Guerra e Política em Roma: anotações sobre “Ab Urbe Condita Libri”

Há dois mil anos, o livro de Tito Lívio tem inspirado estudiosos da política e da arte da guerra. O próprio Niccolo Machiavelli escreveu uma de suas principais obras sob a inspiração do mesmo. O florentino, entretanto, não apenas usou a obra do historiador romano para compor o seu Discorsi. Machiavelli também recorre à história de Florença para ilustrar suas conclusões. O objetivo desta obra é extrair lições sobre a política e a arte da guerra apenas e tão somente da própria História de Roma tal como esta foi relatada por Tito Lívio.

Desde logo alertamos o leitor que abordaremos apenas os primeiros cinco livros de “Ab Urbe Condita Libri”. O recorte é intencional e necessário dada a extensão da obra de Tito Lívio. De qualquer maneira os livros abordados contém a História de Roma desde sua fundação até a superação da crise gaulesa.  Portanto, teremos um panorama do regime monárquico, da transição para a república e da consolidação desta.

O período, que segundo o historiador romano cobre 364 anos desde a fundação da cidade, é rico em experiências políticas e  militares. Foram estas experiências que ajudaram a dar forma a Roma, preparando-a para crescer por séculos até finalmente entrar em decadência. As principais instituições da República foram criadas nestes 364 anos. Também foi neste período que o exército romano atingiu um grau de disciplina, profissionalização e maturidade sem igual na Antiguidade.

A primeira coisa importante na História de Roma é sua fundação.  Envolta em mito, a fundação da cidade eterna foi detalhadamente descrita por Tito Lívio. O  que chama mais a atenção daqueles que se interessam por política não é a saga de Rômulo e Remo, mas o fato de que a cidade se tornou uma realidade em virtude de um contrato, um contrato celebrado por um povo heterogêneo “… que só poderia ser uma nação por liames jurídicos.”

Segundo o historiador a cidade de Roma já nasceu como fruto de um contrato social. Muito embora Tito Lívio possa ter cometido um anacronismo, ou seja, atribuído á fundação de Roma a celebração de um contrato cuja concepção teórica é tardia não devemos descartar a hipótese de um precoce contratualismo especificamente romano.  Afinal, os primeiros reis da cidade (Tulo Hostílio, por exemplo) foram eleitos pelo povo.

Os historiadores estão sempre fadados a projetar no passado elementos de seu presente. Tito Lívio não fugiu a esta regra. O romano afirma que “…Romulo agradava mais ao povo do que aos senadores, e mais do que qualquer outro foi querido pelos soldados”. Muito embora tenha se baseado em autores anteriores que cita, como Fábio Pictor, o historiador nos dá uma viva impressão que descreveu o fundador de Roma a partir da história de Caio Julio Cesar, que caiu em desgraça justamente porque era amado pelos soldados e odiado pelos senadores em razão de favorecer o povo.

Uma das primeiras grandes lições de política referida no livro ocorreu no Interregno, em que os senadores “…compreenderam que era preciso oferecer espontaneamente o que iriam perder de qualquer forma.” A arte de dissimular é essencial para aqueles que pretendem governar homens. Afinal, sempre foi e sempre será preciso se manter aparentemente no controle da situação, mesmo quando a mesma fugiu ao controle. Minimizar uma vitória fazendo-a parecer uma concessão pode ser tão útil quanto transformar a derrota numa vitória aparente.

As relações entre a religião, política e a guerra nos primeiros anos de Roma não passaram despercebidas aos primeiros grandes reformadores da cidade. Para que “… a ausência de perigo externo e a paz não enfraquecessem o caráter daqueles homens até então contidos pelo medo do inimigo e pela disciplina militar…” Numa Pompílio não se fiou apenas no contrato que fundou e preservou a cidade desde o tempo de Romulo mas “…achou que o meio mais eficaz seria infundir no espírito daquela multidão ignorante e ainda rude o sentimento poderoso de termos aos deuses.”

É interessante tentar penetrar  o raciocínio de Numa. Parece que ele concluiu ou intuiu que os dois fundamentos do sucesso dos indivíduos e dos grupos sociais são o medo e a disciplina. Ao fazer suas reformas enfatizou o temor aos deuses. E temer aos deuses é uma ótima maneira de se manter alerta e diligente quando não há inimigos ou quanto os mesmos estão apenas na espreita. Mas só o medo é inútil. Para fazer frente às adversidades, principalmente se elas forem militares, é essencial a disciplina e o costume de realizar em conjunto tarefas que não podem ser realizadas individualmente. Nesse sentido, as cerimônias religiosas são um excelente substituto para a guerra, quer porque demandam ou podem demandar esforço físico, quer porque somente podem ser realizadas mediante a colaboração de toda comunidade. Além disto, parece óbvio que homens acostumados a uma severa disciplina religiosa não estranham os rigores da disciplina.

A religião, tem, ainda, a vantagem de a tornar os homens mais dóceis ou, no mínimo, mais frios. O autocontrole e a segurança que advém das práticas religiosas podem ser fundamentais em tempo de guerra. Afinal, nenhum sentimento pode ser mais danoso á glória militar que o ódio.

A história do combate entre os Horácios e os Curiácios, tal como foi narrada, parece se destinar a ilustrar o fato de que a cautela e o ardil são mais úteis à vitória do que o ímpeto de ferocidade.  Ao ver seus dois irmãos mortos, o último Horácio não se deixou dominar pela ira e pelo desejo de vingança. Caso isto ocorresse ele certamente seria vencido pelos três Curiácios. Calculadamente, o romano preferiu liquidar um a um seus oponentes.

A vitória sobre os Curiácios deu aos romanos o controle de Alba, mas  não liquidou o patriotismo dos albanos. Não demorou muito para que aquela poderosa cidade voltasse a desafiar a supremacia de Roma. Quando isto ocorreu, após ter vencido os últimos rebeldes, os romanos evacuaram cidade  vizinha e a destruíram completamente.

A aniquilação completa de Alba impossibilitou que os albanos retornassem à sua cidade e retomassem seus velhos costumes.  Absorvidos por Roma a força, obrigados a residir no monte Célio, lentamente os albanos acabaram se integrando ou se entregando à cultura romana.  Algum tempo depois os habitantes de Telena e de Ficana também seriam forçados a residir em Roma, mais precisamente no Aventino. O sucesso da romanização dos albanos e dos latinos condicionaria o futuro da cidade eterna de tal maneira a ponto de se transformar num padrão. Doravante os romanos nunca mais deixariam de impor sua cultura e sua própria cidade aos povos conquistados. A longevidade do Império Romano pode ter sido definida neste costume singular de absorver e romanizar o inimigo. Nenhuma outra cidade da Antiguidade foi tão ousada, nem tão bem sucedida.

