Parceiros da África, por Daniel Afonso da Silva

Parceiros da África

por Daniel Afonso da Silva

Foram de júbilo aqueles dias de maio de 2013 na África. Adis Abera, na Etiópia, sediava a comemoração dos 50 anos de criação da Organização da Unidade Africana. Uma sede suntuosa fora erguida. Festejos foram organizados. Autoridades políticas e econômicas de todo o mundo estiveram convidadas. Entusiasmo e otimismo emergiam de todas as partes. O continente africano evocava seu novo renascimento.

Ausente notório e notável, o presidente Obama renderia visita à capital baobá em 2015. Na ocasião, ocorreria o lançamento da ambiciosa agenda África 2063. Desses feitos ficou latente que jamais os africanos foram mais confiantes, autônomos e autênticos em seus desígnios. Seu destino mais e mais lhes pertence. Ninguém, dentro e fora da África, o negaceia. E eles o gerem de modo agudamente pragmático, profissional e responsável. A formalização do G20 Africa Partnership, em Hamburgo, no último sábado, 08/07, é mais uma mostra dessa evidência.

Discreta e comedida, a notícia dessa parceria consta dos anexos da declaração final do G20 presidido pela Alemanha. Ela anuncia mais instrumentos de integração das estruturas políticas e financeiras do continente africano ao resto do mundo. E vice-versa. Seu objetivo estrito envolve a criação de um milhão de empregos para populações rurais africanas, investimentos em energia e programas de financiamento a empreendedores privados de Costa do Marfim, Etipópia, Gana, Marrocos, Ruanda, Senegal e Tunísia.

Impossível não receber esse novo empenho como algo positivo.

Tem muitos anos que a África vem se afirmando autônoma e de todos os africanos. De Bandung em 1955 à mutação da Organização da Unidade Africana em União Africana em 2000, muitas águas lavaram as ruas do continente. Isto para não retornar à resistência pan-africana que remonta aos séculos de colonização.

Um famoso adágio bambará sugere ser indesejável aparar o cabelo de alguém ausente e/ou sem o seu consentimento. Durante muitos anos os países africanos viveram esse dilema. Mas essa ignomínia vem sendo progressivamente alterada.

As independências foram um primeiro marco. Em concomitância veio a luta contra o racismo e o subdesenvolvimento imortalizados no encarceramento de Nelson Mandela. Adiante foi o choque da descolonização expresso em dramas como Ruanda. Depois veio o esmaecimento de conexões tipo France-afrique – política africana francesa – e do inequívoco paternalismo anglo-saxônico em várias regiões africanas.

Desde o desaparecimento da tensão Leste-Oeste que o século 21 vem sendo projetado como momento da Ásia. Mas a velocidade das transformações africanas começa a questionar essa aposta. Malgrado todas as dificuldades, lamentáveis e evidentes, o continente dispõe de imenso bônus demográfico, urbanização progressiva, recursos naturais abundantes, classes dirigentes esclarecidas, segmentos médios ilustrados. A Nova Parceria para o Desenvolvimento da África, Nepad, criada em 2001, foi um passo decisivo para a inserção positiva do continente no novo século. Também por conta disso que desde 2003 que o conjunto do continente dispõe de crescimento econômico médio de 5%. A crise financeira de 2007-2009 não afetou que lateralmente a vigor desse crescimento. E país por país do continente vem afirmando, à sua maneira, seu lugar ao sol. Isso vem alterando as perspectivas externas ao seu encontro. Porquanto, nenhum país estrategicamente consequente ignora a importância da África e nenhum conglomerado geopolítico ou geoeconômico se arrisca a deixá-la ausente de suas projeções.

A Ásia, China e Coréias à frente, e Américas, Brasil e México na dianteira, forjaram a África como passagem necessária. Os países da União Europeia, França e Reino Unido adiante, vêm se despindo do utilitarismo do após-independências e reconhecendo necessidade vital de um relacionamento “win-win”. Tem muito que os Estados Unidos da América construíram uma política africana calcada no “more than humanitarism”. Tudo porque o continente africano virou incontornável. O G20 Africa Partnership é a sua mais recente demonstração.

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