Abandonando a tragédia, imprensa vira holofotes contra Boulos e movimentos de moradia

 
Jornal GGN – O protagonismo que adquiriu o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, ao ser instado a prestar declarações com o desabamento do Edifício Paes de Almeida, em São Paulo, foi consequência natural por seu papel de destaque entre os movimentos por moradia, em ano que Boulos é também candidato à Presidência da República.
 
No outro extremo, é também previsível a reação de personagens que são contrários aos próprios movimentos por direito à moradia e suas respectivas lideranças, como Boulous. 
 
Mas quando o prédio aonde viviam mais de cem famílias de imigrantes e brasileiros foi coberto por chamas na madrugada desta terça (01) e desabou, enquanto os primeiros cobravam apurações e responsabilidades do Estado no caso, a imprensa partiu para duas estratégias: buscar a palavra do líder do MTST, que ocupa hoje especial destaque com a sua candidatura ao Planalto, e detectar possíveis ilegalidades envolvendo a ocupação.
 
Foi nesta estratégia que boa parte da imprensa recolheu depoimentos de moradores do local, que narraram pagar espécie de “aluguel”, que variavam de R$ 250 a R$ 500 aos líderes do movimento. Informações desencontradas também vieram de diversas fontes, como a constatação de que os ocupantes do prédio integram mais de um movimento por moradia.
 
Um deles é o Movimento Luta por Moradia Digna (LMD). À imprensa, Ricardo Luciano, que se apresentou como o coordenador do LMD, informou que havia sim um pagamento, mas que era de R$ 80, que serviria para custear a manutenção do prédio. E integrantes do Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), entidade que supostamente seria uma das divisões do próprio LMD, relataram os valores maiores.
 
Neste cenário, quando Boulos tomou conhecimento do incêndio que destruiu o prédio, a reação do líder do MTST foi a mesma tomada em episódios similares. “Se há alguém responsável por isso é o poder público, que não assegurou moradia para essas famílias”, anunciou. Os holofotes para o atual presidenciável do PSOL aumentaram na medida em que qualquer ponta solta fosse encontrada no caso. 
 
Em um primeiro momento, foi duramente criticado por não estar na capital paulista para ajudar os desabrigados e familiares das vítimas. Estava em Curitiba, para os atos contra a prisão de Lula. Mas do Paraná, Guilherme Boulos conversou com jornalistas e disse ser uma “tragédia lamentável”.
 
“E é ainda mais lamentável querer responsabilizar os próprios ocupantes e sem-teto por isso. Temos visto com perplexidade gente querer atribuir a culpa do que aconteceu a quem estava ocupando, como se quem ocupasse ocupasse porque quer. Quem ocupa ocupa por completa falta de alternativa. Se alguém é responsável por isso, é o poder público, que não assegurou moradia digna para as famílias, conforme prevê a Constituição”, lembrou o líder, criticando a tentativa de reverter os papéis dos responsáveis pelo caso.
 
Diversos vídeos foram divulgados pelo coordenador do MTST nas redes, exigindo as investigações para o desabamento do Edifício Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, e ressaltando que a ocupação não fazia parte do MTST. “De qualquer forma tem nossa simpatia e solidariedade”, acrescentou.
 
 
“Ninguém vai para uma ocupação porque quer. As pessoas ocupam por completa falta de alternativa. Se há algum responsável nisso é o poder público, que não assegurou moradia para essas famílias”, insistiu Boulos.
 
 
Em uma das críticas do coordenador do movimento foi sobre a Fake News espalhada pelo também presidenciável, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), de que a ocupação no prédio da capital paulista era uma ação do MTST. “Não aceitaremos que Eduardo Bolsonaro desrespeite a dor das vítimas e espalhe Fake News sobre a tragédia do incêndio do prédio do Largo do Paisandu. Ele será responsabilizado judicialmente por isso”, publicou, ainda na tarde de ontem.
 
 
No Facebook e no Twitter, o líder republicou a nota oficial do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Nela, o grupo destaca em três pontos que a ocupação não pertencia ao MTST e que, portanto, eles não poderiam responder às supostas acusações de pagamentos de alugueis. Que se mantém solidária às vítimas e que o MTST, em si, não “pratica a cobrança de nenhum valor das famílias”.
 
 
“Aproveitamos o momento para esclarecer alguns pontos:
 
1) A ocupação vítima do incêndio não era organizada pelo MTST e sim por outro movimento de moradia, o MLSM – Movimento de Luta Social por Moradia;
 
2) Desde que tivemos acesso às notícias do incêndio, integrantes do MTST, 
juntamente com outros movimentos de moradia de São Paulo se mobilizaram para discutir estratégias de solidariedade às famílias;
 
3) O MTST não tem ocupações no centro de São Paulo e não pratica a cobrança de nenhum valor das famílias organizadas em nossas ocupações”.
 
É o trecho do esclarecimento do Movimento, que foi amplamente repercutido por Boulos nas redes sociais e à imprensa.
 
