Dois históricos legalistas brasileiros

Sugestão de Jota A. Botelho

Leonel de Moura Brizola e a Campanha da Legalidade – Em vídeo inédito, gravado por Nilton Fraiberg Machado, em 22/11/97, Forquilhinha/SC, onde Leonel Brizola relembra a histórica Campanha da Legalidade em que ele foi o protagonista, então com 36 anos de idade e Governador do Rio Grande do Sul, quando saiu em defesa da posse do Vice-Presidente João Goulart, com a renúncia do Presidente Jânio Quadros, acrescidos do Hino da Legalidade – um legado da resistência de Leonel Brizola – e suas declarações após a vitória da Campanha da Legalidade.

Letra do Hino da Legalidade:
“Avante brasileiros de pé / Unidos pela liberdade / Marchemos todos juntos com a bandeira / Que prega a lealdade / Protesta contra o tirano / E recusa a traição / Que um povo só é bem grande / Se for livre sua Nação”

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https://www.youtube.com/watch?v=AevpsswM8-k align:center]

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O general Lott, responsável por frear os golpes de 1955 e preservar a democracia

Henrique Teixeira Lott: O Marechal da Legatidade – Este Arquivo, com a reportagem de Ricardo Westin, conta a história da insurreição feita para salvar o regime democrático. Em 1955, o Marechal Henrique Teixeira Lott protegeu a democracia brasileira contra uma articulação que visava impedir que o Presidente eleito, Juscelino Kubitschek, tomasse posse. O então Ministro da Guerra, organizou uma resistência contra o golpe parlamentar permitindo sua posse como Presidente da República. Na época, em meio a uma crise política, o Brasil chegou a ter três presidentes da República em uma única semana.

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Há 60 anos, crise fez Brasil ter 3 presidentes numa única semana

Da Agência Senado, por Ricardo Westin, em 09/11/2015

Há exatos 60 anos, o Brasil vivia dias explosivos. Em novembro de 1955, os brasileiros assistiram a uma onda de conspirações políticas e militares que culminou em dois golpes de Estado fracassados e dois contragolpes bem-sucedidos.

O Rio, então capital, foi palco de cenas de guerra, com tanques nas ruas e tiros de canhão na praia. No Palácio do Catete, houve uma dança das cadeiras. Numa única semana, o Brasil teve três presidentes — Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos.

Foram momentos decisivos da história nacional. O Arquivo do Senado, em Brasília, guarda documentos que ajudam a entender o acontecido. Os papéis, que contêm os discursos e as decisões dos senadores, mostram que o Senado teve função ativa no desenrolar dos eventos.

Um dos episódios mais dramáticos ocorre na manhã de 11 de novembro de 1955, quando os fortes do Leme e de Copacabana abrem fogo contra o navio de guerra Tamandaré. A bordo, está Carlos Luz. O presidente acaba de ser deposto, mas não se dobra.

A população, desesperada com os estrondos, estende lençóis brancos nas janelas dos edifícios da Avenida Atlântica. Nenhum disparo acerta o cruzador, e o navio não revida.

O Tamandaré escapa porque consegue emparelhar com um cargueiro que deixa a Baía de Guanabara e se escudar dos tiros. Luz, acompanhado de mais de mil militares, navega rumo a Santos (SP), para organizar um governo de resistência.

O 11 de novembro é o ápice de uma crise que começa muito tempo antes. Vice de Getúlio Vargas, Café Filho assume o poder após o suicídio do titular, em agosto de 1954.

Getúlio decide se matar para frear um iminente golpe encabeçado pela UDN (partido da oposição) e pelas Forças Armadas que o apearia da Presidência. Os dois grupos abominam a política nacionalista e trabalhista de Getúlio.

O suicídio do presidente e a posse do vice adormecem os impulsos golpistas. Café engaveta as políticas getulistas e escolhe a UDN para ocupar praticamente todos os ministérios.