Quando da declaração de guerra aos latinos Tito Lívio ressalta que a situação “…exigia um rei como Tulo e não como Numa”. Numa simples frase, o historiador romano nos transmite uma lição fundamental: a de que a melhor política é aquela que se ajusta ao momento. Como os momentos se sucedem, não devemos nunca nos apegar às formulas passadas, pois elas são inúteis e muitas vezes prejudiciais. A grande tarefa do governante é, portanto, analisar detida e friamente o momento para descobrir a melhor política que se lhe aplica. Mutatis mutantis, algumas vezes pode ser preciso escolher um novo governante capaz de fazer isto quando o atual não está preparado para encarar as adversidades com a necessária prudência.

O primeiro rei romano a reinar sem ter sido eleito foi Sérvio Túlio. Ele foi o responsável pela divisão da sociedade romana. Sérvio estabeleceu uma “… hierarquia que, sem parecer excluir qualquer cidadão do direito de voto, colocava todo poder nas mãos das classes elevadas.” Doravante Roma sempre estaria sujeita a um equilíbrio dinâmico entre um regime político oligárquico e uma aparente democracia. Algo bastante semelhante ao que temos hoje no Brasil. O sucesso do modelo romano e sua perenidade comprovam que uma classe abastada pode prevalecer e se manter por séculos no poder desde que conceda às classes populares privilégios aparentes, como o direito a voto, por exemplo.

Uma das personagens mais importantes para o futuro da história de Roma seria Túlia. A ambiciosa mulher de Tarquínio (que foi descrito como um jovem ardente e inquieto) instigava o marido constantemente tomar o lugar do idoso rei Sérvio Túlio. Segundo o historiador “…foi a mulher a origem de toda tragédia.” Instigado pela ambição da esposa Tarqüinio planejou executou a morte do rei para chegar ao trono. Uma de suas primeiras medidas foi eliminar todos os senadores que colaboraram com Sérvio.  

O uso da violência como recurso político, portanto, não foi um privilégio dos imperadores romanos. Tarqüínio chegou ao poder e se manteve nele através da eliminação física de seus oponentes. Contudo, seu reinado seria tão cruel que colocaria um fim no próprio regime monárquico. Este episódio demonstra que a violência por si só não é o melhor recurso para chegar ao poder e conservá-lo, a menos que seja empregada contra inimigos externos.

“Mau rei em tempo de paz Tarqüínio foi bom general em tempo de guerra.” Durante seu reinado Roma derrotou os volscos e conquistou a cidade de Suessa Pomécia. Apesar de suas crueldades contra os romanos, Tarqüinio conseguiu se manter no poder porque alimentou a sede da cidade eterna de submeter todos os povos vizinhos. Desde então, a guerra externa passaria a ser empregada como uma maneira de desviar a atenção dos romanos das deficiências de seu regime político.

Além de aliviar a pressão populacional em razão das baixas que provoca, a guerra faz com que o povo tenha mais medo dos inimigos externos do que ódio de seus próprios governantes. Muitas vezes o conflito externo previne ou evita sedições internas. Desde muito cedo os romanos parecem ter compreendido que o sucesso de uma guerra externa é um poderoso elixir para manter viva e coesa a cidade de Roma. A  vitória no campo de batalha fortalecia a solidariedade entre os concidadãos e enriquecia a cidade em razão dos despojos, dos novos territórios controlados e dos tributos cobrados dos povos submetidos.

O ardil empregado por Tarqüínio para derrotar Gábios é digno de nota. Não podendo vencer os gábios pelas armas, o rei romano enviou seu filho àquela cidade. Sexto comportou-se como se fosse um traidor e não demorou muito para chegar ao comando do exército inimigo. Quando se sentiu seguro, Sexto mandou assassinar os principais cidadãos de Gábios e a cidade caiu sob o domínio romano sem luta porque já não tinha comandantes.

É evidente a lição deste episódio para os que se interessam por política e guerra. Nunca se deve confiar ao ex-inimigo o comando do seu partido ou exército. Mesmo que tenha qualificação e aparente ser amigo o dano que ele pode provocar numa posição de comando é muito grande. O cuidado exige mantê-lo sempre numa posição subalterna e vigiado. Se o tempo provar que ele estava falando a verdade não se ganhou nem se perdeu o controle do partido ou do exército.

Após vinte e cinco anos de reinado e inúmeras barbaridades, Lúcio Tarqüínio Soberbo foi assassinado. Sua morte colocou um  ponto final ao regime monárquico.

Tal como foi relatada no livro I, a história da monarquia romana é também a história do processo de degeneração do primeiro regime político da cidade eterna. O regime monárquico conheceu o apogeu com Anco Márcio, que procurou um meio termo entre a violência de Tulo Hostílio e a diplomacia de Numa Pompílio. O regime começa a ruir com o reinado de Sérvio Tulio, que não foi eleito e se valeu de um ardil para chegar ao poder. Por fim, a monarquia se transforma em tirania nas mãos de Tarqüínio, que só se manteve no poder em razão das guerras externas que empreendeu.

Acostumado à guerra, o povo romano passaria a se governar pelo regime republicado. Este regime provaria ser em tudo superior à monarquia. Sem dúvida alguma se pode creditar à nova constituição política a superioridade de Roma sobre todas as demais cidades. O sucesso e apogeu de Roma  foi construído no período republicano.

Uma das primeiras lições do republicanismo romano é a preservação de muitos dos costumes monárquicos. Dentre eles, a preservação do rei dos sacrifícios “…para evitar que o povo começasse a sentir sua falta.” Nada é mais forte que o costume. O governante que se colocar contra ele não manterá o poder e provavelmente perderá sua própria vida. As mudanças são necessárias e desejáveis, desde que tudo fique aparentemente como era antes.

A propósito, o único grande adversário da república nascente seria o costume. Aqueles que gozavam de privilégios durante a monarquia não se conformaram com o fim do regime “…queixavam-se entre si de que a liberdade dos outros se tornara uma escravidão para eles.” . E preciso prestar atenção a estas palavras, pois elas descrevem bem a reação da elite brasileira aos sucessivos e bem sucedidos governos do PT.

A conspiração dos jovens patrícios para derrubar a república romana não teve sucesso. O episódio demonstra, entretanto, que quando são obrigados a optar entre sacrificar seus privilégios ou revoltar-se contra um novo regime, alguns homens tentarão preservar seus interesses pessoais, mesmo que para tanto tenham que recorrer a um ditador.

Derrotada a conspiração, os jovens patrícios foram executados e seus bens submetidos à “…pilhagem da plebe para que, depois de apossado de seus despojos, ela perdesse para sempre a esperança de reconciliação com os reis.” Esta é uma daquelas situações em que um privilégio aparente concedido a plebe acabou preservando-a na posição de subalterna. A república romana não aboliu o costume de o governo ser exercido pelos mais ricos e poderosos, mas apenas impediu que um dentre eles escravizasse seus iguais.

