A História mostra, a História já viu, por Fernando Horta

A História mostra, a História já viu, por Fernando Horta

O fascismo não começou com italianos carecas e alemães teatrais, em uniformes militares, matando gente em campos de concentração. O fascismo surge da junção de uma história de racismo, exclusão e sentimento de superioridade na Europa – que já no século XIX explicava a “superioridade do homem europeu” frente aos africanos, asiáticos e americanos – com uma imensa crise econômica. A questão não era a “segurança pública”, ou “a corrupção” … a questão era, sempre foi e sempre será o conflito distributivo.

Quando existem dez pães para serem divididos entre cinco pessoas, o sentimento de união, de ajuda ao próximo, de inclusão atinge até mesmo as classes mais altas. Quando sobram apenas cinco pães surge o discurso da “austeridade”. Com três pães para cinco pessoas, aparece o fascismo. É preciso dizer que daquelas cinco pessoas, duas ou três não têm direito ao pão. E isto é feito por meio de argumentos excludentes. A raça, a religião ou a preferência sexual é usada como forma de interditar os direitos do outro. Em sociedades homogêneas (raça e religião semelhantes) se usam as questões ideológicas. O “medo do comunismo”, a cor da bandeira, tudo é motivo para dizer que determinadas pessoas não têm direitos.

Nos anos 20 e 30, duas crises internacionais colocaram o conflito distributivo no centro das discussões políticas: crise resultante direta da primeira guerra e a crise de 1929. A organização coletiva da sociedade soviética não só permitiu que esta sociedade passasse pela primeira crise muito rápido, como também sequer sentisse a segunda. O sistema socialista acabou por criar um poderoso modelo de atração para as pessoas que sofriam os efeitos da guerra ao redor do mundo. Mais do que a URSS, era preciso acabar com o modelo, acabar com a ideia de que uma outra sociedade era possível, com outros padrões e outros valores. Neste sentido, quando o fascismo surge, as classes altas, em todos os lugares do mundo, acharam não apenas um projeto político capaz de conter a mudança social, como efetivamente acabar com a esperança de uma outra sociedade em bases diferentes.

Trotsky chegou a pedir uma união ampla contra o fascismo, Stalin ofereceu tropas soviéticas para entrarem em guerra imediata contra os nazistas quando Hitler anexou os Sudetos e, depois, a Tchecoslováquia, em 1938.

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Onde estavam os liberais e conservadores europeus?

Estavam encalacrados dentro da “política do apaziguamento”. Havia um misto de aversão a uma nova guerra, o erro de cálculo sobre onde poderia ir o fascismo, e negociações secretas entre Hitler e altos elementos (como príncipes e políticos) em toda a Europa por apoio mútuo. O conflito distributivo aqui joga papel exemplar. O medo do “comunismo”, que viria supostamente para “repartir as riquezas” de um povo que, a bem da verdade, não tinha mais riqueza, precisa ser compreendido. O medo não era, portanto, de quem não tinha nada perder o nada que tinha, mas das elites que estavam acumulando riquezas com uma nova sociedade que vinha se organizando na Rússia e arredores.

As elites (sejam políticas ou econômicas) viram em Hitler um sujeito inepto, incapaz, com discurso de ódio, capacidade de mobilização de outros assassinos e tremendamente burro. Logo, pensaram que seria um bom capataz para acabar com socialistas e comunistas, mesmo que fosse com crimes e violência. O padrão de votação das eleições alemãs do entre guerras mostra que é quando o conflito distributivo se mostra mais violento (após a crise de 1929) que o fascismo realmente cresce. Até mesmo organizações judaicas defendiam o voto em Hitler como forma de barrar o crescimento da esquerda.

O que se viu foi uma disputa interna nas esquerdas (eivadas de desconfiança umas com as outras) e um apoio real (travestido de neutralidade) de liberais e conservadores. A Hitler seria permitido o tempo de governo suficiente para acabar com as esquerdas e, em seguida (pensavam eles), o poder do capital financeiro e industrial voltaria com o terreno limpo. Os custos políticos das matanças e violências seriam todos de Hitler e seus nazistas. O liberalismo retornaria triunfante. A vitória seria completa.