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A calmaria dura pouco. Em 3 de outubro de 1955, o país elege Juscelino Kubitschek presidente e João Goulart vice. O resultado da votação desperta os conspiradores de 1954.

JK e Jango pertencem respectivamente ao PSD e ao PTB, fundados por Getúlio. JK, à frente de Minas Gerais, foi o único governador a participar do velório do presidente. Jango foi ministro do Trabalho de Getúlio e perdeu o cargo por pressão dos militares, após tentar dobrar o valor do salário mínimo.

A UDN e parte das Forças Armadas, que não têm dúvida de que JK e Jango desengavetarão as bandeiras do getulismo, preparam-se para dar um golpe, impedindo a posse dos vitoriosos e tomando o poder.

Maioria absoluta

Novembro de 1955 já começa tenso. No dia 1º, num evento público, o coronel Jurandyr Mamede faz um virulento discurso contra JK e Jango. O militar classifica a vitória de “mentira democrática” e diz que eles não podem assumir o poder.

O episódio ocorre três meses antes da posse, marcada para 31 de janeiro de 1956, e ganha enorme repercussão nos jornais.

A principal alegação dos conspiradores é que JK não venceu com a maioria absoluta (mais de 50%) dos votos. O mineiro obteve 36%, ligeiramente à frente dos 30% do general Juarez Távora, o candidato apoiado pela UDN e pelos militares.

As leis da época, porém, são claras: se exige simplesmente a maioria dos votos e não há segundo turno.

A lista de argumentos continua. Os golpistas dizem que houve fraudes na votação e acusam de ilícito o apoio dado a JK pelo Partido Comunista do Brasil (PCB, depois Partido Comunista Brasileiro), que estava na clandestinidade.

Um dos poucos ministros de Café Filho não filiados à UDN é o general Henrique Lott, titular do Ministério da Guerra (hoje Comando do Exército).

Apesar de ter apoiado a candidatura do general Távora, Lott tem uma postura legalista. Ele defende que o resultado das urnas deve ser respeitado e proíbe a caserna de aderir ao golpismo.

O ministro participa do evento do dia 1º e não gosta da indisciplina de Mamede. Lott, entretanto, não pode puni-lo porque o coronel está cedido à Escola Superior de Guerra, subordinada à Presidência. O presidente teria de devolvê-lo ao Exército.

Quando procura o Catete para fazer o pedido, Lott se inteira de que Café Filho acaba de sofrer um “ligeiro distúrbio cardiovascular”, segundo o boletim emitido pela Presidência.

Os médicos preveem que Café precisará passar vários dias hospitalizado. No dia 8, o mandatário se licencia e transmite o poder para o presidente da Câmara, Carlos Luz.

No mesmo dia, o senador Paulo Fernandes (PSD-RJ) sobe à tribuna do Palácio Monroe, a sede do Senado, e faz uma avaliação preocupante do momento:

— Persistem grupelhos de políticos inconformados com os resultados do pleito. Eles fazem de tudo para tumultuar a situação e agitar o ambiente político.

No dia 10, Lott consegue uma audiência com o presidente interino. Luz, porém, responde que não vê motivos para punir Mamede. Sentindo-se desautorizado e desprestigiado, Lott pede demissão. O pedido é aceito e o presidente anuncia como sucessor o general Álvaro Fiúza de Castro. Lott negocia sua saída para o dia seguinte.

Chá de cadeira

À noite, na cama, Lott reflete sobre todos os acontecimentos. Lembra que Carlos Luz correu para cumprimentar efusivamente Mamede após o desafiador discurso do dia 1º. Pensa que o chá de cadeira que Luz lhe impôs naquele dia na antessala do gabinete presidencial — duas horas de espera — foi pura provocação. Acha estranho ter aceitado a demissão tão rapidamente e ainda por cima anunciado de imediato o nome do novo ministro. Recorda, por fim, que o general Fiúza de Castro foi protagonista do movimento que levou Getúlio ao suicídio.