Tito Lívio não faz qualquer referência detalhada sobre as pretensões da plebe na época. Apesar disto, parece-me razoável admitir a hipótese de que ao fim da monarquia a plebe, que era mais numerosa, pode ter almejado governar a cidade ou no mínimo que os novos donos do poder temessem que a plebe viesse a ter esta pretensão. Não é preciso ser muito perspicaz para concluir que uma república só pode ser governada através de alianças. Assim, se quisesse participar do governo, a plebe sempre teria que se unir a algum partido patrício.

Os únicos que se colocaram claramente contra a revolução republicana foram os jovens patrícios. Portanto, caso os republicanos não quisessem compartilhar o governo com a plebe, ela estaria sozinha se não pudesse fazer outras alianças. E foi exatamente isto o que ocorreu. A plebe sucumbiu ao desejo de saquear os bens dos monarquistas e inviabilizou futuras alianças. A vitória dos novos donos do poder em Roma foi absolutamente completa. O poder nunca seria franqueado à plebe romana, que não tardaria a ter sua atenção desviada por uma nova guerra, desta vez contra os etruscos (que foram convencidos a confrontar Roma pelo filho do rei deposto).

Roma venceu esta nova guerra, mas o cônsul Publio Valério, que dividiu o comando das tropas e sobreviveu à batalha, acabou caindo em desgraça. Ele se tornou  “… objeto de ódio, de suspeitas e até de abomináveis acusações.” Para desfazer as suspeitas Valério decidiu transferir sua residência para o ponto mais baixo da colina  Vélia. O cônsul romano nos ensinou, assim, que para desviar as suspeitas do povo é necessário sempre acalmá-lo mais com ações do que com palavras. Um prejuízo aparente pode se transformar num provável benefício futuro.    

As relações entre a plebe e os donos da república romana eram então delicados. Quando Porsena, rei e chefe militar de Clusio, marchou sobre Roma, o senadores não “…temiam apenas o inimigo, mas também os próprios concidadãos. Receavam que a plebe romana, assustada com a ameaça, recebesse os reis na cidade mesmo com o risco de voltar à servidão. Por este motivo, os senadores naquela ocasião desdobraram-se em atenções para com a plebe.” O conflito entre as classes sociais sempre foi o veneno de qualquer sociedade. A classe que quiser preservar seu domínio nunca deve ignorar a hipótese dos pobres se aliarem aos inimigos externos. Afinal, caso encarem seus governantes como inimigos mais odiosos, os pobres sempre facilitarão a vitória dos inimigos de seus inimigos, sem pensar que depois disto podem sofrer mais do que sofriam antes.

A dupla lição que se pode extrair deste episódio é bastante útil e atual. Sob guerra externa a classe dominante deve cortejar seu próprio povo, caso contrário o inimigo pode se apoiar nele. Cortejar o povo governado pelo inimigo não deixa de ser uma maneira de obter uma vitória mais rápida e completa sobre o mesmo.

Dividir os inimigos para conquistá-los, unir a sociedade para defender a preservação do próprio domínio. Estas são duas lições romanas que precisam ser aprendidas por qualquer um que se ocupe da política ou da guerra.

A paciência diante de um infortúnio sempre foi essencial. Rapidamente os romanos aprenderam esta lição. Quando Roma foi cercada pelos etruscos, Públio Valério “… aguardava ocasião para investir contra os inimigos quando estivessem dispersos em grupos. Ficava indiferente às pilhagens pouco importantes, reservando-se para implacável vingança em circunstâncias mais graves.” Ceder ao inimigo algumas vitórias pequenas enquanto sua derrota definitiva é cuidadosamente planejada para ocasião mais propícia é uma lição fundamental que precisa ser aprendida por qualquer general ou homem público. Se quiserem preservar o poder os petistas meditarão bastante sobre isto neste momento em que José Dirceu e José Genuíno foram presos.

Ao relatar a façanha de Caio Mucio Cévola, Tito Lívio faz seu personagem afirmar que  “É  virtude romana agir e sofrer.” Apesar de culturalmente limitada, a valorização da ação tem suas vantagens políticas e militares. Ao assumir riscos os romanos colhiam os louros da vitória e quando eram derrotados consideravam seus infortúnios transitórios. A propósito, nunca é demais lembrar que a reflexão não fez dos gregos senhores do Mundo Antigo. Muito pelo contrário, a reflexão os transformou em servos do Império romano.  

Tito Lívio maneja a escrita com bastante consciência. Não é a toa, por exemplo, que desdenha a bravura do soldado Horácio Cocles, considerando-a “…mais digna de admiração do que de crédito.” Todavia, ao relatar a coragem do jovem patrício Múcio Cevola afirma que assombrado com “…aquela extraordinária coragem…” o rei inimigo se recusa a sacrificar o jovem que se mantém altivo até o derradeiro instante. O historiador reproduz o discurso de Horácio Cocles em três linhas, já os de Múcio Cévola ocupam nada menos que 22 linhas. A distinção do tratamento dispensado aos dois personagens dá a entender que o autor julgou perigoso fornecer aos plebeus um modelo de heroísmo plebeu digno de louvor. Já a detalhada descrição de um indiscutível feito heróico de um jovem patrício não colocaria em risco a ordem, mas reforçaria a estrutura da sociedade romana que ele desejava preservar.

Quando uma nova guerra com os sabinos foi decidida, Ato Clauso, que passaria a se chamar Ápio Claudio, desertou de Regilo para se estabelecer em Roma junto com vários seguidores. Eles receberam a cidadania romana. A exemplo do que ocorreu no caso de outros povos, Roma estava sempre de portas abertas para receber os povos vencidos ou dissidentes dos inimigos. Os alicerces da cidade eterna foram construídos sobre duas bases sólidas: tolerância para com os vencidos e desertores; aniquilação dos inimigos e de suas cidades.

Casos existiram, entretanto, em que os romanos não foram tolerantes. Ao privilegiar a ação Roma não estava rigorosamente comprometida com um padrão de conduta, pois apesar “… da capitulação, os auruncos não sofreram menos do que se a cidade tivesse sido capturada. Os mais ilustres cidadãos foram decapitados, os demais habitantes da colônia vendidos sob coroa, a cidade arrasada e as terras vendidas.” Este é um típico caso de punição exemplar. As vezes o excesso de rigor contra um inimigo derrotado pode ser necessário para assustar outros que estão incólumes ou não podem ser atacados.

