A fake news é mais antiga que nossa vã filosofia, por Jota A. Botelho

The Root of Fake News or Fin de Siècle Newspapers – Edited Library of Congress.

A fake news é mais antiga que nossa vã filosofia, por Jota A. Botelho

O subdesenvolvimento é realmente uma praga. Temos que dar a mão à palmatória para a criatividade dos gringos. É bom saber de uma vez por todas que tudo que os americanos inventaram, estão inventando ou ainda vão inventar, para espalhar pelo mundo e destruir vidas alheias, já foram testadas em casa antes. Claro, é preciso saber se funciona. Portanto, é bom parar com essa jequice de achar, quando estiver diante de uma novidade, que ela é uma nova invenção recentíssima entre nós. Não é não, bocó. O laboratório é lá, mas as cobaias são principalmente aqui, e no resto do mundo. Simples assim. Então vamos combinar. Doravante, toda a novidade vinda de lá, sobretudo se chegar aqui em inglês, para o nosso deslumbramento, antes de escrevermos artigos, ensaios, teses e tratados, e muitos correrem a fazer mestrados ou doutorados, e falarmos muitas bobagens a respeito e otras coisitas más, que tal pesquisarmos incansavelmente se já OCORRERAM por lá. Ponto. E zéfini.
 

A RECESSÃO ENFRENTADA COM REFORMAS


Panfleto da campanha e do programa de governo do EPIC de Sinclair.

Quando Upton Sinclair, famoso escritor socialista (mais conhecido como autor de The Jungle /A Selva) venceu as eleições primárias democratas para governador da Califórnia, em 1934, liderando o maior movimento de massas na história do estado, o inferno se espalhou pela região. Sinclair, um velho militante do Partido Socialista americano, e que já havia perdido várias eleições congressuais, tanto estaduais quanto federais, criou o EPIC (End Poverty in Califórnia / Fim da Pobreza na Califórnia, em tradução literal) que serviu de base para a sua campanha eleitoral e como programa de governo caso fosse eleito. O plano exibia um programa maciço de obras públicas, distribuição de terras ociosas organizadas em cooperativas, controle estatal de algumas fábricas, uma reforma tributária abrangente, trabalho para todos, e com pensões garantidas. Não prestou não. Na terra do capital, um programa socialista, sem chance. Nadica de nada. E no fiofó?

Mas com este programa reformista, e com a popularidade do presidente Franklin Delano Roosevelt à frente do New Deal, e no mesmo partido, fez com que Upton Sinclair ganhasse um grande apoio popular, com milhares de pessoas se juntando nas Ligas da Pobreza no estado. Sinclair e seu EPIC de distribuição de renda e eliminação da pobreza enfrentaram então uma oposição cerrada do Partido Republicano e de grandes figuras da mídia local. Queria o quê, ô Up? Olha a intimidade, rapaz.

A RECESSÃO ENFRENTADA NA BALA

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Quinta-feira Sangrenta (5 de julho de 1934),  foto de tiros e lutas de rua. Centro de História de São Francisco, Biblioteca Pública de São Francisco.

O candidato dos republicanos, o vice-governador Frank Merriam, há pouco tempo no Governo Estadual, em substituição ao governador eleito James Rolph, morto de um ataque cardíaco em junho de 1934, meses antes da eleição daquele ano, mandou descer o sarrafo nos trabalhadores portuários em greve em São Francisco, cidade esta do falecido e seu ex-prefeito por quase duas décadas (8 de janeiro de 1912 – 6 de janeiro de 1931), com direito a nome de ponte e tudo mais, a The James “Sunny Jim” Rolph Bridge / San Francisco Oakland Bay Bridge. Que bacana! Olha aí, e com jazzinho então…

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No rescaldo do massacre dos trabalhadores, que ficou conhecido como “Quinta-feira Sangrenta” (Bloody Thursday), Merriam foi altamente elogiado pela imprensa conservadora de São Francisco e ganhou de presente a nomeação pelos republicados de se candidatar nas eleições estaduais de novembro de 1934. Quanta popularidade! Quem pode, pode. É assim que funciona. 

OS PRIMÓRDIOS DAS FAKE NEWS NA MECA DO CINEMA


Fake News: O Pierrot diabólico  (The Yellow Press – Edited Library of Congress).

Para derrotar Upton Sinclair, seus oponentes inventaram uma moderna campanha política, liderada por gênios da propaganda, a firma de publicidade e relações públicas Whitaker & Baker, por exemplo, juntamente com os barões do cinema como Louis B. Mayer e Irving Thalberg, da MGM, os primeiros a fazer amplo uso da tela grande para destruir um candidato, e os lordes da imprensa no estado, o magnata Cidadão Kane William Randolph Hearst e Harry Chandler, do Los Angeles Times, que usaram e abusaram e pagaram uma grana preta para seus repórteres e jornalistas cobrirem apenas a campanha de Merriam e atacar Sinclair sem dó nem piedade. Coisa de profissionais, meu chapa.