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Para Lott, está claro: Luz quer se livrar do ministro da Guerra, que é legalista e tem as tropas nas mãos, e assim abrir caminho para um golpe militar que impedirá a posse de JK. O ministro demissionário, então, corre para orquestrar um contragolpe. Na madrugada do dia 11, mobiliza quartéis de várias partes do país. Na capital, cerca o Catete.

Os militares estão rachados. Uma parte apoia o legalismo do general Lott. A outra adere aos golpistas e ajuda Luz na fuga para Santos. Entre os conspiradores a bordo do cruzador Tamandaré, estão o coronel Mamede e o jornalista e deputado Carlos Lacerda (UDN).

Ainda no dia 11, Lott negocia com a Câmara e o Senado a derrubada formal de Carlos Luz. Em sessões tumultuadas, os deputados e os senadores aprovam o impedimento. Luz é presidente por três dias, o mandato mais breve da história nacional.

Com o presidente morto, o vice doente e o presidente da Câmara impedido, toma posse no Catete naquela noite o seguinte na linha de sucessão: o vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. Em menos de uma semana, é a terceira pessoa na Presidência.

Segundo a Constituição da época, o vice-presidente da República se torna automaticamente o presidente do Senado — uma espécie de cargo honorífico. É por isso que quem aparece depois do presidente da Câmara na linha de sucessão não é o presidente do Senado, mas o vice da Casa.

No Palácio Monroe, os senadores apoiam o colega. Afirma Lima Teixeira (PTB-BA):

— À frente do governo nesta hora grave da nacionalidade, o ilustre vice-presidente desta Casa certamente agirá com espírito conciliador, equilíbrio e bom senso para debelar esta crise sem derramamento de sangue.

O senador Kerginaldo Cavalcanti (PSP-RN) concorda:

— Penetramos nos umbrais da inconstitucionalidade quando da deposição branca do senhor Getúlio Vargas, que dela se livrou pelo suicídio. Vivemos o segundo episódio do drama político da inconstitucionalidade. É preciso salvar o regime e as instituições. Estou convencido de que o senhor Nereu Ramos, e somente ele, poderá conciliar os ânimos.

Carlos Luz não consegue desembarcar em Santos. Quando chega, o porto já está ocupado pelos soldados de Lott. A ideia da resistência cai por terra.

O contragolpe de 11 de novembro consegue abortar o golpe da UDN, de parte dos militares e do próprio Luz. A sanha, no entanto, continua. Os conspiradores começam a tramar o segundo golpe.

“Enfarte golpista”

Os golpistas agora se voltam para Café Filho, ainda licenciado. Sabem que podem contar com ele. Em 1954, o vice-presidente cedera à pressão e propusera a Getúlio que renunciasse. Depois, chegou a se pronunciar contra a candidatura de JK.

No dia 21 de novembro, Café Filho deixa o hospital e manda um comunicado a Nereu Ramos avisando que já está curado e reassumirá o poder.

Até hoje, não se sabe se o mal cardíaco foi uma mentira de Café Filho para abrir caminho para que os golpistas, liderados por Carlos Luz, agissem livremente ou se ele de fato adoeceu por não suportar a pressão do grupo anti-JK.

O senador Kerginaldo Cavalcanti, sarcástico, classifica a doença de “enfarte golpista”:

— O senhor Café Filho se encontrava às portas da morte e agora está curado. Recomendo a todos os afetados por enfarte as Vitaminas Lott, remédio que representa a última palavra da farmacopeia nacional e cura com rapidez surpreendente.

O senador Fernandes Távora (UDN-CE), médico e irmão do candidato presidencial dos udenistas, reage à ironia do colega:

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— O senhor Café Filho não será o único doente que enfarta a curar-se. Há até uma grande porcentagem em tais condições. Mas uns precisam de menos tempo e outros, de período mais longo.