A chave do sucesso de Roma foi a disciplina militar. Vários são os exemplos de que a mesma era alcançada através de uma justiça implacável. Os comandantes mais respeitados foram aqueles que premiaram os soldados diligentes e, principalmente, infundiram nos seus comandados a certeza de que eles seriam rigorosamente punidos caso não cumprissem suas obrigações. Há pelo menos um exemplo claro de que os próprios romanos foram considerados e tratados como inimigos ao refugarem o combate. Ao presenciar o recuo de suas tropas “… o ditador Postúmio deu ordem à tropa de escol, encarregada de sua proteção, para que tratasse como inimigo qualquer soldado que tentasse desertar. Colocados entre duas ameaças, os soldados romanos desistiram de fugir, reorganizaram as fileiras e voltaram ao ataque.”

Roma tratou a guerra como um negócio e raramente seus governantes deixaram os rancores pretéritos impedirem a celebração de novas alianças. Os romanos foram capazes de cuidar dos próprios interesses, mesmo que para sito tivessem que transformar inimigos em aliados e aliados em inimigos mortais.  

Quando a sociedade fica claramente dividida e não há meio de conciliar as divergências o governante deve tomar um partido. Caso não o faça acabará sendo odiado por todos. Foi o que ocorreu com o cônsul Ápio, que “…optando pela neutralidade, nem evitou o ódio da plebe, nem conquistou as boas graças do Senado. Os senadores o consideravam fraco e ambicioso, e a plebe, um mentiroso.” Entre nós, à indecisão de João Goulart muitos atribuem seu destino.

Administrar as tensões na cidade de Roma não era uma tarefa fácil, principalmente nos momentos em que a plebe se revoltava e dava sinais claros de que pretendia controlar o processo político. Conscientes da importância da preservação de seus próprios privilégios os patrícios nunca deixaram de exercer um severo controle sobre a plebe, inclusive por meio da delação quando necessário.  

Quando enfrentavam uma revolta da plebe e se sentiram ameaçados pelos volscos, équos e sabinos os senadores resolveram eleger um ditador, mas tiveram o cuidado “…de confiar esse poder, coercitivo por sua própria natureza, a um homem de índole pacífica.” A eleição de Mânlio Valério para o cargo de ditador naquela ocasião prova satisfatoriamente o cuidado dos patrícios em preservar a coesão social mediante a tolerância para com a plebe rebelada. Caso tivessem eleito um homem intolerante, que quisesse forçar os plebeus à submissão completa pela força eles poderiam servir aos interesses dos inimigos externos e colocar um ponto final no equilíbrio instável que mantinha a cidade e os privilégios da classe dominante.

Durante a guerra contra os volscos comandada por Mânlio Valério, os romanos, que estavam em menor número, organizaram sua linha de batalha distante dos inimigos e mantiveram sua posição mesmo diante da provocação e do ataque inimigo. Tomados de cólera e certos da vitória, os volscos se precipitaram sobre os romanos,  mas após “… a correria da investida, não lhes restavam forças sequer para a fuga.” Descansados, os romanos facilmente venceram um inimigo fatigado. É notável a disciplina e o autocontrole dos romanos neste episódio. Mesmo inferiorizados em número, souberam tirar proveito da posição escolhida no campo de batalha e da precipitação dos inimigos.

Ao narrar o episódio da retirada da plebe para o Monte Sacro, Tito Lívio afirma que Roma ficou dominada pelo terror e enviou Menênio Agripa, “…varão eloqüente e estimado pelo povo por suas origens…” para tentar convencer a plebe a retornar a Roma. O historiador frisa que “…diz-se que ele se limitou a narrar na linguagem rude da época o seguinte apólogo…” acerca da revolta dos membros contra o estomago, fazendo-os compreender que patrícios e plebeus dependiam uns dos outros.

É óbvio que Tito Lívio atenuou a solução do conflito, que se recusou a narrar em detalhes quais teriam sido as concessões feitas aos revoltosos. Tanto isto é verdade que nem mesmo ele parece considerar verdadeira a versão de que a plebe cedeu em razão do apólogo, que “diz-se” ter sido narrado. Assim, tudo indica que foi o Senado que cedeu algo desejado pela plebe, algo que os patrícios não estavam em condições de recusar diante da determinação dos revoltosos.

No capítulo seguinte, Tito Lívio relata a criação do tribunato da plebe que teria ocorrido depois que Menênio Agripa fez os revoltosos mudarem de opinião. Afirma o historiador que tratou-se “…dos meios de reconciliação com a plebe e através de concessões decidiu-se…” Tal como foi narrada, fica parecendo que a criação do tribunato foi uma liberalidade do Senado após a plebe retornar a Roma e não fruto das negociações ocorridas no Monte Sacro durante a revolta.

A cuidadosa narrativa deste episódio dá a entender que Tito Lívio optou por não transformá-lo num exemplo para os leitores, principalmente se eles fossem plebeus. A dinâmica da aparência/essência, que sempre dominou a cena política de uma Roma dividida entre patrícios e plebeus, acabou sendo transportada para a narrativa histórica.

Nunca saberemos o que realmente ocorreu no Monte Sacro. Contudo, a criação do tribunato da plebe é um dos momentos mais importantes da história da república romana. A magistratura inviolável, que somente podia ser ocupada por plebeus e tinha caráter sacrossanto, conferia ao tribuno o poder de interceder contra os cônsules e todos os outros magistrados, com exceção do ditador eventualmente nomeado, ajudaria a equilibrar as disputas entre patrícios e plebeus.

A absorção da divisão social no interior da própria administração da cidade criou um sistema de freios e contrapesos que certamente interessava aos patrícios. Afinal, seus privilégios correriam menos riscos quanto mais os interesses dos plebeus estivessem aparentemente satisfeitos.

Na prática, entretanto, o próprio tribunato da plebe acabou se transformando num elemento a mais no jogo político de aparência/essência, pois não poucos foram os tribunos cooptados pelos patrícios. Foi o que ocorreu, por exemplo quando da aliança entre os veienses e estrucos. Na oportunidade, empregando “…os antigos cônsules de sua influência pessoal conseguiram, uns por reconhecimento, outros pela consideração de que gozavam junto a eles, que os tribunos pusessem sua autoridade a serviço da república.” Entretanto, os patrícios nem sempre foram tão benevolentes, pois os tribunos menos maleáveis à persuasão foram simplesmente executados. Foi o que ocorreu no caso de Cneu Genúcio, eliminado por estimular os plebeus a exigirem uma reforma agrária.

Este episódio é importante, pois nos ajuda a compreender o que ocorreu no Brasil recentemente. Antonio Palocci Filho, José Dirceu e José Genuíno, todos filiados ao PT e que ocuparam postos chaves nos governos deste partido, por motivos distintos foram acusados de serem corruptos. O primeiro está em liberdade, os dois outros acabaram sendo presos. Palocci foi cortejado financeiramente pela elite a quem serviu bem quando foi Ministro. José Dirceu e José Genuíno tiveram mesmo destino que Cneu Genúcio porque não eram tão tolerantes?

