Há 90 anos, o julgamento da Teoria da Evolução nos EUA

Enviado por JB Costa
 
Da Carta Capital
 
 
por Nirlando Beirão
 
Começava, 90 anos atrás, o tribunal da intolerância, com Darwin no banco de réus. A América mudou alguma coisa?
 
Bettmann/Corbis

Clarence-Darrow

Em Dayton, Darrow tenta disseminar a virtude da dúvida

Dayton, Tennessee, era, 90 anos atrás, um povoado de 1,8 mil almas fervorosamente assistidas por nove igrejas e um punhado de iracundos pregadores dispostos a irrigar seu rebanho com a crença de uma superioridade moral baseada na adesão incondicional à Palavra de Deus. 

Espreguiçando-se “num vale sorridente”, como anotou H. L. Mencken, Dayton trazia em si aquele charme rural, aprazível, que disfarçava uma estufa de superstições, preconceitos e hipocrisia capaz de explodir em ódio contra quem quer que rejeite a autoridade literal da Bíblia e de seus porta-vozes. Um vilarejo, observou Mencken, no qual não havia salão de dança ou de jogo e onde o esporte mais praticado era o rezar. “A oração tem o poder de realizar muita coisa”, ironizou Mencken. “Pode curar diabetes, encontrar carteiras perdidas e proteger as esposas das agressões dos maridos.”

O processo instaurado no dia 25 de maio de 1925 contra um professor de Ciência de 24 anos da Rhea County High School, que tendia perigosamente a desacreditar a narrativa do Gênesis e a contestar que a terra é plana e infestada de espíritos do mal, teria passado despercebido como um daqueles episódios típicos de uma América puritana, racista, ignorante, se não fosse pelo simbolismo que o julgamento ganhou e pela concentração decelebrities que Dayton, casta e pura, de repente acolheu.

Dayton-Tennessee

  • Os fundamentalistas de Dayton: do anonimato ao deboche

Para pontificar na defesa de John T. Scopes, cujos óculos de aros acadêmicos prenunciavam um sinistro liberal, acorreu Clarence Darrow, o carismático criminalista identificado com as causas progressistas e humanitárias, que tinha no currículo a defesa de negros, sindicalistas e homossexuais – ou seja, na versão da caipirada local, o Belzebu em pessoa.

Para exacerbar a acusação, recrutou-se outro figurão de prestígio, William Jennings Bryan, que, após três frustradas tentativas de chegar à Presidência dos Estados Unidos por um Partido Democrata ainda muito distante do engajamento social de Franklin Delano Roosevelt, tinha se convertido ao mais descabelado fundamentalismo religioso, insuflando pelo país afora multidões de crédulos com o timbre catastrófico de profeta do Apocalipse. Para Bryan, seria um acerto de contas com Darrow – “aquele ateu e agnóstico” – que vivia ridicularizando seu fanatismo.

Uma enxurrada de jornalistas também inundou Dayton com seu elenco de estrelas, a começar por aquele H. L. Mencken, que botou a serviço do Baltimore Evening Sun a sua verve embebida em sarcasmo – mas que, ao final de 11 dias de suarenta batalha forense, num ambiente que lembrava apropriadamente a fornalha do Inferno, permitiu-se brindar Bryan não mais com o artifício do deboche, e sim com a santa indignação que quem testemunhou no acusador um desfile de “imbecilidades peculiares” e de “insensatez teológica”. “Chegou herói, saiu bufão”, apostrofou o jornalista.

Foi Mencken, aliás, quem batizou aquela “orgia religiosa” (palavras dele) de The Monkey Trial (O Julgamento do Macaco) – uma vez que ficou óbvio que ali não se tratava de julgar um iniciante professor do curso secundário e, sim, de condenar Charles Darwin in absentia, a Teoria da Evolução, a Origem das Espécies, 65 anos depois de sua publicação – na concepção primária e abjeta dos fundamentalistas, punir na figura de um mestre-escola, aquela ideia de que “o homem vem do macaco”, que não foi esculpido do barro, 6 mil anos atrás, pela mão de uma divindade barbuda e quase sempre vingativa.

Nesse contexto, o infiel Scopes saiu do foco do debate e das câmeras, assim como o próprio juiz John T. Raulston, um magistrado medíocre que se juntou sem constrangimento ao coro de Hosanah dos acusadores, cerceando a defesa e deixando claro que a sentença estava decretada antes mesmo do julgamento. O apelo midiático do The Monkey Trial, na verdade, estava na coreográfica esgrima entre Darrow e Bryan, dois astros dos tribunais, Bryan empenhado em denunciar o solerte ataque dos inimigos da fé, Darrow previamente convencido de que as pérolas de sua reconhecida eloquência seriam recebidas por aquela plateia de caipiras como se ele as despejasse – Mencken comparou – em tubulações de esgoto no Afeganistão. Mas Darrow tinha uma causa a defender – e mesmo a sua previsível derrota no covil provinciano haveria de expor fora dali o ridículo hediondo da intolerância e do fundamentalismo.