Lott fareja a nova tentativa de golpe e deflagra o segundo contragolpe. O ministro da Guerra manda seus soldados cercarem o edifício de Café Filho, em Copacabana. Até tanques participam da operação. Assim, o presidente licenciado não consegue sair de casa e voltar para o Catete.

Num movimento semelhante ao de dez dias antes, Lott articula com a Câmara e o Senado o impedimento de Café Filho. O senador Parsifal Barroso (PTB-CE), que depois seria ministro do Trabalho de JK, apoia Lott:

— A chefia do Poder Executivo não pode ser exercida por quem está implicado, por ação e omissão, no processo de conspiração que há mais de um ano procura utilizar a Presidência para a implantação de uma ditadura.

No lado oposto, Alencastro Guimarães (PTB-DF), que fora ministro do Trabalho de Café Filho e Carlos Luz, se posiciona contra o impedimento:

— O precedente estava aberto desde 11 de novembro, embora disfarçado. Agora, porém, fica estatuído, passa a ser lei de uso e costume: só será presidente aquele a quem o grupo do general determinar, consentir, permitir.

As sessões na Câmara e no Senado avançam pela madrugada e a derrubada do presidente licenciado é sacramentada na manhã do dia 22. Café recorre ao Supremo Tribunal Federal, mas não obtém sucesso.

Nereu Ramos conclui o mandato que pertencia a Getúlio e em 31 de janeiro de 1956 transmite a faixa presidencial a JK. A democracia é preservada sem uma única gota de sangue derramada. As tentativas de golpe continuariam até 1964.

Lott presidente teria evitado golpe de 64, diz biógrafo

Em 1960, já com a patente máxima de marechal, Henrique Lott se candidata pelo PSD à sucessão de JK, mas perde para Jânio Quadros, apoiado pela UDN. O presidente logo renuncia, dando lugar ao vice, João Goulart (PTB). Em 1964, Jango é derrubado por um golpe militar.

O jornalista Wagner William, autor da biografia de Lott O Soldado Absoluto (editora Record), afirma:

— Jango não reagiu porque haveria derramamento de sangue. Se Lott estivesse na Presidência, o golpe não teria sucesso. Ele era soldado e partiria para a guerra. Tenho certeza de que passaria o poder para o presidente eleito democraticamente em 1965.

Quem dá o golpe em 1964 é o mesmo grupo que tentou tomar o poder em 1954 e 1955. O primeiro golpe foi abortado pelo suicídio de Getúlio. O segundo, pela ação de Lott.

William diz que a população apoiou 1964 por causa do que havia ocorrido em 1955, quando Lott derrubou dois presidentes, inclusive atropelando a Constituição, mas manteve a democracia. Em 1964, ao contrário, os militares não devolveriam o poder e implantariam uma ditadura.

Para o biógrafo, Lott hoje é pouco conhecido porque a ditadura o varreu da versão oficial da história.

Segundo o historiador Antonio Barbosa, da Universidade de Brasília, 1946–1964 foi o primeiro período verdadeiramente democrático no país:

— O aprendizado democrático não foi fácil. Houve crises permanentes. A oposição [UDN insistentemente recorreu aos militares para tentar tomar o poder.

A seção Arquivo S, resultado de uma parceria entre o Jornal do Senado e o Arquivo do Senado, é publicada na primeira segunda-feira do mês.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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18 comentários

  1. Homens de Valor
    Meu pai, neste momento de muitas analogias e reminiscências, volta e meia se recorda de Lott, sempre com deferência. Os personagens, principalmente de 54 e 64 têm estado presente nas conversas com ele.

    Que, se não me engano, participou da fundação – creio que foi um dos signatários – do PDT no Rio. Sempre acompanhamos a trajetória de Brizola com interesse.

    Dois homens diferenciados como atesta o relato.

    Post-História.

    Excelente.