Ao narrar a atuação das matronas no episódio de Coriolano, o historiador dá a entender que foram as mulheres que decidiram convencer a mãe e a esposa de Coriolano a impedi-lo de atacar a cidade. A posição adotada por Lívio é curiosa e possivelmente retórica.

Roma era uma sociedade rigorosamente patriarcal. As mulheres estavam sob a pátria potestas  do marido ou do pai. O poder conferido ao chefe de família era de vida e de morte sobre seus filhos, irmãos, mulher, agregados e escravos. Salvo raras exceções, as romanas não podiam gerir suas vidas e patrimônio. Elas não tinham acesso aos cargos públicos, nem votavam nas assembléias. Portanto, a dúvida relatada pelo historiador contradiz a própria estrutura da sociedade romana. Nesse sentido, não podemos descartar a hipótese de que Tito Lívio usou de um expediente  inteligente e elegante para disfarçar a covarde iniciativa dos senadores, que antevendo a derrota imploraram às suas esposas que convencessem Vetúria e Volúmnia.

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A cidade de Roma sempre foi instável. Muitas vezes a unidade política foi conseguida mediante o início de uma guerra externa. A guerra desviava a atenção dos plebeus de suas próprias reivindicações e permitia aos patrícios exercerem seu poder de mando com mais tranqüilidade. Foi o que ocorreu durante a nova campanha contra os équos e volscos pois a “…crescente exaltação da plebe levou as perturbações internas a serem causa de uma guerra no exterior, e por sua vez esta concorreu para fazer cessar as discórdias civis”. É interessante notar um certo padrão narrativo. Em nenhum momento Tito Lívio admite que as discórdias civis foram provocadas pela ganância dos patrícios ou por abusos cometidos pelos senadores. Ao considerar a plebe como fonte de todas perturbações sociais de Roma a narrativa privilegia os interesses dos patrícios ou dos plebeus?

Mas a escrita histórica de Tito Lívio não é só política e politizada. Algumas vezes ela chega a ser literária, como quando o romano faz o elogio dos três Fábios ao narrar o combate contra os veienses e os etruscos.

No calor da batalha, os soldados romanos começaram a recuar em razão da morte do consul Quinto Fábio, colhido no instante em que “…avançava contra a cerrada fileira dos veienses, quando um soldado etrusco, temível por sua força e sua destreza nas armas, surpreendeu-o…” Naquele momento crítico o exército teria sido convencido a sustentar sua posição por discursos de Marco Fábio e Ceso Fábio.

É evidente que no calor da batalha não há nem tempo, nem condições para a realização de discursos. Menos tempo há, ainda, para o registro exato do teor de um discurso eventualmente feito. Assim, devemos admitir a hipótese de que Tito Lívio ornamentou a façanha dos três Fábios de maneira a transformá-la num belo exemplo para seus contemporâneos.

O heroísmo de Quinto Fábio e o desempenho do exército romano, porém, são comprometidos através da narrativa. Os soldados teriam recuado ao presenciar a morte do cônsul. Após seus discursos os Fábios sobreviventes “…avançaram para a linha de frente, de lança em riste, arrastando com eles todo exército.”  Contudo, na ala comandada pelo cônsul Cneu Mânlio, “…as operações se desenrolavam em condições de instabilidade quase idênticas.” Como o pânico tomou conta das duas alas do exército romano, somos obrigados a admitir duas hipótese igualmente perturbadoras: a) foi temerária a tentativa de Quinto Fábio de obter glória pessoal ao derrotar um poderoso inimigo, na qualidade de cônsul ele não deveria colocar em risco todo exército e, portanto, ela não agiu como um herói; b) a causa do pânico nas duas alas do exército romano pode não ter sido somente a morte de Quinto Fábio mas uma superioridade bélica do inimigo que Tito Lívio se recusa a admitir. De qualquer maneira somos obrigados a reconhecer que neste fragmento retórica e história se unem sob a pena do historiador para dar origem a um clássico da literatura antiga.

O episódio dos 306 Fábios , que marcharam sozinhos contra os veienses e foram massacrados após algumas vitórias insignificantes, ensinou aos romanos várias lições. Dentre estas as principais foram que a cidade não podia ser defendida com êxito apenas por uma família, que é inútil suplicar aos deuses por sucesso ao iniciar uma empresa militar temerária e, principalmente, que o inimigo derrotado em escaramuças nunca deve ser menosprezado no campo de batalha. Após alguns sucessos os 306 Fábios “… chegaram ao ponto de desprezar o inimigo, considerando-o, em qualquer circunstância, incapaz de sustentar os ataques de suas armas…”, acabaram sendo todos mortos inutilmente.

Naquela oportunidade Roma quase foi sitiada pelos veienses. Os inimigos já tinham atravessado o Tibre quando foram derrotados pelo cônsul Horácio próximo às muralhas da cidade. Se as tropas comandadas por Horácio, que combatiam os volcos, não retornassem em auxílio de seus compatriotas a cidade eterna poderia ter sido invadida e submetida a saque. Por mais que as façanhas dos cônsules romanos e de seus exércitos sejam exaltados por Tito Lívio, podemos deduzir da narrativa que a superioridade de Roma sobre seus vizinhos não era nem absoluta nem permanente naquele momento. Ao declarar guerra a dois de seus vizinhos (veienses e volscos) os romanos colocaram em risco a existência de sua cidade. Colheram os louros da vitória, mas poderiam ter sido aniquilados.

A propósito, nesta mesma guerra uma onda de fome foi provocada em razão de alguns comerciantes estocarem seus produtos para forçar uma alta artificial dos preços dos gêneros alimentícios.  A situação foi normalizada com a importação de trigo da Campânia (região próxima a Roma). O historiador esclarece que a situação se normalizou porque “…depois de afugentado o temor da fome, (os comerciantes) expuseram à venda o produto que antes sonegavam.” Apesar dos patrícios terem se aproveitado da guerra para provocar desabastecimento e carestia dos gêneros alimentícios, Tito Lívio acusa os tribunos de voltarem “… agitar a plebe com seu habitual veneno…”. É evidente que o historiador novamente toma partido dos patrícios, que sem dúvida alguma contribuíram para a agitação em razão de sua ganância desenfreada.

Derrotados pelos romanos, volscos e équos se voltaram contra os latinos, que então eram aliados de Roma. Os latinos estavam conseguindo vencer seus inimigos sem a ajuda romana, mesmo assim “…Roma enviou o cônsul Caio Náucio para combater os Volscos, por não julgar conveniente, creio eu, que os aliados se habituassem a guerrear com suas próprias forças e a agir de acordo com seus próprios planos…”. No contexto da narrativa, o vocábulo ‘aliado’ só pode ser entendido como um sinônimo de ‘submetido’.

