Motivos errados para odiar o futebol, por Felipe A. P. L. Costa

Motivos errados para odiar o futebol

Por Felipe A. P. L. Costa

Às vésperas da Copa FIFA 2018, a indiferença da opinião pública brasileira pelo evento parece estar na estratosfera. Aconteceu alguma coisa. (Alô, alô, sociólogos e historiadores, onde estão vocês?) Afinal, quatro anos atrás, quando o evento foi realizado na ‘terra do futebol’, o clima era bem outro.

Já naquela época, porém, havia quem odiasse o jogo – não apenas o negócio futebol, mas o esporte em si. Há motivos para abominar o circo que há em torno do futebol, assim como há ótimos motivos para desligar a TV assim que começarem as partidas da Copa 2018. (Um deles, adotado momentânea e involuntariamente pela minha família, é não ter um aparelho desses funcionando em casa.)

O artigo reproduzido abaixo, no entanto, é um exemplo de como é possível odiar o futebol pelos motivos mais tolos do mundo. (A força e o alcance dos argumentos evocados pela autora, dublê de advogada e jornalista, me fazem pensar que a sobrevivência de certos personagens em nossa vida pública, como Janaína Paschoal e Diogo Mainardi, não se deve apenas e tão somente ao nosso atraso cultural. Tem mais alguma coisa nessa história. Ou, como diria uma amiga minha, “Nesse angu tem caroço”.) Vamos ao artigo.

 

O passatempo nacional favorito nos EUA: Odiar futebol

Por Ann Coulter [1]

Evitei escrever sobre futebol por uma década – ou quase o tempo de duração de uma partida –, a fim de não ofender ninguém. Mas já chega. Qualquer interesse crescente pelo futebol só pode ser sinal da decadência moral da nação.

1. A realização individual não é um fator importante no futebol. Em um esporte de verdade, os jogadores perdem passes, arremessam tijolos e deixam cair bolas aéreas – tudo diante de uma multidão. Quando rebatedores de beisebol saem do jogo por não terem acertado a bola, eles estão sozinhos na base. Mas há também glória individual em home runs [beisebol], touchdowns [futebol americano] e enterradas [basquetebol].

No futebol, a culpa é repartida e, em todo caso, quase ninguém assinala um tento. Não há heróis nem perdedores, nenhuma responsabilidade, nenhuma autoestima frágil e infantil é magoada. Há uma razão para as mães sempre preocupadas serem chamadas de ‘mães do futebol’, e não de ‘mães do futebol americano’.

No futebol, eles ao menos têm o Jogador Mais Valioso [MVP, na sigla em inglês]? Todos estão apenas a correr de um lado para o outro do campo e, de vez em quando, a bola entra acidentalmente. É quando nós devemos enlouquecer. Mas aí eu já estou dormindo.

Alemanha vs. Inglaterra

2. Mães liberais gostam do futebol porque é um esporte no qual o talento atlético tem tão pouca chance de se manifestar que as meninas podem jogar com os meninos. Nenhum esporte sério é misto, mesmo no nível do jardim da infância.

3. Nenhum outro ‘esporte’ termina em tantos empates zerados como o futebol. Esse era o verdadeiro aviso de um letreiro de autoestrada em Long Beach, Califórnia, a respeito de um jogo da Copa do Mundo, semana passada: “2º tempo, restando 11 minutos, placar: 0 x 0”. Duas horas mais tarde, outro jogo da Copa do Mundo tinha os mesmos dizeres: “1º tempo, restando 8 minutos, placar: 0 x 0”. Se Michael Jackson tratasse a sua insônia crônica com um vídeo de Argentina vs. Brasil, em vez de Propofol, ele hoje estaria vivo, ainda que chateado.

Mesmo no futebol americano, e com isto quero dizer futebol de verdade, há pouquíssimos empates em zero a zero – e é bem mais difícil marcar quando meia dúzia de grandalhões de 150 quilos estátentando esmagá-lo.

