Wagner: o grilo falante da presidente Dilma, por Tereza Cruvinel

Patricia Faermann
Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.
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Por Tereza Cruvinel

De sua coluna no 247

Um dos maiores erros da presidente Dilma no início do segundo mandato foi ter mantido Aloizio Mercadante no Gabinete Civil e a coordenação política com o vice Michel Temer. Não funcionou,  como se viu, e isso não depõe contra a capacidade política e intelectual deles. Eram pessoas erradas no lugar errado e na hora errada. Os dois não se bicavam, Mercadante estava desgastado junto aos aliados e Temer amargurado, como se viu depois por sua carta.

O maior acerto de Dilma, na reforma ministerial, foi ter substituído Mercadante por Jacques Wagner e ter transferido a coordenação política para Ricardo Berzoini. Os dois atuam em fina sintonia, e só isso já é um tento.  Berzoini já havia demonstrado, na primeira passagem pelo cargo, habilidade para lidar com os partidos da coalizão. Wagner, além da facilidade para dialogar e articular, e da confiança que inspira aos aliados, vem se revelando também um eficiente grilo falante para Dilma.

Presidentes não podem dizer tudo o que precisa ser dito pela própria boca. Precisam de grilos falantes, que são mais que porta-vozes oficiais, destes que emitem declarações oficiais, geralmente burocráticas e protocolares. O grilo falante é outra coisa. Precisa ter estatura política suficiente para convencer a todos de que fala aquilo que o presidente pensa, embora sem declarar isso. Precisa também de credibilidade e de autonomia para falar,  mesmo sem consulta prévia ao governante a que serve. Com Dilma isso não é fácil, ela delega pouco e reclama muito de iniciativas de auxiliares. Mas com Wagner tem funcionado, e isso a tem ajudado.

Quem, além de Lula, ousaria dizer, como fez ele na entrevista do dia 2 à Folha, que o PT se lambuzou no poder ao reproduzir métodos da velha política que combateu?  Na série de mensagens desta segunda-feira pelo twitter Wagner não só atacou Eduardo Cunha e o pedido de impeachment, “fruto de uma vingança”, assegurando que ele será enterrado ainda na Câmara. . “Eu, a presidenta Dilma e todo o governo estamos confiantes de que o processo de impeachment não sobreviverá aos primeiros testes na Câmara”.

Reconheceu erros do governo, o que muita gente gostaria de ouvir, com mais ênfase, da  boca de Dilma mas quando é Wagner que o faz, é como se fosse ela. “Temos plena consciência de alguns erros que cometemos e das dificuldades que precisamos vencer na economia.”

Para um governo que sempre teve dificuldades em se comunicar, e cuja presidente não tem o dom da palavra, como seu antecessor,  a atuação de Wagner como “vocero” político é um achado, embora palavras não movam moinhos. Para enterrar o impeachment,  depois que o Supremo colocou ordem no ritual, o governo terá que mapear as ilhas de insatisfação em sua base e obter muito mais que os 171 votos, para não deixar dúvidas sobre a legitimidade do mandato a ser mantido.

Mas isso não acontecerá antes de março. Enquanto isso, eu também faço uma pausa neste blog. Até à volta. 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.

4 Comentários

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  1. Tereza vem se mostrando uma ótima analista política

    Vejo em Dilma, como via em Lula, o desejo sincero de acertar, dentro do Estado de Direito, com respeito à CF.

    Nem sempre acertam, o que faz parte da vida. Nunca esse país foi governado de forma minimamente decente para todos antes de Lula. Quando se tem esse propósito republicano, errar para depois acertar faz parte do processo. Do fracasso do Fome Zero nasceu o sucesso do Bolsa-Família. Esse tipo de erro é tolerável.

    O que ressalta nessas análises é que governar um país de forma republicana é tarefa para gigantes. Não é coisa para frouxos como Temer, que se melindram com a cara feia da chefe. Ou para vagabundos como Aécio e FHC, que nunca governaram e sempre se deixaram governar. Muito menos para quem, a esses vícios (frouxidão e vagabundagem) se acrescenta a falta de caráter, tipo o Serra.

  2. O termo grilo falanta não

    O termo grilo falanta não parece apropriado. Se lembrarmos da figura ela diferre diametralmente do que o ministro faz,já que o grilo simplesmente aconselhava e não falava em público. Talvez este estigma coubesse melhor no antecessor.

    O atual ministro realmente faz o que a blogueira diz e isto é uma arte. Para falar o que a presidenta pensa,como ela pensa e como ela gostaria de dizer,não é fácil.

    Somente para quem domina a arte da política com maestria isto é possível. O ministro é a presidenta sem sê-lo e,mais que isso,sem que isso pareça uma ameaça a presidenta.

    Enfim,coisa de artista.

  3. Prá Quê Inimigos?

    Nassif: com Mercadante e o Zé-da-Fedeca como “amigo-partidário”, se a presidenta pedir inimigos a Deus ou vou a Brasilia e bato nela.

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