Duas hipóteses podem ser formuladas para a escolha feita por Tito Lívio: a) o historiador projetou no passado o domínio que Roma exercia em sua própria época sobre os latinos; b) já durante o princípio da república Roma demonstrava sua vocação imperial tratando os latinos como subalternos. De qualquer forma, a lição do episódio é interessante e pode ser aplicada tanto à política quanto à guerra. O aliado que consegue vencer sozinho um inimigo comum certamente ficará tentado a enfrentá-lo num futuro bem próximo, por isto é melhor comandá-lo ou no mínimo ajudá-lo para recolher parte da glória e dos despojos.  

A morte do tribuno Cneu Genúcio intimidou os tribunos e excitou sobremaneira a plebe, que se sentiu desprotegida em razão do assassinato e da covardia de seus representantes. Liderados por Volero Publicío, os plebeus colocaram em cheque a autoridade dos cônsules e o poder de seus carregadores. Indignados os cônsules convocaram o Senado, que deliberou “…venceram os senadores mais antigos que julgaram inconveniente por em choque a cólera dos patrícios contra a temeridade da plebe.”

Pouco tempo depois o próprio Volero foi eleito tribuno e apresentou um projeto determinando que “… os magistrados da plebe seriam eleitos em comícios por tribos.” Esse projeto foi considerado perigoso pelos patrícios pois impediria que eles elegessem “…os tribunos de sua escolha através do sufrágio de seus clientes.” A reação dos patrícios foi imediata. Cientes de que a disputa “… seria acirrada, elegeram cônsul Ápio Claudio, filho de Ápio, já odioso e hostil à plebe pelas atitudes do pai…”. Ao final de uma disputa que quase degenerou em guerra civil, a lei proposta por Volerou foi aprovada e o Senado resignou.

Este episódio é bastante instrutivo. A dinâmica de uma sociedade dividida exige sempre a atenção constante e, às vezes, a mudança de estratégia. Pressionados pela reação da plebe, os senadores ignoraram as ofensas feitas aos cônsules. Na qualidade de patrícios, sentindo-se pressionados pelo projeto de lei do tribuno, elegeram cônsul um inimigo declarado da plebe e sustentaram sua posição até o último momento. Quando ficou claro que as opções seriam a aprovação do novo sistema de eleição dos tribunos da plebe ou a guerra civil, resignaram uma vez mais. A tese subjacente aos fatos pode ser enunciada da seguinte maneira: o contrato que institui a sociedade e permite seu funcionamento pode e deve ser renovado constantemente, porque seu rompimento violento é possível e indesejável.

É interessante notar que ao fim deste episódio, de passagem, o historiador critica os senadores. Sua fraqueza teria acarretado a aprovação de “…leis mais perigosas do que as outrora aceitas no monte Sacro.” Este fragmento confirma a suspeita anteriormente levantada de que a narrativa que Menênio Agripa teria feita no Monte Sacro é inteiramente fantasiosa.

Mais adiante, o historiador afirma que  Ápio odiava a plebe porque ele “…o único cônsul eleito para fazer oposição ao poder tribunício, ter sido obrigado a votar uma lei que os cônsules anteriores, nos quais os patrícios não depositavam tantas esperanças, haviam conseguido impedir com muito menos esforço.”.   Tito Lívio não fez qualquer referência as rejeições anteriores da proposta sustentada com êxito por Volero Publício. Portanto, o historiador ignorou as rejeições anteriores da lei considerando-as irrelevantes, apesar da proposta ser relevante para a plebe a ponto de ser sustentada até sua aprovação. A omissão de Tito Lívio é evidente e, de certa maneira, admitida na sua obra. Uma vez mais estamos diante de um exemplo típico de recorte ideológico da história. Quando  o passado pode interferir no presente, o trabalho narrativo do historiador cessa e o político começa a selecionar os fatos que mais convém à imagem que ele quer criar do mundo.

Ápio Cládio comandou parte do exército em uma nova campanha contra os volscos. Em razão de ser excessivamente  autoritário os soldados, que já tinham razões para odiá-lo em razão do que havia ocorrido, se rebelaram e foram derrotados porque desejavam a derrota. A imprudência da eleição do Ápio para um novo comando é evidente. Mesmo assim, o historiador se limitou a narrar os fatos sem manifestar qualquer opinião. Esta derrota romana nos ensina que não existe nada pior do que manter no comando um homem impopular e excessivamente rigoroso. A confiança, fidelidade e dedicação dos soldados não são obtidas apelas pela brutalidade, mas através da disciplina e da justiça.  Um comandante odiado e previamente considerado injusto não está em condições de comandar um exército. Portanto, não deve ser nomeado para o posto de comando. Se isto ocorrer ele deve resignar, se não tiver o bom senso de recusar a nomeação deve ser afastado do cargo, pois de outra  maneira o exército será colocado em risco.  

Dividida pela discussão da lei agrária, Roma seria obrigada novamente a enfrentar équo, volscos e sabinos. O perigo deteve uma nova sedição da plebe. O padrão é digno de nota. Os plebeus estavam sempre dispostos a se rebelar na paz e prontos para defender a cidade na guerra. Isto prova suficientemente que temiam mais os inimigos externos do que os internos. Nesta nova campanha os romanos tiveram sucesso porque “…julgando-se vencedores acabaram realmente por vencer.” O estado de ânimo indica claramente que aproximadamente dois anos após a morte de Ápio as tropas romanas recuperaram sua disciplina e fervor sob o comando de novos cônsules.
 
Antes de uma das batalhas, enquanto “…o cônsul hesitava, confiante no valor dos soldados mas receoso da posição desvantajosa em que se encontravam, ouviu-se o brado ‘avante’ saído de todas as bocas, e ao brado seguiu-se a ação.” A vitória brindou os romanos. A hesitação do cônsul pode ter sido calculada. Mesmo que não o tenha sido, certamente foi a chave do sucesso romano nesta batalha. É evidente o comandante não pode aguardar seus soldados decidirem atacar em todas as oportunidades. Entretanto, o episódio sugere que quando se está em desvantagem as probabilidades de sucesso aumentam se a própria tropa decidir atacar.

Ao fim desta guerra contra os volscos, os romanos conquistaram uma cidade que  “…sua proximidade e posição vantajosa de cidade marítima, Âncio poderia ser transformada em colônia. Assim, sem as querelas dos proprietários, a plebe iria para o campo e a cidade teria paz.” Já vimos que a guerra externa passou a fazer parte da política interna dos patrícios, pois conferia à dividida cidade de Roma alguma estabilidade. Doravante, o estabelecimento de colônias  territórios conquistados se tornaria um elemento importante no ciclo de preservação e crescimento da república.