4. Para ser computado como esporte, faz-se necessária a perspectiva de humilhação pessoal ou de lesão grave. A maioria dos esportes é uma guerra sublimada. Como a sra. Thatcher teria dito, após a Alemanha vencer a Inglaterra, em alguma partida de futebol importante: “Não se preocupem. Afinal, ao deste século, nós os vencemos duas vezes no esporte nacional deles”.

O futebol é europeu

Beisebol e basquetebol oferecem um risco constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas por partida – e não é um passeio na praia estar sobre o gelo com um disco voando a uns 250 quilômetros por hora. Após uma partida de futebol americano, os feridos são levados em ambulâncias. Após uma partida de futebol, cada jogador ganha uma faixa e uma caixinha de suco.

5. No futebol, você não pode usar as mãos. (Eliminando assim o risco de ter de pegar uma bola aérea.) O que distingue o ser humano das feras inferiores, além da alma, é o fato de termos polegares oponíveis. Nossas mãos podem segurar coisas. Eis uma ideia grandiosa: Vamos inventar um jogo no qual não seja permitido usá-las!

6. Eu me ressinto do aspecto forçado do futebol. As pessoas que tentam empurrar o futebol aos estadunidenses são as mesmas que querem que nós amemos [a série] ‘Girls’, da HBO, veículos leves sobre trilhos, Beyoncé e Hillary Clinton. O número de artigos no New York Times afirmando que o futebol está ‘pegando’ só é superado pelo dos que alegam que o basquetebol feminino é fascinante.

Observo que nós não temos de assegurar o tempo todo o quão o futebol americano é emocionante.

7. É estrangeiro. Na verdade, esta é a verdadeira razão pela qual o NYT está constantemente compelindo os estadunidenses a amar o futebol. Um grupo de fãs do esporte entre os quais o futebol não está ‘pegando’ de modo algum é o dos afro-estadunidenses. Eles permanecem claramente indiferentes ao fato de os franceses gostarem do jogo.

8. O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram, pois é europeu. Naturalmente, o sistema métrico surgiu da Revolução Francesa, durante os breves intervalos em que eles não estavam cometendo assassinatos em massa com a guilhotina.

O fetichismo pelo futebol

Apesar de as escolas públicas submetê-los a uma lavagem cerebral ao estilo chinês, visando usar centímetros e Celsius, pergunte a qualquer estadunidense qual é a temperatura, e ele irá dizer algo como “70 graus”. Pergunte quão distante Boston está de Nova York, e ele irá dizer algo como 200 milhas.

Os liberais ficam furiosos, dizendo que o sistema métrico é mais ‘racional’ que as medições que todo mundo entende. Isso é ridículo. Uma polegada é a largura do polegar de um ser humano, um pé é o comprimento do pé dele, uma jarda é o comprimento da cintura. Isso é fácil de visualizar. Como você visualiza 147,2 centímetros?

9. O futebol não está ‘pegando’. Manchetes desta semana anunciavam ‘Audiência recorde nos EUA para a Copa do Mundo’, e tivemos de ouvir – mais uma vez – a respeito da “crescente popularidade do futebol nos Estados Unidos”.

A partida EUA vs. Portugal foi o jogo de maior audiência, obtendo 18,2 milhões de telespectadores na ESPN. Isso supera a segunda partida de futebol mais assistida no país: a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1999 (EUA vs. China), na ABC. (No futebol, os jogos das mulheres são tão emocionantes quanto os dos homens.)

Partidas comuns da temporada de futebol americano, domingo à noite, têm em média mais de 20 milhões de telespectadores; partidas decisivas da Liga Nacional têm entre 30 e 40 milhões; e a grande final [Super Bowl] deste ano teve 111,5 milhões de telespectadores.

Lembra de alguns anos atrás, quando a mídia tentou nos empurrar o astro britânico do futebol David Beckham e a sua esposa, sempre pronta para as câmeras? A chegada deles aos Estados Unidos foi anunciada em cobertura 24/7 [24 horas por dia, sete dias por semana]. Isso durou uns dois dias. A audiência despencou. Ninguém ligava.