O que efetivamente aconteceu é que o nazi-fascismo se entranhou nas instituições e interditou o jogo democrático-republicano. Diferente do que se pensou, o fascismo não permitiu que as engrenagens de controle estatal sobre ele funcionassem. O Direito se tornou fascista, trabalhando com noções de superioridade dos direitos do Estado sobre o indivíduo e a criação de crimes contra a “nação”, que abarcavam efetivamente tudo e qualquer coisa que o juiz dissesse que seria. O parlamento foi incendiado e atacado, retirando a legitimidade de qualquer um que tivesse sido eleito, já que a política era entendida como a fonte de todos os males. E mesmo no Exército e nas polícias, os indivíduos críticos a Hitler foram mortos em ações rápidas e organizadas, com a desculpa de “matar traidores da pátria”. Tudo isto ocorrendo com o júbilo e felicidade coletiva do povo, que aplaudia, participava, incentivava e se tornava a cada momento mais bestial e sem limites.

Hoje, a História mostra que mesmo dentro dos nazistas alguns se espantavam com a violência e crueldade das massas. Tendo relatos de líderes nazistas amedrontados com a proporção que as coisas tomavam. As explicações do fenômeno do fascismo que se centravam apenas nos líderes (e os colocavam como gênios ou como o mal encarnado) caíram por terra. O que realmente aconteceu foi uma promessa não escrita entre as lideranças e o povo. A promessa da partilha da violência e da crueldade. A “banalização do mal”, nos termos de Hannah Arendt, era parte do pacto. O nazifascismo permitiria que cada frustrado autoritário liberasse seu ódio nas minorias, legitimando esta violência, enquanto estes grupos de enjeitados sociais e violentos apoiassem, de forma total, o regime.

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A promessa de compartilhamento da violência, da selvageria e da crueldade é o que torna o nazi-fascismo um movimento de massa. Nossa sociedade tem monstros demais escondidos dentro dos seus armários. O fascismo os liberta, empodera, dá sentido e os usa politicamente.

Quatro líderes mundiais venceram o fascismo interno em seus países: Roosevelt, Churchill, Stalin e Getúlio Vargas. Nenhum deles sem o uso da violência e do aparato de Estado. Roosevelt pressionou a suprema corte para declarar o partido nazista norte-americano ilegal. Suprema corte que estava “neutra” em função da liberdade de expressão constitucional. Churchill conseguiu convencer o parlamento de que a Inglaterra não poderia se submeter aos interesses de uma potência estrangeira e que o nazismo era essencialmente contra o modo britânico de conceber o mundo. Ainda assim, somente após a Batalha de Cable Street que o movimento nazi-fascista britânico perdeu força. Stalin usou toda a retórica de Hitler para mostrar que a URSS era o alvo central e passou a atacar (muitas vezes sem razão) qualquer dissidência interna no país, denunciando-a como organizada para “enfraquecer” a União Soviética. Getúlio Vargas, após ter recebido dos Integralistas brasileiros (o nome do fascismo daqui) apoio contra o Partido Comunista em 1935, decretou a ilegalidade do Partido fascista em 1938, usando as forças de Estado para desbaratar a semente do mal nas terras tropicais.

No momento atual, tivemos duas crises econômicas profundas a fomentar o conflito distributivo: 2008 e 2010. As elites se reuniram contra os projetos de igualdade social e instilaram, novamente, o “medo do comunismo”. Entenderam o fascismo brasileiro como “tolerável” e uma força importante para vencer o “PT”. Empoderaram um líder burro, inepto e incapaz, com um discurso de ódio e capacidade de mobilização de assassinos e pensam poder controla-lo. Liberais e conservadores, neste momento, já perderam toda e qualquer capacidade eleitoral e a violência política já explode nas ruas brasileiras. A promessa ou o pacto fascista já está vigorando. As esquerdas continuam sem se unir e a “neutralidade” parece, a quem não conhece a História, ser a palavra da moda.

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Estão todos encenando uma peça já apresentada. Uma peça que termina com perseguições, massacres, violência e guerra. Um teatro que, de tão ridículo, parece não oferecer perigo, mas que, até por isto mesmo, se torna perigoso.

Estão todos brincando com fogo. Uns porque lhes prometeram que vão poder queimar e outros porque acreditam que poderão controlar os incendiários. O fascismo é como o fogo, começa com pequenas fagulhas e logo não pode ser contido. Na Alemanha as demonstrações das “Marchas das Tochas” eram eloquentes avisos. Eram ameaças simbólicas que não foram ouvidas.

No Brasil acontece exatamente o mesmo.

 

Nos ouçam, por favor, antes que seja tarde demais.