    • Nunca aprendi isto nas minhas

      Nunca aprendi isto nas minhas aulas de história …… se bem que as tive em plena ditadura. Porque será que sempre sinto que o essencial não é dado nas escolas? Por isso há tanto desinteresse por parte dos alunos. O ensino tem que ser útil para o indivíduo e para a sociedade. Tem que valer a pena o esforço de superar as dificuldades do aprendizado. Diplomas são meros papéis, o que vale para a vida é o uso que se faz daquilo que é aprendido.

      Por isso ainda sou uma aprendiz e não me vejo diferente disto aos 50anos de idade, busco obsessivamente por aprender aquilo que ainda não sei. Aprendi a conviver com a dificuldade natural de construir passo a passo o conhecimento. 

  2. Grandes

    Muito mais do que Grandes: Gigantes….

    Vendo a camarilha de políticos de hoje é de chorar…

    Brizola sempre disso que o PMDB era isso mesmo que está ai hoje…

  3. Ao promover o motim dos

    Ao promover o motim dos sargentos contra seus oficiais e patrocinar a emergencia de “”generais do povo” (Osvino Ferreira Alves) e “”almirantes do povo”” (Alm.Paulo Suzano) em março de 1963, Brizola não foi nada legalista e provocou a reação das FA que preparou a derrubada do governo Jango.

    Ao desapropriar  em 1961 sem indenização a Cia.Telefonica Nacional (ITT)  e a Cia.Auxiliar de Empresas Eletricas Brasileiras  (Bond & Share) no Rio Grande do Sul tampouco foi legalista, provocando um grave contencioso com os EUA.

    Como tudo em politica, o juizo depende do ponto de visão de quem olha.

    • Tudo na vida depende de ponto
      Tudo na vida depende de ponto de vista. Tem alguns que consideram, e escrevem, que ALGUÉM que construiu 506 CIEPS fez alguma escolas no Rio de Janeiro. É o seu ponto de vista.

    • O cidadão só faltou dizer…

      O cidadão só faltou dizer…

      … que as FA reagiram para dar o golpe porque Brizola recusou-se a pagar o General Amaury Kruel com alguns milhões de dolares em propinas em algumas malas, obrigando o pobre general a aceitar o patrocínio dos bandidos (da época) da FIESP do atual Tucanistão. O gaúcho podia ter comprado o general, evitando a bandidagem golpista da FIESP que prossegue até hoje, como se vê, desta vez comprando uma ‘assembleia geral de bandidos comandada por um bandido.” Bem feito, Brizola!

    • Caro A²

      A História! A nossa ingrata história…

      Tenho sido um dos poucos que supôs a derrocada do modo petista de governar o país. Cheguei a fazer um post sobre isto, onde previa que a derrota nos parecia próxima, e propunha que mantivesse a democracia, a exemplo da Venezuela e Argentina, que a oposição mais cedo ou mais tarde chegaria ao poder. A razão de tal intuição se deve ao fator Marta Suplicy, sim, ela mesma, e do seu rompimento com o PT voltando às suas origens de classe dominante, que nos revela essa união de classes que o partido fez ao longo de sua história. Este é um estudo de caso que vou deixar para os especialistas descrevê-lo nessa história toda. Ele é tão simbólico que não me parece nada enigmático, mas principalmente revelador sobre a crise de poder que estamos passando agora. Custa também entender o fator Lula nas próximas eleições (?). O PT sem alianças não alcança quiçá 25% a 30% dos votos – o que seria o seu nível histórico. Escrevo isso para dizer que a única e última eleição que participei ativamente foi na eleição de 1989. Lá, pude perceber que Brizola detinha cerca de três eleitores em cada dez, isto é, 30% do eleitorado (pelo menos por estas bandas). Outros três eleitores eram irremediavelmente contra o velho Brisa – sem papo – todos já estavam contaminados pelas invencionices da ditadura militar e, sobretudo, pela mídia (como é o caso do PT hoje em dia – haja pimenta nos olhos alheios). Sobravam, portanto, quadro eleitores que teríamos de convencer: um, era o chamado maria-vai-com-as-outras, vulnerabilíssimo; dois, os eternos indecisos, que só votam sob influência dos mais próximos (familiares, amigos, patrões etc); três, os sugestionáveis – estes poderiam votar em nós, mas ainda assim, se numa eleição polarizada e galvanizada para o nosso lado; e quatro, os petistas, sim, eles próprios, onde Lula declararia, mais tarde, que foi bom ter perdido, pois não se encontrava preparado – ora, ora, pois, pois… E Brizola? Portanto, para Brizola, só restava mesmo o seu carisma pessoal e um votinho do terceiro grupo para passar ao 2º. turno. Mas perdemos, embora por aqui ganhamos. Não havia aliança com ele que pudesse somar 3+1=4, isto é, os 40%. Penso que é este o quadro que se encontra hoje o PT. Ora, então para quê tudo isso? Fim de um ciclo? Geopolítica? Sabemos que o buraco é mais embaixo… 
       