Sobre os reais envolvidos na suposta cobrança do “aluguel” que os jornais escancaram em manchetes nesta quarta (02), o único que prestou depoimento foi Ricardo Luciano, que se diz coordenador do LMD. Justificou que a cobrança era menor do que a anunciada e que seria para a manutenção do prédio, único dado até agora informado.
 
 

16 comentários

  1. Desmonte do Estado

             O pós Lula ja está em curso , nao foi a toa que Temer veio assistir pessoalmente  , afinal o predio era da Uniao e o governo dele adotou uma politica semelhante ao predio desabado , simplemente esta implodindo o Estado !

             Só nao ve quem nao quer , mas o que sao esses fechamentos de escolas de postos de saude , venda de estatais estrategicas aos interesses nacionais , cong5elamento de orçamento por 20 anos senao a implosao do Estado ?

  2. #

    Assim como fizeram com Marielle logo depois da sua morte, agora, depois dessa tragedia do desabamento, tentam destruir a reputação do MTST.

    Se o movimento acusado de cobrar aluguel é o MLSM, por que foram perguntar para o líder do MTST?

    Procurem as pessoas responsáveis pelo movimento acusado, oras!

     

  3. Culpabilidade
    Ninguém culpou os afogados do Bateau Mouche em 1988 de se divertirem, mas os donos do barco. Ninguém culpou os jovens sufocados no incêndio da boate Kiss de dançarem, mas os donos da noite. Os moradores são vítimas. Mas os que os colocaram lá e recebiam aluguel, a Justiça pode responsabilizar.

  4. A corrupção está matando

    A corrupção está matando desesperadamente o nosso povo , tenho pena de pessoas sem instrução e educação que seguem esta gente comunista

    • Dê educação e instrução ao povo e acabe com o comunismo

      Vote no Lula, pois, com ele, os filhos dos pobres chegaram às universidades.

      A propósito, você é favorável ou contra as cotas sociais em universidades?

  5. olha, é claro que a direita
    olha, é claro que a direita no Brasil pouco fez em questão de políticas habitacionais. Em São Paulo, foi sensível que essa questão só entrou em pauta quando a esquerda participou das administrações locais. inclusive é inconcebível que os governos não promovam a produção de habitação, já que há tanta gente em condições subhumanas de moradia, a qual é um direito constitucional. A direita, no entanto, promove o tal livre mercado (com o auxílio de incêndios em favelas), que não vê lucro em habitação de interesse social e se interessa apenas em agravar essa desigualdade. A situação só foi suavizada com o MCMV, uma política reformista mas bem sucedida – já que finalmente os trabalhadores de baixa renda passaram a fazer parte do mercado – e por isso mesmo esvaziada pelo governo golpista. a mídia em geral enfatiza o ponto de que o edifício implodido pertencia ao estado, mas o fato é que isso é fruto apenas das políticas neoliberais postas em prática há 30 anos, como também é a luta por moradia visa apenas fazer cumprir a constituição e diminuir as distorções que o livre mercado promovem sobre a organização da cidade. as declarações vindas da família Bolsonaro, portanto, são desprezíveis como tudo que eles fazem. problema é que sinceramente também não achei a postura de Boulos e do MTST digna. se eles não pedem contribuição, como eles mantêm as ocupações? claro que como um movimento social que lida com cidadãos em condição financeira muito complicada, essa grana deveria ser apenas solicitada, e não exigida. E um valor de 500 reais não parece nem verossímil, mas seria altamente condenável. mas é completamente legítimo o movimento pedir que os ocupantes participem monetariamente. Não tem nada a ver com aluguel, que se trata de exploração rentista sobre a terra, e sim uma grana pra manter a infraestrutura, uma espécie de “condomínio”. dessa forma Boulos cede à pressão da mídia (nada de novo em se tratando de Psol) e tira o corpo fora, não vendo que o prejuízo de não bancar incondicionalmente o movimento vitimado pelo incêndio irá em breve se voltar contra ele mesmo.

  6. olha, é claro que a direita
    olha, é claro que a direita no Brasil pouco fez em questão de políticas habitacionais. Em São Paulo, foi sensível que essa questão só entrou em pauta quando a esquerda participou das administrações locais. inclusive é inconcebível que os governos não promovam a produção de habitação, já que há tanta gente em condições subhumanas de moradia, a qual é um direito constitucional. A direita, no entanto, promove o tal livre mercado (com o auxílio de incêndios em favelas), que não vê lucro em habitação de interesse social e se interessa apenas em agravar essa desigualdade. A situação só foi suavizada com o MCMV, uma política reformista mas bem sucedida – já que finalmente os trabalhadores de baixa renda passaram a fazer parte do mercado – e por isso mesmo esvaziada pelo governo golpista. a mídia em geral enfatiza o ponto de que o edifício implodido pertencia ao estado, mas o fato é que isso é fruto apenas das políticas neoliberais postas em prática há 30 anos. a luta por moradia visa apenas fazer cumprir a constituição e diminuir as distorções que o livre mercado promovem sobre a organização da cidade. as declarações vindas da família Bolsonaro, são desprezíveis como tudo que eles fazem. problema é que sinceramente também não achei a postura de Boulos e do MTST digna. se eles não pedem contribuição, como eles mantêm as ocupações? claro que como um movimento social que lida com cidadãos em condição financeira muito complicada, essa grana deveria ser apenas solicitada, e não exigida. E um valor de 500 reais não parece nem verossímil, mas seria altamente condenável. mas é completamente legítimo o movimento pedir que os ocupantes participem monetariamente. Não tem nada a ver com aluguel, que se trata de exploração rentista sobre a terra, e sim uma grana pra manter a infraestrutura, uma espécie de “condomínio”. Boulos disse que não aceitaria exploração política do caso, mas o fato é que já está acontecendo ele querendo ou não – ele deveria agir com inteligência, e não com ingenuidade. Dessa forma o MTST cede à pressão da mídia (nada de novo em se tratando da esquerda brasileira) e tira o corpo fora, não vendo que o prejuízo de não bancar incondicionalmente o movimento vitimado pelo incêndio irá em breve se voltar contra ele mesmo. 