Se hoje mais ‘estadunidenses’ estão assistindo futebol, isso se deve apenas à mudança demográfica efetuada pela lei de imigração de 1965, de Teddy Kennedy. Garanto a você: Nenhum estadunidense cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Podemos apenas esperar que esses novos estadunidenses, além de aprender inglês, venham com o tempo a largar o seu fetichismo pelo futebol.

*

Nota

[1] Ann [Hart] Coulter (nascida em 1961). O original, intitulado ‘America’s favorite national pastime: Hating soccer’, foi publicado em seu blogue, em 25/6/2014. Versão em português, algo diferente, foi publicada no Observatório da Imprensa (n. 805), em 1/7/2014. A tradução e os intertítulos são de Felipe A. P. L. Costa.

[Nota adicional: para informações a respeito do livro mais recente do tradutor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre o modo de aquisição da obra por via postal, ver aqui; para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.]

*

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

11 comentários

  1. Aqueles que, como eu,

    Aqueles que, como eu, acompanham a mídia independente americana na internet, geralmente não perdem tempo com Ann Coulter.

    É uma pessoa tão obtusa que nem prá cometer uma gafe decente serve.

    Praticamente todos os argumentos utilizados por ela para atacar o futebol servem, feitas as devidas adaptações, para desqualificar igualmente o beisebol (de que sou fã), o futebol americano, e o basquete.

    Mas, é claro, ela não tem como perceber isso.

    Mas ela ter falado sobre futebol me trouxe uma lembrança agradável: a do comentarista de rádio Afonso Soares, com seus bordões, que eu escutava nos anos 70 e 80, no Rio.

    Algum repórter perguntaria a ele: – Afonso, e a Ann Coulter?

    E ele responderia: – A Ann Coulter? Ah, ela é muito engraçada!

  2. “A maioria dos esportes é uma guerra sublimada”

    Grato pela oportunidade de conhecer o texto, uma referência em matéria de decadência conservadora. As patriarquias disputam seu futebol, qual evidencia mais o “time de moças”. O maior espaço de homossocialização falocêntrica heterosexista ginofóbica, metrônomo da violência doméstica fascista inflamada pelo álcool contra a mulher e o que não “seja homem”. Agora contamos com o manifesto de Ann Coulter.  Are You Listening, Hillary?

  3. Uma vez que Ann Coulter mistura futebol com sociedade,

    economia e quejandos, convém lembrar dois detalhes interessantes:

     

    o tal rugby (o pai do “futebol” “americano”) costuma confundir meio com fim. Nesse esporte existe o equivalente às traves do gol que é aquele garfo desdentado nas extremidades, e o objetivo de cada time deveria ser marcar gols nesse garfo.

    Só que não, a marcação se dá é com o avanço do jogador no campo adversário – o que dá pontos.

    Penso que este avanço é apenas o meio de se alcançar uma bola atravessando o tal garfo, porém o avanço é que é premiado, por ser mais fácil de se obter.

    No futebol futebol que conhecemos, o objetivo é marcar gol e não necessariamente avançar. E às vezes a defesa de um time é melhor do que o seu ataque, o que pode levar a jogos empatados. Ou um gol pod ser marcado diretamente a partir do centro do campo, passando por toda a defesa adversária.

    Confusão similar ocorre com as Forças Armadas estadunidenses: nas invasões em que se metem, a maior parte de deslocamentos fica por conta da multiplicidade de armamentos e munições, das quais poucas são utilizadas. O soldado da infantaria deles tem que carregar uns trinta quilos, além da arma. Não é à toa que cansam rápido e para contornar isso, já trazem seus veículos. E essa parafernália não vale nada numa guerra na selva.

    O outro detalhe é que muitos dos esportes populares por aquelas bandas são pouco ou praticamente nada praticados em outras paragens. Por exemplo, o próprio “futebol” “americano”, e o tal do beisebol não possui adversários dignos de nota fora dos EUA. Assim é muito fácil ser campeão mundial nestes esportes.

    Por outro lado, outros esportes, como o vôlei e o basquete, que também eram liderados pelos EUA durante muito tempo, depois que se disseminaram pelo mundo, acabaram fornecendo adversários à altura aos EUA. Daí, eles se tornaram desinteressantes para eles.