      • Meu caro Botelho, boa analise

        Meu caro Botelho, boa analise e concordo com algumas ressalvas. Vejo na crise atual  do PT uma raiz mais profunda,

        escrevi sobre isso algumas dezenas de artigos aqui no blog. Atribuo a um mega erro, matriz de todos os demais: o chamado “republicanismo”. Os dois Procuradores Gerais da Republica, algozes do PT, foram nomeados pelo PT por vontade propria do PT, o Presidente, primeiro Lula e depois Dilma, poderiam ter escolhido um procurador mais ajustado à visão do PT e nos quadros do MPF havia varios mas se renderam ao “republicanismo” ao aceitar a indicação de uma liste que não existe legalmente e não tem previsão constitucional. Os enforcados escolheram os carrascos. Dessas escolhas derivaram oso processos e a demolição do Partido, o resto é consequencia.

        O segundo erro foi a ausencia de articuladores politicos no Palacio do Planalto para administrar as relações com o Congresso. O Congresso é administravel a aprtir de boa articulação politica, FHC não teve maiores problemas com o mesmo Congresso. Articulação politica é uma arte que exige experiencia e delegação de poderes. Como se explica o Governo dar Ministerios importantes a bancadas não deram NADA em troca, como a do PSD e do PRB, na hora H votaram contra quem lhes deu os Ministerios? Então para que dar a eles Ministerios? Isso é falta de articulação.

        Já o  republicanismo não existe em outras grandes Democracias. O Procurador Geral é escolha POLITICA do Chefe de Estado. É absurdo em qualquer regime ou governo o Presidente escolher voluntariamente seus algozes.

        Republicanismo é um conceto de ficção, não existe na “realpolitik” do Poder que é a mesma em Washington ou em Paris.

         

        Na realidade brual da politica, republicanismo é uma demonstração de fraqueza.

         