    • Não precisa descer do muro
       

      mas entender o que o Boulos falou, é preciso:

      MTST não é movimento Viva Centro, não é movimento dos Sem Teto urbanos, não é movimento das Populações de Rua (apoiado pela igreja e com assistência parcial da prefeitura)

      A falta de conhecimento (proposital, parece) é que vem gerar essse tipo de comportamento acusatório e belicoso.

      Assista a TVT, em SP canal 50, para, pelo menos, ter a informação correta de cada fonte correspondente a cada movimento.

       

       

      • oi Amoraiza,
         
        não tem muro

        oi Amoraiza,

         

        não tem muro nenhum: não sei se ficou claro (porque eu me embananei pra mandar e acabou perdendo a diagramação), mas eu quis enfatizar que até as falas do Boulos cedem ao conservadorismo, já que a imprensa golpista chiou com esse assunto de o movimento cobrar o tal “aluguel” (que como eu falei, não deve ser chamado de aluguel).

         

        uma posição de esquerda mais combativa e efetiva seria defender a ocupação incondicionalmente (com base na tragédia, estimulada pela direita e pelos liberais, que é a questão da habitação no Brasil), desmentir esses valores, e afirmar que cada ocupação precisa se manter de alguma forma. Pelo menos essa é minha pouquíssima experiência. Por isso eu me surpreendi. Eu vi o panfleto virtual que o MTST divulgou, e aí cabe minha pergunta: como o MTST mantém suas ocupações? Não é uma pergunta maliciosa, é porque eu realmente não conheço (e nesse sentido obrigado pela indicação da TVT, que conheço, mas não tenho lá muito tempo de assistir – tentarei aprender mais sobre o assunto).

      • só pra encerrar, vi uma das
        só pra encerrar, vi uma das matérias do jornal da TVT de hoje, a que eles fizeram na Ocupação Mauá (que é do MSTC). A posição deles é a mais correta: não esconderam que pedem uma contribuição dos ocupantes, porque há um monte de serviços que o movimento tem que promover. Era o caso do LMD conforme diz a presente matéria. E isso me parece o mais natural e comum. Só com doações a coisa não anda.

        Meu ponto é: por que o Boulos e o MTST ficam propagandeando que o movimento deles não cobra nada dos participantes, mesmo sendo verdade? Além de perder a chance de tentar jogar o público a favor das ocupações, perante a mídia eles ficam parecendo os bons moços enquanto o resto é um monte de sanguessugas. Jogar o movimento que acaba de ser vítima de um desabamento aos leões, não ajuda em nada numa hora dessas.

        • Oi, Luís
           

          Primeiramente devo-lhe desculpas pela indicação errônea do canal, que é 44 e não 50.

          Em continuidade é de se esclarecer que o movimento de Boulos, segundo as explicações que vi no próprio canal, é voltado para ocupações em terrenos urbanos e não em habitações, e que esse movimento aceita doações mas não pede dinheiro ou contribuição para nenhum dos integrantes.

          As invasões em prédios urbanos, é de se salientar, não são exclusividade de movimentos políticos ou sociais por habitação.

          Elas acontecem pela absoluta necessidade que as as familias têm de moradia.

          Muitas delas com filhos pequenos e desempregadas, juntam-se em grupos e simplesmente invadem. Aí então aparecem os oportunistas que começam a cobrar para “organizar” a invasão, ou simplesmente para fazer dinheiro mesmo.

          Há pessoas que são mais miseráveis que a própria miséria, e não se incomodam em explorar as pessoas no limite de suas necessidades. Veja o exemplo disso nas cadeias, onde até para ficar em pé o preso paga.

          Mas, de modo geral, os movimentos organizados  de reivindicação por moradia precisam mesmo de alguma contribuição interna para o mínimo de auto-organização e para que não sejam vítimas de moradores criminosos entre eles.

          Abraços.

           

  7. Não criticar os moradores das invasões, mas denunciar e prender

    Não criticar os moradores da invasão, mas denunciar e prender os abutres que enriquecem às custas do drama …

     

  8. + comentários

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