     

  4. Motivos Certos para Odiar o

    Motivos Certos para Odiar o Futebol:

    – Esporte importado do sanguinário Império Britânico.

    – Esporte historicamente das elites, que segregaram pobres, negros e mulheres.

    – Esporte do “pão e circo”, usado estrategicamente para distrair a população de seus problemas sociais.

    – Esporte da sujeira e da lavagem de dinheiro. CBF e FIFA que o digam.

    – Esporte da violência, onde pessoas se matam porque torcem para um time.

    – Esporte da Globo, que manda nesse lixo aqui no Brasil.

    Pro inferno com o futebol, a Copa do Mundo e o Neymar.

    • O resultado do jogo depende
      O resultado do jogo depende de mim? É mérito ou demérito meu? Então por quê vou me importar com o resultado? Posso até assistir como quem assiste algo que não me diz respeito, mas sem torcer pelo que não é meu e não me traz benefícios. Prefiro usar meu tempo para tratar da minha vida.

  5. Ela apenas poderia dizer que

    Ela apenas poderia dizer que não gosta de “soccer”, que prefere basquete, futebol americano, beisebol, hoquei e sei lá mais o que. Ok, é questão de gosto, que como sabemos é uma construção cultural. 

    Mas aí foi querer ser engraçadinha, espirituosa e “criativa”. Daí de toda a merda que falou o que ficou? Um elogio da violência com um quê de machismo, e o agressivo ufanismo idiota do tipo “foda-se que o mundo inteiro gosta. Nós somos fodões e ficamos com nossos foots e milhas sim e daí? Vai encarar?”

    Se ela tivesse a humildade de reconhecer sua mediocridade diante de um Nelson Rodrigues por exemplo, poderia ler sem culpa tudo o que o escritor brasileiro já escreveu sobre futebol (soccer). 

    Aí constataria o que é saber ver num simples esporte, no caso o futebol, a condição humana se manifestando, no que tem de trágico, heróico, dramático e até épico. Mais aí é coisa de gênios, não de engraçadinhos.

    Uma simples dica. Se ela reclama que uma partida de futebol fica um tempão sem um gol, não passa por sua cabeça que isso faz do gol algo bem mais valorizado? Se o sujeito faz 100 cestas numa partida cada cesta é apenas mais uma cesta. O gol é como o gôzo e a cesta como uma bitoquinha. Sacou?

    PS: Seria melhor se tivesse analisado a “tentativa do NYT de forçar o sucesso do soccer nos EUA” como apenas o interesse do capital americano por um mercado bilionário. Atrás talvez apenas do tráfico de armas e drogas, esportes onde Tio Sam é campeão, diga-se de passagem.

  6. Tentei mandar um comentário,

    Tentei mandar um comentário, mas não deu. Acho que estou enferrujado. Vamos lá. Era mais ou menos assim:

    O artigo é puro ianquecentrismo. Ela deve ter uma bandeira dos eua no quarto e a beija todo dia antes de acordar e de dormir. Mas isto é com ela.

    Eu não sou fissurado por futebol, mas gosto da copa do mundo, apesar de ahcar que o campeão já deve estar escolhido.

    Não torcerei pelo time da globo, pois não apoio nada que seja dela.

    Se sair bagunça no comentário final, sou eu tentando inserir uma imagem. Como parece que não consegui, vou colocar o link para ela:

    http://edisilva64.blogspot.com/2018/06/torcer-por-time-de-empresas-privadas.html

  7. Jogo é jogo, é emoção. Mas estamos diante de um comércio

    tolice mexer com emoções de uns e de outros. Contra emoções, não há arlgumentos.

    A CBF e a FIFA são empresas privadas que usam (e a gente ai nessa) o nome Brasil.

    Fora isso, não idolatro patriotismos (que têm seu valor, assim como culturas locais, com seus conceitos e preconceitos).

    “Gosto é gosto” (o que pode ser discutido, Bourdieu tem ótimo artigo acadêmico sobre isto – mas aqui9 não é lugar, claro).

  8. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome