Entendendo a derrota III: as redes sociais, por Durval Muniz de Albuquerque Jr.

Foto EBC

Da agência Saiba Mais

Entendendo a derrota III: as redes sociais

por Durval Muniz de Albuquerque Jr.

Não é nenhuma novidade os seres humanos formarem redes. Essa é a própria condição do ser humano. Por ser um dos seres mais frágeis e incompletos que a natureza produziu, os homens e mulheres sempre precisaram estar juntos, viver juntos, estabelecer conexões, se comunicarem, daí ter os humanos desenvolvido várias formas de linguagem e formas de comunicação. Por serem um ser desamparado, os humanos sempre precisaram formar coletividades para poderem sobreviver e enfrentar os perigos representados pelos outros animais e por outros agrupamentos humanos, para conseguirem enfrentar com sucesso os desafios colocados pelo meio e pela vida. 

O que vivemos, hoje, é uma forma particular, uma maneira nova de se comunicar, de se encontrar, de se mover coletivamente, de se expressar e de se agrupar. As chamadas comunidades virtuais vieram suprir a necessidade de estar juntos ou de, pelo menos, simular estar junto num momento, numa sociedade e numa realidade cultural onde predomina o isolamento, o individualismo, a solidão, o narcisismo, a dificuldade em estar presencialmente juntos, por diversos fatores. A emergência das novas tecnologias de comunicação, o surgimento dos vários meios de comunicação e das várias mídias vieram modificar, definitivamente, a maneira dos humanos conviverem, produzirem identidades individuais e coletivas e, por conseguinte, de se produzir como sujeitos, seja individuais, seja coletivos, o que tem um impacto direto nas maneiras de se produzir a opinião pública, de se produzir o consenso e o dissenso social, de se mediar os conflitos, no que resulta em novas maneiras de se exercer a cidadania política.

Também não se trata de nenhuma novidade o que vem se chamando de pós-verdade, ou uma verdade produzida a posteriori aos eventos, uma verdade que, muitas vezes, ignora os dados ou o que chamamos de fato, ou o que nomeamos de realidade. As verdades sempre foram fabricações sociais, culturais e humanas e, portanto, feitas depois e a despeito dos eventos e do que se nomeia de real. Não podemos confundir real com realidade. O real é aquilo que nos acontece, aquilo que se impõe a nós independente de nossas vontades, de nossos desejos, de nossas representações do mundo. O real é aquilo contra o qual eu nada posso: a tempestade, a morte, a catástrofe, o acidente, o acaso, tudo aquilo que existe independente de mim mesmo e que me acontece. É contra o real, é se defendendo da incerteza, da imprevisibilidade, da insegurança, da desordem, do caos do real, que os humanos produzem realidades, ou seja, leituras e arranjos humanos do real.

Leia também:  O capital é masculino (parte I), por Wilton Moreira

A realidade é, portanto, sempre uma leitura suplementar e a posteriori do real. A realidade é sempre a verdade ou a pós-verdade do real, produzidas pelos grupos humanos, a partir de suas situações particulares de leitura e vivência prática do mundo. Para dar racionalidade, previsibilidade, para tornar o real manejável, utilizável, vivível com maior segurança e ordem, os homens constroem estruturas sociais, instituições sociais, produzem e promulgam códigos, regras, leis, se colocam limites e proibições. A verdade humana nunca vem junto e colada às coisas, aos eventos, às práticas, ela é sempre produção para além e, muitas vezes, a despeito deles. A ciência não nos dá o mundo tal como ele é, as coisas como elas são, mas ela produz sínteses, produz uma contração conceitual e teórica da complexidade do real, para que possamos ter sobre ele o mínimo domínio e possamos nela agir. Todo ente que compõe o mundo é tão complexo, representa a coexistência de tal multiplicidade de elementos, que qualquer discurso humano, seja ele científico ou não, só pode operar através da redução, da contração, da simplificação, da esquematização, da abstração dessas entidades e acontecimentos.

