A ciência e a reforma do marxismo

Atualizado às 11h30

Por João V.

Comentário ao post Modernidade ambígua

“A despeito de suas diferenças, Marx e Nietzsche notaram o jogo contraditório da modernidade e apontam para um futuro diferente porque acreditam que ela, ao definir a posição ativa dos sujeitos perante o mundo, concedia a oportunidade de novos horizontes. Não obstante, essa força criadora foi apropriada pela burguesia, responsável por revolucionar a produção e o mercado e por restringir o potencial ativo/criador da modernidade ao mundo dos negócios. Notemos, a contenção do espírito ativo foi e é o grande expediente burguês, visto seu temor diante da possibilidade de seus antagonistas se alimentarem da energia do espírito moderno e subverterem o status quo.”

Marx, a meu ver, fez um trabalho científico por um lado, no que respeita à exposição das contradições vigentes no seu tempo e, por outro lado, deixou de ser científico quando sugeria que essas contadições traziam no bojo a necessidade de um Estado proletário. Não me parece que no plano da liberdade, que é o do ser humano, das contradições concretas vigentes se possa compreender a sua reconciliação senão depois desta ter sido operada pela consciência que está por dentro da dialéctica, de tal modo que a compreensão da reconciliação é acima de tudo uma recolecção conceptual do que já foi operado historicamente.

Sem a operação histórica a reconciliação, ou a superação das contradições, é apenas uma superação abstracta, que labora sob o impulso da pura liberdade do pensamento onde os contrários já são distituídos da sua liberdade própria e aparecem na pura forma do pensamento que então faz deles mais ou menos os que quer – o problema é que a par disso a história corre mais ou menos indiferente a essas abstracções.

Por isso rapidamente se percebe uma contradição central ao marxismo, embora seja pouco notada: por um lado a história está determinada pelas contradições da capitalismo a correr para um Estado proletário, mas por outro lado Marx, como se vê no fim do “Manifesto”, apela à luta revolucionária. O apelo à luta contradiz directamente o determinismo histórico, pois que se há a necessidade da luta é porque há a necessidade de intervir no curso da história – o problema é pensar que uma intervenção histórica, uma vez desencadeada, pode ter todo o seu movimento controlado. Não pode, porque senão não seria luta, seria trabalho altamente qualificado sobre matéria perfeitamente conhecida e sem qualquer resistência – coisa que as sociedades não são.

Julgo que a reforma do marxismo passa pelo regresso à ciência, nomeadamente à ciência sobre a ciência marxista à luz dos desenvolvimentos do século XX.

Por Joaquim Aragão

Que leitura vulgar do marxismo! Marx nunca foi determinista, lembrando que o homem faz sua própria história, mesmo que não livremente. Ou  seja, vontade política e processos sociais se combinam dialeticamente. Se, de um lado, propôs uma leitura objetiva da história da humanidade (luta de classe, sucessões de formações sociais, análise das condições para as mudanças, etc.), nunca deixou de lado a revolta contra a desumanidade das sociedades de classe e o compromisso com a mudança. Afinal, os filósofos já teriam interpretado o mundo das mais diversas maneiras, e o que importaria é como mudá-lo.

É claro, que na proposição da mudança (Teoria da Revolução), a especulação sobre as possibilidades e os caminhos deixam de ter garantia de 100% cientificidade. Parte-se da análise para construção de conjeturas inovadoras, com base em uma leitura, partidarizada, da realidade. Há talvez mais fé no marxismo do que em muito sermão de padre!!! 

Por João V.

Olá,

Sim, é uma leitura vulgar, mas, a meu ver, porque coloca um problema evidente que Marx nunca enfrentou directamente: a reconciliação dos opostos no plano da liberdade é, basicamente, imprevisível, de modo que nada indica que das contradições da sociedade capitalista se progrida necessariamente para a sociedade sem classes, nem sequer que a transição socialista, por sua vez, não gere contradições cuja supressão implique o fim do Estado. Daí que, como disse alguém que não recordo agora,  os russos se tenham cansado de viver em constante tensão revolucionária na expectativa da supressão do Estado,  que nunca esteve sequer perto de ocorrer. É que a diferença entre as forças objectivas e a liberdade subjectiva, a meu ver, não se resolve senão pela mediação do Estado, que é a união do particular com o universal, mas que, como união, ou superação da oposição entre estes dois momentos não desparece neles, já que o seu desparecimento resultaria na recolocação da oposição.

O proletariado, como força objectiva, é sempre unilateral, mesmo dentro do seu próprio conceito, já que tratando-se do plano da auto-consciência, a liberdade exige a posição do querer subjectivo e não apenas da vontade objectiva, de modo que, logo aí, mesmo dentro do proletariado, já aparece o princípio da oposição entre o universal e o particular – é esta oposição, mais uma vez, cuja reconciliação é mediada pelo Estado.

Quanto ao determinismo, bom…Marx pensou que que as relações económicas determinam a consciência, e por um lado podem fazê-lo, mas não o fazem por todos os lados, já que se o homem é por um lado produto do seu tempo, ou produto da história é, por outro lado, produtor da história. Ele é produto enquanto é produtor, é produtor enquanto é produto – e não há saída desta dialéctica senão pelo Estado que é simultaneamente produto e produtor da história – e, a meu ver, um Estado é tanto mais livre quanto permite que estes dois factores da consciência humana coexistam quer enquanto são a expressão concreta da sua unidade no Estado, quer enquanto são momentos livres dentro dessa unidade. Se predominar apenas o primeiro factor,  caminhamos para uma ditadura ou um totalitarismo, se predominar apenas o segundo factor caminhamos para o liberalismo selvagem, enfim, ao limite, para a guerra civil ou para a desagregação social.

Cumprimentos.

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