John-Scopes

  • Scopes, o acusado, saiu do foco

coup de théâtre do “velho diabo” – old devil, tal como Darrow passou para a posteridade – aconteceu na tarde de 20 de julho, que precederia a sentença já sabida. “A defesa deseja chamar o senhor Bryan como testemunha.” A frase ecoou como um petardo na sala. Perplexidade do juiz, constrangimento da defesa. William Jennings Bryan, o Savonarola de Dayton, resigna-se a subir à tribuna. Clarence Darrow acerca-se. “O senhor tem um considerável conhecimento sobre a Bíblia, não tem, Mr. Bryan?” Bryan vacilou: “É, tenho tentado”. “Não tenho dúvidas a esse respeito”, respondeu Darrow. “Cinquenta anos”, eu acho, disse Bryan.

O massacre iria durar duas horas. O senhor acredita que Jonas foi engolido por uma baleia? Se foi, quanto tempo ele ficou na barriga dela? O senhor acredita que Josué fez o Sol parar no céu? Se fez, não teria acontecido alguma coisa à Terra? Qual é a idade da Terra, senhor Bryan? O senhor crê que o mundo foi criado em seis dias? – e assim o sulfuroso Darrow saiu cutucando um confuso Bryan, cuja única resposta passou a ser um irritado e genérico “eu acredito na Bíblia, Mr. Darrow”. Os enviados da imprensa gargalhavam.

Os vencedores acabaram ficando com o mico. A repercussão mundial do julgamento inibiu a ofensiva criacionista que do Tennessee ameaçava se alastrar pelo Deep South – Geórgia, Alabama, Mississippi. John T. Scopes foi condenado pela heresia de pregar a ciência, não o dogma, mas um agora envergonhado juiz Raulston reduziu a multa a 100 dólares – que organizações de direitos civis trataram de pagar. Scopes mudou-se para Chicago, onde ganhou uma bolsa para estudar Geologia. Só em 1967 a Corte Suprema do Tennessee baniu a lei antievolução. William Bryan não teve como saborear o duvidoso triunfo: morreu seis dias após a sentença, de ataque cardíaco.

Noventa anos depois, nos EUA do Tea Party, de Sarah Palin, dos televangelistas carolas da Fox News e das infindáveis seitas de cristãos born again, tem muita gente que, assim como aqueles jecas de Dayton, vive o dilema Bíblia vs. o macaco. Com cega adesão à Bíblia.

Darrow-Bryan

  • Darrow e Bryan, em momento de trégua, esgrimiam diferenças aguda
 

 

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19 comentários

  1. História sensacional

    Que também virou peça de teatro e filme: O Vento Será tua Herança. Vi uma versão com os grandes Jack Lemon e George C. Scott, mas soube que existe uma anterior com Spencer Tracy e Gene Kelly.

    • Exatamente

      Sergio, a versão anterior é a de Stanley Kramer, e tinha Tracy como Clarence Darrow (Henry Drummond no filme) e o grande Fredric March como William Jennings Bryan (Matthew Harrison Brady na película).  O “Julgamento do Macaco” e seu entorno são encenados com maestria e algumas liberdades poéticas (por exemplo, Jennings/Brady morre ao final do julgamento e não seis dias depois). É um dos melhores filmes de Kramer, de 1960, e traz interpretações notáveis de todo o elenco, especialmente de March, Tracy e Gene Kelly, este num papel moldado livremente no H.L. Mencken.     

  2. Costa, “old devil” eh uma

    Costa, “old devil” eh uma maneira mais leve de chamar alguem de “safado” ou “sacana”.  Pode ser que ja teve o sentido de “velho diabo” fora desse julgamento especifico, mas eu o desconheco.

    Ate hoje os evangelicos espalham que o mundo foi criado em 6 dias e que tudo apareceu do nada -sem passado algum!- em data especifica.

    • Neste ponto os judeus estão na frente

      Uma vez que tem a data exata da criação do mundo, inclusive guiando seu calendário por ela. 

      Ou seja, são muito mais imaginativos e criativos que católicos e protestantes!

  3. Uma lembrança oportuna

    Muito oportuna a lembrança desse episódio nos tempos de hoje, onde o fundamentalismo obscurantista está sendo usado como ferramenta de amnipulação de massas por golpistas e estelionatários inescrupulosos.

  4. Teoria incompreendida

     

    Mesmo depois de décadas, os criacionistas ainda não entenderam — ou não querem entender — a teoria de Darwin

    Vejam o caso do Crocoduck ( crocopato):

     

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Crocopato

    Em 2007 os criacionistas Kirk Cameron e Ray Confort participaram de um debate televisivo, parte do qual foi ao ar no programa ABC Nightmare, sobre a existência de Deus. Confort disse que eles produziram imagens compostas do que “nós imaginamos ser uma genuína forma de transição inter-espécies”. Nos nomeamos um “crocoduck” [crocopato] e o outro foi nomeado “birddog” [cão-pássaro]. Isto para mostrar exatamente o que a evolução propõe, mas estes nunca foram encontrados nos registros fósseis”. A figura composta que apresentaram exibia uma quimera com corpo de pato e cabeça de crocodilo.