A divisão da cidade entre patrícios e plebeus se tornaria o fundamento de uma sociedade preservada pela realização de campanhas militares que desviavam a atenção dos plebeus dos problemas internos, permitiam aos patrícios exercer seu poder sem muito questionamento e aliviavam a pressão populacional com suas baixas e pelo estabelecimento de colônias nos territórios conquistados. A romanização dos povos conquistados completaria o ciclo, pois criava oportunidades econômicas que proporcionavam uma transferência de riquezas para Roma à medida que os patrícios realizavam as obras públicas que definiam e corporificavam a civilização romana: fórum, templos, casas de banho, teatros e, principalmente, arenas onde os combates de gladiadores eram realizados e os feitos de Roma poderiam ser encenados para os povos dominados. Este padrão acabaria se tornando tão rígido, que mesmo após a o final da república seria mantido.

Mas no princípio, o estabelecimento de colônias não foi aceita pela plebe “…que preferia exigir terras em Roma a recebê-las em qualquer outra parte.” Assim, os cônsules decidiram realizar uma nova campanha contra os équos. Quando não conseguiam dobrar a plebe pelo discurso, os patrícios sempre decidiam começar uma guerra externa.  Com esta nova campanha os patrícios podem ter tentado convencer os plebeus que somente podiam escolher entre morrer na guerra, ver seus filhos mortos em combate ou aceitarem se transformar em colonos longe de Roma. As lições deste episódio são ilustrativas. Para preservar o comando é preciso assumir riscos e obrigar os comandados a escolher entre duas opções igualmente terríveis. Numa sociedade divida, a única forma da classe dominada quebrar o circulo vicioso da dominação é assumir o risco de não escolher entre opções que lhe são impostas e se manter fiel à sua própria proposta, ainda que isto custe uma guerra civil.

Em suas campanhas militares os romanos sempre construíam acampamentos fortificados. Ultimo refúgio do exército, o acampamento poderia ser facilmente cercado. Por isto toda fortificação militar romana tinha duas portas. Assim, o inimigo seria sempre obrigado a dividir suas tropas para poder bloquear as duas rotas de fuga. Caso o inimigo não tivesse pelo menos duas vezes mais soldados, os romanos podiam sair por uma das portas e derrotar a guarnição inimiga antes que a mesma pudesse ser reforçada pelos soldados que vigiavam a porta do outro lado do acampamento.

Muito embora os exércitos modernos sejam mais numerosos e toda ação militar dependa da movimentação de equipamentos como tanques, peças de artilharia, lançadores de mísseis móveis, etc… a técnica romana de fortificação pode ser empregada em escala geográfica por um exército obrigado a se defender de um inimigo externo mais poderoso e menos numeroso. As tropas menos importantes podem ser dispostas em quadrado como se fossem as estacas do acampamento. Inferiorizado numericamente, o inimigo não poderia se dispersar para realizar o cerco nem atacar sem sujeitar-se a manobras de envolvimento.

No ponto em que o ataque se concentrar, as primeiras linhas de defesa podem conter seu ímpeto até serem reforçadas pelas tropas que ficarem no centro do quadrado cuja retaguarda será garantida pelas guarnições nas laterais do mesmo. O recuo da linha externa atacada e a concentração de tropas do centro nas laterais do quadrado combinadas com manobras de envolvimento podem acarretar o cerco do atacante. As tropas das laterais do quadrado que não forem atacadas podem, por sua vez, ser  empregadas como reserva ou como último recurso para preservar uma rota de fuga. A coordenação do movimento de todas as unidades envolvidas é perfeitamente possível e pode ser feita em tempo real com a utilização de equipamentos modernos de comunicação.

Quando da discussão da lei Terentília, que os  patrícios consideravam ferir seus interesses, vários prodígios são relatados e os “…duúnviros encarregados das coisas sagradas…” aconselharam ao povo evitar revoluções. É bem possível que os boatos referentes a estes prodígios tenham sido espalhados pelos patrícios interessados na rejeição da lei discutida pelos tribunos da plebe. Tito Lívio, sempre pronto a criticar os prodígios que eventualmente relata como sendo fruto da ignorância do povo, não levanta esta hipótese.

Afirma, entretanto, que os tribunos “…insinuaram tratar-se de um golpe para impedira  promulgação da lei…”. Segue-se uma nova guerra externa “…repetia-se o circulo vicioso dos anos anteriores.” Mas desta vez os tribunos alegaram que a guerra era uma farsa, que a mesma  “…era dirigida contra a plebe romana, contra  a plebe que ao peso das armas seria enviada  para longe de Roma, em marchas forçadas, para que os senadores se vingassem dos tribunos com o exílio e o desterro dos cidadãos.”

Este fragmento da historia romana dá o que pensar. Afinal, se na paz o poder tribunício poderia ser empregado para limitar os poderes dos cônsules e dos senadores, ou seja, dos patrícios, a guerra afastava a plebe da cidade colocando-a sob o comando dos cônsules. Com a cidade vazia, o poder dos tribunos praticamente deixava de existir e os senadores recuperavam o controle absoluto da cidade. Assim, com alguma segurança, pode-se concluir que a instituição do tribunato da plebe pode ter ajudado a definir a estratégia política empregada pelos patrícios para pacificar e controlar a cidade. Nesse sentido, não pode se descartar a hipótese de  que algumas das guerras externas posteriores ao episódio do Monte Sacro tenham sido previamente ajustadas entre os patrícios e os comandantes dos équos e volscos.

Quando da sublevação dos escravos, a “… tarefa confiada pelos velhos patrícios à juventude era suprimir da república o poder tribunício…”. Como temiam a união entre os plebeus e os escravos resolveram “…distribuir armas, mas não a todos cidadãos…”  O cuidado de manter a plebe desarmada durante a revolta dos escravos provou ser útil aos interesses dos patrícios. Em Lúcio Qüincio Cincinato, os patrícios encontraram um líder ao mesmo tempo enérgico e determinado. “Desde o início de sua magistratura, o cônsul de sua tribuna usava constantemente da palavra, e com igual veemência combatia e plebe e admoestava o senado.”

Colocando-se deliberadamente ao lado dos mais extremados Lúcio Qüincio tentou impedir a realização de eleições consulares e se tornar ditador. Assim, obrigou a plebe e aos tribunos a fazerem um acordo com o Senado que impediu a prorrogação dos mandatos dos tribunos, afastou a ditadura e negou a  Qüincio o direito de se eleger cônsul novamente.  A liderança de Lúcio Qüincio não foi duradoura, suas propostas não foram aprovadas e mesmo assim os patrícios retomaram o controle da cidade. Nos momentos de crise aguda o contrato social deve ser revisto para ser mantido, ainda que ao custo da destruição de um membro da elite. A capitulação dos tribunos da plebe no episódio é evidente. É bem provável que eles tenham cuidado mais de seus próprios interesses do que dos interesses da plebe. A revolução coloca em cheque o poder das lideranças da classe dominada e, portanto, só pode ser feita por quem não tem nada a perder.

