estudar a alquimia do sangue do coração humano, é preciso provir do sertão.”

      “Quem interpreta como um nacionalismo mesquinho o fato de eu partilhar a maneira de pensar e de viver do sertão, é um tolo; prova apenas que não entende meus livros e que nem mesmo é capaz de compreender corretamente o que nós dois, com grande cuidado, tra­tamos de destacar aqui! Se apesar de tudo continuarem me interpretando ao contrário, lamento muito, mas nada mais posso fazer. Não se pode argumentar com alunos deficientes, nem ter qualquer espé­cie de consideração para com eles. Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde Inneres und Ausseres sina nicht mehr zu trennen, segundo o Westöstlicher Divon. No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. O sertanejo, você mesmo escreveu isso, “perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que- produz o pecado original”. Ele está ainda além do céu e do inferno. Er ist der Mensch, der Gott verloren und den Teufel gefunden hat[23], assim você o definiu e está certo. Estou constantemente citando o seu próprio ensaio que me impressionou muito, e realmente não posso entender como você pôde se aproximar tanto de minha metafísica, se naquela época ainda não me conhecia.”

      LORENZ: Esta invocação do sertão me lembra muito aquele fa­moso pedido de Ortega y Gasset de um Goethe dentro de si…

      GUIMARÃES ROSA: Sim, sim, concordo imediatamente. “Pedindo um sertão dentro de si. Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreen­síveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas. Mas esta comparação com a citação de Ortega y Gasset não foi tomada de tão longe como à primeira vista poderia parecer. Expondo-me ao perigo de que meus leitores alemães me apedrejem, ou, o que seria pior, não leiam meus livros por eu estar atentando contra o que eles têm de mais sagrado, eu lhe digo: Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Goethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo. Zola, para tomar arbitrariamente um exemplo contrário, provinha apenas de São Paulo. De cada cem escritores, um está aparentado com Goethe e noventa e nove com Zola. A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de sua consciência. Hoje em dia acontece algo semelhante. A consciência está desperta, mas falta o vigor da língua. A maldição dos costumes ê notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente, porque querem causar sensação, e isso não pode ser.

      Excetuando-se as duas primeiras, as demais fotos são de Araquém de Alcântara, o outro colecionador de mundos,  com citações de Guimaráes Rosa extraídas do “Diálogo com Guimarães Rosa”, Gênova, janeiro de 1965, por Günter Lorenz.

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