    Esta afirmação foi amplamente divulgada e ridicularizada como um exemplo de equívoco criacionista. No The greatest show on Earth: Evidence to Evolution” [O maior espetáculo na Terra: evidência para a Evolução] , o cientista pro-evolução Richard Dawkins introduziu uma seção nomeada “Show me your crocoduck!” [Mostre-me seu crocopato!] no qual ele acabou por comparar o crocoduck com outra quimera então presente em uma pergunta feita por um criacionista quanto à inexistência de um fóssil de transição entre os anfíbios e os mamíferos, então noemado “fronkey” [sapo-macaco], e os descreveu como derivados de uma crassa incompreensão da teoria da evolução: “As espécies modernas compartilham ancestrais comuns, mas não são descendentes umas das outras [em alusão à comum frase proferida por criacionistas de que os humanos descendem dos macacos atuais], tão pouco de rudes quimeras, e patos portanto não são descendentes de crocodilos”, ou vice-versa.

     

    • Os piores são os que entendem

      Os piores são os que entendem e mesmo assim refutam a Teoria da Evolução(hoje Teoria Sintética da Evolução). 

      Não aceito e me recuso a iniciar qualquer discussão quando o tema é contrapor Criacionismo e Evolução. Simplesmente inaceitável e até inimaginável. Seria o mesmo que contrapor a Teoria do Flogísco, do Éter com a Química dos Gases e a Relatividade. 

      Fico espantado como cientistas de renome se submetem a esses debates promovidos por instituições americanas. Não há simplesmente nada para se discutir.

      Criacionismo é picaretagem. Insulta a nossa inteligência. 

      • Concordo

        Concordo com vocẽ.

         

        O problema é que, no Brasil, o PPP — partido dos Pastores Pilantras — está importando essas idéias dos EUA, e temtam impor o ensino de criacionismo nas escolas.

        Querem fazer das escolas públicas colégios de catequese para arranjar mais pagantes de dízimo.

         

      • Criacionismo é um insulto à

        Criacionismo é um insulto à inteligência de qualquer indivíduo com um mínimo de instrução. Como a imensa maioria das pessoas não têm um mínimo de instrução, é por isso que esses debates persistem.

  5. Ambas Imperdíveis

    JB,

    este assunto, a meu ver, discutido de forma bastante superficial desde sempre, resultou em duas versões (sendo uma para a TV) muito interessantes as quais vale a pena assistir. 

    Ambas trazem atores espetaculares e suas performances tornam o assunto um tanto mais palatável.

    Infelizmente, fruto destes tempos de fundamentalismo e messianismo exacerbados e alimentados diuturnamente pelos atores que todos conhecemos bem – basta ler as páginas diárias deste GGN – este assunto renascido merece toda a luz que sobre ele puder ser lançada.

    Inherit the Wind

    Filme de 1960
    Inherit the Wind é um filme estadunidense de 1960, adaptado da peça homônima de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee.
    Estrelado por Spencer Tracy, Fredric March e Gene Kelly.
    Direção: Stanley Kramer
    Roteiro: Jerome Lawrence, Robert Edwin Lee, Nedrick Young, Harold Jacob Smith

    Inherit the Wind
    Filme de 1999
    Inherit the Wind é um filme estadunidense de 1999, feito para a TV, adaptado da peça homônima de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee.
    Estrelado por Jack Lemmon, George C. Scott e Beau Bridges.
    Direção: Daniel Petrie
    Música composta por: Laurence Rosenthal

    Fonte:  Wikipedia

     

      • JB,
        o Spencer Tracy per si  é

        JB,

        o Spencer Tracy per si  é páreo duro em qualquer situação.  Mas Jack Lemmon e C. Scott valem o filme para a TV e, na verdade, qualquer outro. Magistrais.  Na dúvida, melhor assistir aos dois.

        Infelizmente, os três americanos já nos deixaram …

        Abc.

  6. Às vezes tenho vontade de acreditar em Céu e Inferno

    Só pra ter a certeza de que Willian Bryan estaria no inferno e John Scopes no céu!

  7. O Caso Dover.

    Recomendo o excelente documentário sobre a polêmica, ocorrido em 2994, na cidade de Dover, nos Estados Unidos. Criacionistas pleitearam o ensino do Design Inteligente numa escola  da cidade, foram contestados por alguns pais e professores , e o caso parou na Suprema Corte.

    Segue o link:

    https://www.youtube.com/watch?v=p_YZpa5M-DY

  8. O espantalho da evolução

    A evolução das espécies, assim como a teoria que propõe explicá-la, é tão incompreendida porque esses senhores religiosos que arrogam o título de “cientistas” criam e espalham intencionalmente versões deturpadas do que ela realmente é, ficando mais fácil de ser atacada. O propósito é criar um espantalho, e então ataca-se esse espantalho como se estivesse atacando a verdadeira ciência. Muita gente se posiciona como criacionista simplesmente porque não possuem conhecimento suficiente, e nem querem adquiri-lo, sobre o assunto para julgar e decidir adequadamente. Por isso é necessário reforçar o ensino da evolução nas escolas e melhorar a educação científica das pessoas em geral.

  9. + comentários

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