 

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14 comentários

  1. Os maus por si se destroem
    Por ser dia dss criancas, a Barabars apelou e eu tive que ir com ela a uma panificadora, comprar salfados e refri, nada obstante o brefo.
    Quando la estavamos, passou uma cena do Bolsonsro fazendo menvao de atirar com uma metralhadora. A dona da panifi adora e a empregada comecsrsm a dizer que os gestos do Bolsonsro sao absurdos e pior eh que ele ensina isso a criancas. O cliente que la estava disse que o Brasil precisa eh de paz e nao de msis violencia, que votou no Bolsonar mas acha wue nao vai votar mas nele.
    A dona disse nao entenfer porque os evangelicos votam num candidato que prega a violencia aberta e despudoradamente

  2. Sobre a nossa situação, eu

    Sobre a nossa situação, eu diria que a principal diferença entre Hitler e Boçal é que Hitler contou com um dos maiores economistas do século XX, Hjalmar Shacht, que ajudou a Alemanha a sair da crise de 29 e fez da espetacular recuperação alemã o fortalecimento do nazismo – afinal se um regime autoritário não dá bem estar pro seu povo este regime só pode se manter às duras penas por uma repressão fortíssima, vide Venezuela de Maduro. Foi tão importante a figura de Shacht que mesmo participando de uma conspiração pra matar Hitler que falhou, Schacht foi o único poupado da morte e se especula que a razão possam ser duas 1] gratidão de Hitler (sic) por seus serviços pela crise de 29 ou 2] Hitler acreditava que ainda venceria a guerra e queria contar com sua ajudar pra reorganizar a economia europeia. 

    Já Boçal conta com Paulo Posto Ipiranga Guedes. 

  3. Nao eh a escassez a fonte da crise capitalista
    Nas sociedades burguesas as crises sao causadas pela superproducao, nao pela escassez

  4. Bolsonaro é um líder fraco

    Bolsonaro é um líder fraco que provavelmente seria descartado na primeira oportunidade pelos militares. Em janeiro ele seria internado para uma nova cirurgia na qual provavelmente nunca mais voltaria. Seria a oportunidade para fechar o ciclo democrático com a morte do último presidente civil e o retorno do poder aos militares.

    O golpe de 2016 terminaria com a devolução do poder aos militares após um breve período democrático de 30 anos. Da mesma forma como Tancredo Neves morreu de forma obscura, o Bolsonaro teria um destino semelhante. Uma nova ditadura militar é uma ameaça real e muito provável numa eventual derrota eleitoral do Fernando Haddad.

     

  5. No combate

    Estamos organizando para amanhã uma manifestação publica pela Democracia no Brasil e estamos escrevendo neste momento uma carta aberta (tribune) para ser publicada nos jornais franceses nos proximos dias, subscrita, assim esperamos, pelos diversos setores da sociedade e chamamos a todos para uma grande manifestação sabado 20 de Outubro. 

    Teremos encontros durantes os proximos dias para debatermos como nos oragnizaremos passo a passo até a eleição do dia 27.

    Tem aqueles que consideram que não ha mais nada a fazer, que a eleição esta perdida. Ao meu ver nenhuma eleição esta ganha antes da hora, a não ser que haja fraude. Temos ainda tempo de fazer com aqueles que não gostam de violência, não coadunam com essas mensagens preconceituosas, com as privatizações de todas as nossas empresas mudem seus votos. Muitos não foram votar pelo antipetismo. Vamos buscar esses ai, além dos votos brancos e nulos. Ha luta so acaba com o ulitmo voto.

    • A luta nao vai acabar apos ss eleicoes
      Se Haddad perder ou ganhar, a luta nai acabar apos as eleicoes, ela vai recrudescer

  6.  
    O BRASIL VAI QUEIMAR
    Este

     

    O BRASIL VAI QUEIMAR

    Este rastilho de pólvora, do voto em Bolsonaro, que correu pelas redes sociais, caso ganhe, e pelo jeito vai ganhar, vai tocar fogo no país.

    Temos duas semanas para salvar o Brasil desse incêndio!

    Não é brincadeira, cada dia que passa nessa eleição, sentimos que o ambiente está esquentando, o medo aumenta, a violência aumenta.

    Os opositores ao nome de Bolsonaro, os petistas, já não podem usar suas camisas vermelhas, já não podem expor o número 13.

    A sociedade brasileira está dividida, irmãos contra irmãos.

    Vivi a ditadura, embora tivéssemos os prós e os contras, não havia esta animosidade, este grau de violência entre os cidadãos brasileiros. O inimigo era o regime.

    Minha mulher já não quer que eu faça panfletagem.

    As autoridades responsáveis não estão dando proteção devida aos eleitores.

    O MP, a Polícia, a Justiça parece ter lado, o lado do fascismo.