Organizaram uma campanha criativa, cheia de truques sujos jamais vista, a ponto de se tornar um marco na política americana. Envolvendo grandes recursos financeiros e pesquisas manipuladas, ao lado de noticiários falsos que iriam, por certo, não somente influenciar pessoas, como também assustá-las. E disfarçados para lembrarem noticiários verdadeiros, o produtor Louis Mayer garantiu que esses instrumentos de propaganda fossem mostrados nos cinemas da Califórnia – tão reais quanto os noticiários. O público não tinha a menor ideia que estava sendo enganado. As pessoas ou ficavam confusas com o que viam, ou morriam de medo (1). O povo é sempre igual em toda parte. Sem novidades no front.

Dizia um anúncio anti-Sinclair, tipicamente exagerado, que o EPIC “se for bem sucedido nas eleições, destruirá a estrutura de negócios da Califórnia, arruinará nossas famílias, derrubará nosso trabalho organizado, confiscará nossas casas, arruinará nossas indústrias e roubará nossos trabalhadores de seus empregos”. Só isso, mas que merreca. Nada parecido com já visto por aqui, não é mesmo. 

Afinal, quem ganhou as eleições sem golpe de estado? Também não precisava, claro, com um jogo tipicamente democrático daqueles é fácil, fácil.

O resultado final das eleições gerais de 1934, com feke news, com tudo, viu Merriam derrotar com 48% dos votos contra os 37% dados a Upton Sinclair. Um terceiro candidato, Raymond Haight, concorrendo na chapa do Partido Progressista (Progressive Party), que se apresentou como uma alternativa moderada, alcançou 13% dos votos. Seria trágico se não fosse cômico se os simpatizantes de Sinclair lhe perguntasse: levou quanto? Para com isso, meu camarada.

Após a eleição, Merriam anunciou que o resultado foi “uma repreensão ao socialismo e ao comunismo”. Caramba, o cara é bom de urna mesmo.

O LEGADO DO PROGRAMA DE SINCLAIR

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Cartoons da Era Sinclair.

O EPIC nunca se concretizou devido à derrota de Sinclair nas eleições de 1934, mas é visto como uma forte influência nos programas do New Deal promulgados pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, o popular FDR, ou simplesmente Del. Favor não confundir com FHC, coitado, que tem tudo a ver com o nosso plano “New Start Proverty in Brazil”, ou algo assim. 

No final de 1934, Harry Hopkins, um conselheiro sênior de Roosevelt, que passou a supervisionar muitos programas do New Deal, propôs uma campanha “End Poverty in America” que o New York Times escreveu: “difere do plano de Sinclair em detalhes, mas não em princípio”. Olha o cara aí, meu! Lembram-se?

Esta eleição é geralmente lembrada como uma das eleições mais disputadas da história da Califórnia, sendo citada por muitos historiadores e políticos como uma das primeiras eleições modernas da América, devido aos vários usos da mídia comercial, empresarial e o escambau e tal, pelo uso da retórica para popularizar ou demonizar os candidatos.

O processo eleitoral recebeu inclusive um estudo publicado em livro intitulado “A Campanha do Século” (Nossa!), publicado pelo Random House em 1992, vencedor do Goldsmith Book Prize, e que teve ampla cobertura na imprensa, inspirando até um documentário da PBS (abaixo, infelizmente em inglês, mas dá para curtir as imagens e sentir o clima).

O FILME ‘WE HAVE A PLAN’


Fotogramas do filme.

Produzido e dirigido por Lyn Goldfarb para a Blackside Films, faz parte da série sobre a Grande Depressão transmitida pela PBS em 1993. O documentário de 53 minutos inclui imagens raras de noticiários e entrevistas com veteranos da campanha de 1934. O filme procura retratar também o glamour de Hollywood, a intriga política e o socialismo reformista que se juntaram numa das sagas mais fascinantes das campanhas eleitorais da década da Grande Depressão. O mundialmente famoso escritor e socialista Upton Sinclair, concorrente para governador como um democrata, prometendo “acabar com a pobreza na Califórnia”, testa os limites do New Deal. Mas as forças mais poderosas e reacionárias da Califórnia se unem para empreender uma campanha cerrada e difamatória para derrotá-lo nas eleições de novembro de 1934 e, no processo, inventar uma  moderna campanha de mídia, conhecida nos dias de hoje como fake news. A cópia de “Nós temos um plano” além de está hospedada no Youtube, ela se encontra também no Site Washington.edu.