Portanto, não é de hoje, nem são as redes sociais que têm a especificidade de produzirem uma realidade que é virtual. Todo saber humano sempre foi a atualização de virtualidades, de devires, de possibilidades, de probabilidades, de elementos parciais existentes nas coisas, no mundo, no real humano e social. Por isso mesmo, toda realidade humana é política e ideológica, pois é inseparável de escolhas, de seleção, de eleição, de opção, de tomada de posição, de um ponto de vista, de uma dada forma de ver e de dizer, de dadas maneiras, formas e procedimentos, de aparatos teóricos, metodológicos, técnicos e tecnológicos de produção do verdadeiro. A verdade, como toda artefacto humano, sempre foi da ordem da produção, da invenção, da criação, da expressão e não da ordem do encontro, do achamento, do desvelamento. Quando dizemos que descobrimos uma verdade seria melhor dizer que a construímos, apresentando todos os protocolos, regras e materiais com que o fizemos, como se exige de toda ciência positiva. Como dizia o epistemólogo Karl Popper, o que define a cientificidade de um saber é não apenas o seu caráter normativo, o fato de obedecer a regras e protocolos definidos por uma dada comunidade de especialistas, em dado tempo e lugar, mas sim o fato de que todo saber científico é passível de ser falseado, revisado, modificado, abandonado parcialmente, verificado como erro.

Leia também:  Bolsonaro usa redes sociais para forjar discurso de que é enviado de Deus

O problema acarretado pelos meios de comunicação, e entenda-se por isso, desde o boca a boca existente nas sociedades dominadas pela oralidade, onde eram importantes gêneros de produção do consenso e da opinião pública como o boato, a falação, a falácia, o discurso presencial, o disse me disse, a mentira, a calúnia, etc, até os modernos aplicativos de internet, é que eles emitem enunciados que se pretendem verdadeiros sem que eles estejam, necessariamente, submetidos aos códigos, procedimentos, protocolos, controles, metodologias, tecnologias de produção da verdade científica. Não é que a verdade científica não se faça a posteriori do fenômeno que estuda, embora a produção de fenômenos artificiais, em laboratório, isolados da vida normal, seja um procedimento recorrente no campo científico. Esses experimentos se propõe a induzir que a verdade se faça ou apareça, mas ela será sempre um resultado que vem ao final de seu processo de produção, ela não nasce ou não antecede ao fenômeno da qual é a verdade. Não se trata, em ciência, de descobrir uma verdade que já estava lá na coisa ou no fenômeno à espera de seu encontro, ela é sempre o resultado de ações e operações humanas, nem que sejam apenas mentais, com o uso instrumental dos conceitos.

Mesmo o filósofo Henri Bergson, que pensou ser a intuição o melhor instrumento para se chegar ao verdadeiro, pensava a intuição, não como costumamos pensar, como um encontro imediato e completo com a verdade de uma dada situação ou fenômeno. Para ele a intuição era um trabalho da inteligência, nascia da aplicação de uma vontade de saber, passava por vários estágios até chegar a conclusão iluminadora. Nos meios de comunicação e nas redes sociais verdades são proclamadas sem nenhuma verificação, sem nenhum amparo em uma pesquisa, sem que ela seja submetida à crítica dos pares, sem que se obedeça a nenhum protocolo de verificação e veridicção.

Leia também:  Novo colonialismo não explora apenas riquezas naturais, explora nossos dados

Ao contrário, o que vem se chamando equivocadamente de pós-verdade, é a enunciação do que se pretende verdadeiro, sem que ele possa ser falseado, revisado, revisto, posto à prova, verificado, submetido ao controle de um grupo de especialistas. Um indivíduo isolado e até um robô podem disparar as maiores mentiras, boatos, calúnias, fantasias, mitologias sem que possa sofrer qualquer tipo de contestação, pois são muito precárias ainda as regras e controles sobre esses meios de produção de sentidos e significados (pode-se dizer impunemente, depois de anos de pesquisa demonstrar o contrário, que a terra é plana, que os homens surgiram de Adão e Eva, que aquecimento global é uma invenção ideológica chinesa, que o nazismo era de esquerda, que o golpe de 1964 não deu origem a uma ditadura, que não houve tortura no regime militar, que não houve corrupção nos governos militares, que existe escola sem partido, que gênero é uma mera ideologia, etc, etc) .

Leia o artigo completo aqui

 

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome