G20 de Osaka: o retrato de um mundo que deixou de dialogar, por Mathias Alencastro

"Vergonhosa para alguns, a atitude de Bolsonaro não destoa na nova ordem mundial", pondera cientista político

Líderes da cúpula do G20 em Osaka, no Japão. Foto: G20 Osaka Summit 2019

Jornal GGN – O balanço G20 de Osaka “é o retrato de um mundo que deixou de dialogar”, avalia o cientista político Mathias Alencastro, na coluna deste domingo (30) na Folha de S.Paulo.

“Em 2019, as imagens de uma multidão de lideranças globais se abraçando foram substituídas por fotografias de encontros entre duas autoridades, em salas fechadas, cercadas por assessores, bandeiras e flores. Os resultados dos diferentes “G2” , as minicimeiras entre Estados Unidos, Rússia e China, concentram muito mais atenções do que as decisões tomadas colegialmente”, pontua.

O cientista político lembra que foi em 2009, durante o G20 de Londres, que a reunião realizada periodicamente por grupos de países centrais ganhou a dimensão histórica que trouxe para os dias atuais, “quando o presidente francês Nicolas Sarkozy se aliou a Lula para elevá-la ao nível presidencial, com a premissa de que o multilateralismo era a única forma de superar os desafios criados pela crise do sistema financeiro global desencadeada no ano anterior”.

“Era o tempo da ascensão dos Brics e da supremacia tecnocrática da União Europeia e do governo Barack Obama. Naquela ocasião, Lula era alçado a político mais popular do mundo pelo presidente americano”, completa Alencastro.

O cientista político prossegue avaliando que Jair Bolsonaro não é a principal marca do encontro mais recente, e sim Donald Trump, de quem o presidente brasileiro não esconde sua admiração.

“Ele [o presidente dos Estados Unidos] praticamente impôs sozinho um novo estilo de relações internacionais baseado na cotovelada, na tensão permanente e na busca, muitas vezes inconsequente, por um momento clímax —uma declaração explosiva ou um suposto acordo multibilionário”, ressalta.

Esse movimento imposto pela maior democracia liberal do mundo responde agora pelo cenário que favorece as lideranças de “regimes iliberais”.

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“Vladimir Putin aproveitou o evento para dissertar, numa longa e rara entrevista às mídias ocidentais, sobre o liberalismo, que ele considera “obsoleto”. Não por acaso, os encontros de Putin, Erdogan e, claro, Bolsonaro, com Donald Trump acabaram monopolizando o evento”, completa o cientista político.

Assim, Alencastro reflete que “aqueles que criticaram o comportamento de Bolsonaro” analisaram o G20 de Osaka “com as lentes do G20 de Londres de 2009”. Na verdade, as ações de Bolsonaro de manifestar desconforto nas sessões de confraternização e irritação com a França no auge das discussões sobre o acordo entre União Europeia e Mercosul, comprovaram que o presidente brasileiro agiu no G20 “como um peixe na água”.

“O presidente vê o concerto das nações como um espetáculo supérfluo num mundo onde vingam os machos. Vergonhosa para alguns, a atitude de Bolsonaro não destoa na nova ordem mundial”, explica Alencastro.

“Se o G20 de Osaka foi o triunfo dos iliberais, o próximo, organizado pela Arábia Saudita, será uma ode ao autoritarismo. Nas terras do esquartejador de jornalista e artesão do massacre do Iêmen, as principais figuras da nova ordem mundial se sentirão ainda mais em casa”, conclui. Para ler a coluna na íntegra, clique aqui.

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