Leia também:  O capital é masculino (parte I), por Wilton Moreira

[video:https://www.youtube.com/watch?v=6BcShxauDgk align:center
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Quer saber mais? Então leia a minha pesquisa:
Carta Maior(1)/Washington.edu/National Homeless/Ucanr.edu/
JamesRolph/FrankMerriam/UptonSinclair/
& Resenha no vídeo 
Socialist Upton Sinclair Runs for Governor 1934

P.S: Me desculpem pelas ironias no texto, mas é que o surgimento das fake news na chamada era progressista/reformista norte-americana e o aparecimento delas por aqui, justamente nessa era reformista brasileira, seria irônica se não fosse trágica. É muita coincidência.  
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6 comentários

  1. OS DENTES FALSOS DE GEORGE WASHINGTON

    Belo artigo, sugiro para quem se interessar possa um livro fabuloso do Historiador americano Robert Darton:

    Os Dentes Falsos de George Washington.

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    DARNTON, R. Os dentes falsos de George Washington: um guia não convencional para o século XVIII. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 241p.

  2. Levando em coniuderação que

    Levando em coniuderação que Fake Neys foi uma poderosa arma de guerra desde sempre,qual a novidade ?

    A novidade é que as notícias falsas se alastraram sem guerra campal.

    E quando chegou a internet ,as notícias falsas ganharam dinamismo de verdadeiras.

    Não pra mim.

    Detecto a hetctares de distância quando uma notícia precisa, no mínimo,mais checada.Fora as que descarto sem averiguar principalmente vindo de certos veículos de comunicação.

    Agora, se vc acredita em tudo, acredite tbm na Santíssima Trindade: 3 em 1 .

    Ou na história de Adão e Eva.

  3. E convido-o, caro Jota, e a

    E convido-o, caro Jota, e a quem mais quiser a dar uma sapiada no filme de 2014 “O mercado de notícias”, do brasileiro Jorge Furtado, que, por sua vez, se baseou na peça de, pasme, 1626 “The staple of news”, do inglês Ben Johnson.

    Talvez o hábito de destruir reputações de forma mais ampla do que a simples fofoca de bairro seja até um pouco mais antiga do que o início do século 20…

    A propósito, não se tem conhecimento de outra cultura de língua tão virulenta quanto a inglesa, base do (desculpem) establishment estadunidense. Se Ariano Susassuna aponta que até ele torceu para Gunga Din e eplos ingleses contra o povo indiano, que dizer da gente aplaudindo o Sargento York ou até o “American Sniper”? Tem até uma cantora pop argentina que consagrou-se cantando “Don’t cry for me Argentina”, da ópera-rock inglesa “Evita”, uma obra que trata a política argentina como se os argentinos fossem um bando de oportunistas e aproveitadores, um insulto de uma hora e meia sobre políticas de estado voltadas para o atendimento popular…

    Poucas culturas do mundo são ou foram tão malediscentes quanto a anglo-estadunidense. Esforçar-se por impor superioridade inventando inferioridades sobre os outros é com eles mesmos, tem sido proceder recorrente, arma de guerra, como fazer para que a gente torça pelo nosso inimigo, goste mais deles do que de nós mesmos.

  4. ironias no texto

    Considerando o acumulado do que seria cômico se não fosse trágico, só mesmo o império da ironia parece estável. Mas não é toda fake news antiga que pode ser revista, discutida e desconstruída. A imprensa é a religião da modernidade (Balzac) a partir do século 19, mas fake news vem de bem antes. Expor fake news antiga pode ser uma coisa muito perigosa, até porque quanto mais antiga mais religiosa.

    Um exemplo de fake news antiga e religiosa é o de que as forças expedicionárias aliadas desembarcaram na Europa para combater o nazi-fascismo. Não se ignora que Hitler, até uma certa data, era um cabo cavalheiro e cativante. Ei-lo em foto com a rainha:

    Os fatos, porém:

    – “At the end of the winter fighting in 1943, Axis losses were staggering: 100 German, Italian, Romanian, Hungarian divisions were destroyed, or mauled. The president of the United States, Franklin Roosevelt, reckoned that the tide of battle had turned: Hitlerite Germany was doomed.”

    – “It was February 1943. In that month there was not a single British, American, or Canadian division fighting in Europe against the Wehrmacht. Not one. It was sixteen months before the Normandy landings.”

    – “Stalin had long demanded a second front in France, which Churchill resisted. He wanted to attack the Axis “soft underbelly”, not to help the Red Army, but to hinder its advance into the Balkans. The idea was to advance quickly north up the Italian boot, then wheel eastward into the Balkans to keep out the Red Army.”

    – “The Red Army had become an unstoppable juggernaut. It was just a matter of time before the destruction of Nazi Germany.”

    – “… FDR (Roosevelt) the godfather of the “grand alliance”. Nevertheless, in the shadows lurked the usual haters of the Soviet Union, who were only biding their time before emerging again. The greater the certainty of victory over Nazi Germany, the more vocal and strident became the naysayers of the grand alliance.”

  5. A fake….

    O advento da internet não fez surgir a ‘Fake News’. Só nos fez perceber que viviamos durante décadas sob suas mentiras, antes da invenção da internet. É exatamente o contrário. Fake News é a Imprensa Brasileira (e mundial também) 

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