    A imprensa, a mídia de um modo geral, está a favor do candidato Bolsonaro, aceita os seus métodos violentos, não defende os contrários.

    Só parte da blogosfera clama por uma campanha equilibrada.

    O mundo estrangeiro vê com preocupação, principalmente os que já viveram o nazi-fascismo.

    O que fazer pra não deixar o circo pegar fogo?

    Não pensem os que votarão no fascista Bolsonaro, que vão se salvar sozinhos.

    Com certeza também vão se queimar.

    Os principais serão as crianças nas creches e escolas, os jovens nos colégios e nas faculdades, sem proteção nas ruas, inseguros até nos locais de laser.

    Os trabalhadores sofrerão nos seus locais de trabalho.

    Serão perseguidos nas campanhas salariais, perderão mais direitos.

    Os funcionários públicos perderão a garantia da estabilidade, destruídos pelo estado mínimo.

    A salvação tem que começar pelos pais e mães, principalmente pelas mulheres, mais sensíveis elas devem fazer uma campanha forte nas redes sociais, contra o voto em Bolsonaro, desmistificando suas mentiras, clamando por menos violência contra elas e contra as minorias.

    Esperamos que todos se unam e transformem esta perspectiva fascista numa democracia mais forte.

     

  7. FIM DE 88 ANOS DE NAZI-FASCISMO TUPINIQUIM

    Replicados por 40 anos pseudo-redemocráticos. A Elite Esquerdopata que ascendeu juntamente a Caudilhismo Fascista de 1930 e produziu a Indústria da Pobreza, da Miséria, do Atraso, do Analfabetismo (mesmo sendo o maior sindicato e o maior orçamento do Estado) esperneia pelo fim do seu Feudo. Ditador Assassino virou então, Revolucionário pela Democracia e Estruturação do Estado. Seus Lacaios tornaram-se em símbolo de um país que surgiria. E nunca surgiu. O braço fascista produz Tancredo Neves e suas Capitanias Hereditárias, o Coronelismo Nordestino vigente até hoje,  Adhemar de Barros, Juscelino Kubscheck, João Goulart, Leonel Brizola,…. O fim do Estado Ditatorial Absolutista. Parasitas não se conformam. A Indústria da Censura mostra sua verdadeira face.  

  8. Carta aberta aos judeus
    Li no Blog 247 a comovente e esclarecedora Carta Aberta aos Judeus por Hannah Farbiasz. Minha opinião nua e crua Hannah é a seguinte: depois dos apelos que eu mesmo já fiz com gente da minha própria família cheguei a terrível conclusão que nem Jesus descendo dos céus consegue convencer as pessoas sejam elas a que religião pertencerem. Acho que algum alienígena se apoderou de suas mentes.

  9. Post bastante esclarecedor.

    Post bastante esclarecedor. Cocordo que, ao fim de tudo, é a distribuição da riqueza o fator que detona os conflitos sociais. Penso, como o amigo de comentários Wilton Santos,  Bolsonaro é fraco, se eleito e assim que desviar da rota ultraliberal, será retirado do poder.

    • A origem dos conflitos eh a producao
      A origem dos conflitos sociais eh a producao, nao a distribuicao. Na escravidao, por exemplo, o conflito era para ver quem produzia. A distribuicao eh determinada pela producao

  10. É bom q se fale professor
    É bom q se fale professor Horta,há um espírito de cegueira sob as pessoas,suas percepções são rasas/superficiais tipo “ele(o coiso)vai acabar com a corrupção!”ou “O PT não quero mais!”,essas pessoas estão sendo manipuladas por isso não vêem o q está por trás do coiso,criou-se uma cortina de fumaça,nossa nação é sem memória,tivemos a escravidão,ditadura e bem recentemente um golpe ao qual foi terrível p a maioria e…aí vem muitos do povão,destes q foram e são muito prejudicados dizer “Voto no Bolsonaro!”,então meus amigos é chicote nas costas mesmo,merecem,vejam bem se Bolsonaro se eleger,só vão oficializar o PAÍS BÁRBARO Q JÁ SOMOS,é simples assim,estamos humilhados mundialmente,as Instituições já eram,o caos já está aqui,se o povo quiser e Deus permitir, q assim seja, eu até entendo o povo,a realidade/fatos expostos a eles são distorcidos/escondidos é uma Matriz proposital mesmo!

  11. Solução

    A essa altura só consigo pensar em uma solução para reverter a atual tendência: um ritual ecumênico de exorcismo do Brasil.

  12. + comentários

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