        • Caro Andre

          Eu tenho acompanhado suas análises durante todo esse período e elas tem sido muito boas. Tirando suas ‘diatribes girondinas’, venho concordando com muitas delas, chegando ao ponto vê-lo em algumas ocasiões como um aliado, uma vez como representante da área empresarial que sempre foi, suas publicações tem sido raro como manifestação pública por parte dessa gente. Mas voltando. A Dilma nunca teve uma entourage política e o PT, salvo raríssimas exceções, nenhum grande quadro político no partido. O próprio Lula amadureceu no poder. O republicanismo ao qual você se refere, mostrou-se num total desconhecimento da máquina pública secular brasileira, com todos os seus vícios, desde sempre. A organização do Estado Brasileiro não é para amadores, pois quem dorme em submarino, não dorme de janela aberta. Ou andorinha que anda com morcego, dorme de cabeça pra baixo. Por ser um grupo político sem experiência administrativa (penso ser isso fundamental, ou pelo menos com pessoas certas nos lugares chaves) que subiu ao poder, adotaram uma administração de concesso ao invés de comando, igual a que fora adotada na articulação política – totalmente conciliadora (vide o grampo sem áudio do Gilmar – para com isso). Parafraseando um amigo meu: “O PT não entra em bola dividida – nem na disputa de pênaltis, que é com bola parada”. Conclusão: dormiram com os inimigos e acordaram desarmados, fora da hora. Mas tudo isso já vinha sendo denunciado. Em todo canto. A própria militância estava pê da vida. Este impeachment não era para ter acontecido. Um governo com cerca de uns 70 parlamentares fiéis (PT/PCdoB/PDT), não conseguir colocar mais uns 74 parlamentares para barrá-lo, com toda a máquina pública na mão – francamente – era por que já não governava mais. Esse tipo de golpe foi usado aqui na América Latina, no Leste Europeu quase todo, e ninguém do governo percebeu nada?! Penso até que ele começou na China, na praça Tian’anmen, em 1989, com os protestos estudantis. Lá, os chineses não foram nada republicanos, e nem populares, para um país que se diz República Popular da China.  Sei não… Mas que estava no cardápio, lá isso estava. Tenha uma boa semana, se possível. E infelizmente para todos nós.

    • Meu bisavô era  Getulista e

      Meu bisavô era  Getulista e Brizolista (com maiúscula) convicto.

      Contava tanto de seus feitos que a gente chegava a se perguntar: ele era tudo isso mesmo?

       

      Mas daí quando a gente vê um típico paulistano dos jardins falando tanta porcaira sobre a figura, mesmo depois de 10 anos de sua morte, tenho q admitir :

      – Nonno, tinhas razão. Foi tudo isso e mais um pouco!

  4. parece que esses valores

    parece que esses valores esquecidos inclusive pela história estão meio rarefeitos hoje em dia,

    mas a ideia essencial que ficou e ficará é a resistencia,,

    agora há movimentos sociais e sindicais, jurídicos, culturais etc 

    a nível nacional que resisiem a esse golpe infame….

    a ver…

  5. Os legalistas

    Ao contrarios dos golpistas os legalistas são sempre lembrados e homenagiados!

    .Aos golpistas do passado e os atuais (aqueles mesmo do CN e muitos outros do judiciarios) resta a lata de lixo da historia.

  6. Eu fui afilhada de batismo de

    Eu fui afilhada de batismo de Café Filho, e meu irmão, secretário particular dele na vice-presidência, por isso tínha conhecimento por minha madrinha, Janidra Café, em 64, quando estive no apartamento da família em Copacabana, que o marido, até aquela data sofrera dois infartos. Ela até me mostrou uma aliança de diamantes que ganhara de uma embaixada, mas que não a usaria mais porque as duas vezes que colocou no dedo o marido se internou. E, por fim, já aposentado como Ministro do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara – antigamente os TCE’s tinham ministros, e não conselheiros-, Café Filho morreu, acho que em 1970, por sofrer o terceiro infarto. Se não me engano, o médico particular dele era Raimundo de Brito, que foi diretor do Hospital dos Servidores.

    Pelo que está no post, em relaçao à internação de Café Filho, parece mais especulação. ilações. 

     

  7. Lott foi o fiador militar do

    Lott foi o fiador militar do Preidente JK e teve um papel crucial na historia desse periodo porque deu estabilidade a Juscelnio

    no rescaldo da crise militar que sucedeu ao suicidio de Vargas. MAS sem essa de legalista. Lott depos pela força e não pela lei um Presidente constitucional, Carlos Luz, cerando o Palacio do Catete com tanques na madurgada do dia 11 de novembro de 1955. Lott tinha RAZÕES POLITICAS para isso mas não razões legais, estava fora da lei ao depos Luz  por um golpe militar puro, TANQUES CERCANDO O PALACIO. Legalista? Claro que não.

    Acho que tinha sim razões politicas mas sem essa de legalista, que não foi.

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