O episódio é importante. Ele nos ensina que numa sociedade tão dividida quanto a romana, a classe dominante só pode se manter no controle se privar a classe dominada dos meios necessários a um levante.  Portanto, se a classe dominada estiver realmente determinada a destruir seu julgo só poderá  ter sucesso se prover-se dos meios necessários.

O exemplo romano tem sido seguido ao longo dos séculos. Sempre que os conflitos sociais se tornam acirrados a classe dominante apela para as polícias e exército para conter a população. Desarmada e destreinada a população não tem condições de dominar o processo político pela força.

A chave do sucesso em qualquer empreendimento desta envergadura é o controle militar do processo político. Quem não o detém pode obtê-lo com a divisão do exército e da polícia (como ocorreu durante a Revolução Russa), a criação de um exército próprio que adote táticas de guerrilha (como no caso da Revolução Chinesa) ou a derrota do exército regular por uma milícia organizada, armada e comandada como se fosse um verdadeiro exército (Revolta Árabe liderada por T. E. Lawrence). Por mais inflamados que sejam os discursos nunca provocam revoluções duradouras. Canhões, sem dúvida alguma tem uma chance de produzir este efeito.

Ao fim da nova campanha contra os équo e volscos comandada por Quinto Fábio Vibulano e Lúcio Cornélio Maluginense, o exército romano foi “…mantido fora da cidade…” . Indignados os tribunos da plebe denunciaram a manobra que impedia a aprovação da lei e tomaram medidas que foram suspensas pelo prefeito de Roma. Por mais que seja evidente o artifício dos cônsules, ou seja, dos patrícios, Tito Lívio o narra com o cuidado de não admitir a manobra. Isto é feito atribuindo-se aos tribunos a denuncia de que um artifício havia sido empregado. Desta forma fica parecendo que a verdade (a manutenção dos exércitos fora da cidade) não foi uma decisão deliberada para atingir um propósito específico. Todavia, como o exército era composto de plebeus, se eles estivessem fora da cidade não poderiam votar.

Mas Tito Livio não faz uma distinção clara entre patrícios e plebeus ao narrar os fatos em benefício dos primeiros. Ele também dá uma conotação diferente aos mesmos atos segundo eles tenham sido praticados pelos romanos ou por seus inimigos.

Já vimos que os objetivos das campanhas romanas eram a aquisição de território e direito de tributação de povos conquistados. A obtenção de despojos também era importante. Os bens pessoais dos inimigos conquistados na guerra enriqueciam a cidade e ajudavam a custear a manutenção das legiões romanas. Apesar disto,  em nenhum momento Tito Lívio admite que seus compatriotas saiam de suas guerras “…carregados de despojos, como um bando de saqueadores…” ou que era costume de Roma “…repartir os despojos apreendidos, como se a pirataria fosse oficial.”. Estas expressões, claramente depreciativas, são impostas aos équos quando eles devastaram os territórios de Labico e Tusculo que pertenciam a Roma e, depois, quando foram combatidos por Camilo.

Ao ler e reler os textos de Tito Lívio fiquei convencido de que é quase impossível à narrativa histórica não ser contaminada pelos preconceitos do historiador. A imparcialidade é algo quase inatingível para aquele que pretenda narrar os feitos memoráveis de sua própria civilização. Além de ser uma presa fácil dos preconceitos do narrador antigo o leitor moderno pode ser, ainda, um prisioneiro de seus próprios preconceitos. Os cristãos, por exemplo, sempre considerarão Nero um imperador especialmente brutal em razão de ele ter determinado a prisão e execução de líderes cristãos. Eles nunca aceitarão o argumento de que na qualidade de líder político e religioso do império Nero não poderia deixar de combater o cristianismo como uma heresia.

O uso de conhecimentos lingüísticos ajuda-nos a penetrar sentidos não expressos nos textos antigos. A preocupação com a semântica também é indispensável à leitura destas obras. Se retirarmos os adjetivos do texto e meditarmos somente sobre os fatos expressa e implicitamente narrados perceberemos que a história tal como foi contada quase sempre mascara uma outra história, que precisa ser despojada dos artifícios da linguagem empregada.  

Após os saques realizados pelos équos os sabinos também invadiram o território romano. Quando isto ocorreu a “…plebe voluntariamente pegou em armas, apesar dos protestos dos tribunos…” Um dos cônsules e seu exército foram cercados e a cidade entrou em pânico. Para fazer frente a crise os romanos resolveram nomear um ditador e o “…cônsul Náucio foi chamado, mas como não o julgassem suficientemente capaz, resolveram nomear um ditador para restabelecer a situação, e Lúcio Qüincio Cincinato foi escolhido por unanimidade.”  Pouco tempo antes de Lúcio Qüincio ser eleito ditador os tribunos haviam feito um acordo com o Senado para afastar a ditadura e impedi-lo de se candidatar novamente ao cargo de cônsul.

Não é demais lembrar que, ao contrário dos ditadores modernos que se mantém à força no poder por décadas, o ditador romano somente era eleito em caso de grave risco para a república. Além de eletivo, o cargo de ditador tinha prazo determinado. No caso específico de Qüincio ele “…abdicou à ditadura que recebera por seus meses.”

É interessante notar que no princípio da república, Roma não tinha um exército regular. Todos os cidadãos em idade de prestar serviço militar podiam ser convocados para campanhas militares. Ao contrário de algumas cidades gregas, em que apenas as pessoas ricas podiam se armar e participar da guerra, a plebe romana defendia a cidade contra os inimigos externos. Os patrícios comandavam as operações e custeavam as despesas com o armamento de seus clientes.

Ao fim da ditadura de Lúcio Qüincio a paz externa foi restabelecida, de maneira que a plebe voltou à carga. Nova campanha foi deflagrada contra os équos que haviam atacado Córbio. Nesta Horácio “…destruiu Córbio por ter traído a guarnição romana”. À medida que crescia e adquiria novos territórios os romanos passaram a ter os mesmos problemas que todos os impérios. Para manter suas conquistas Roma era obrigada a manter guarnições nas cidades submetidas. O desejo de liberdade aliado ao ódio aos opressores fomentava traição, obrigando os romanos a punir de maneira exemplar os povos submetidos em caso de aliança com o inimigo externo.

Após a batalha de Algido, patrícios e plebeus fizeram um acordo. Nomearam uma “..comissão mista de patrícios e plebeus com o encargo de redigir leis úteis às duas ordens e capazes de assegurar a igualdade e a liberdade.” Pouco depois “…foram enviados a Atenas os legados Espúrio Postúmio Albo, Aulo Maneio e Públio Sulpício Caemrino com a missão de copiar as célebres leis de Sólon e estudar as instituições, costumes e leis das demais cidades gregas.”

A maleabilidade da política romana é realmente notável. O fragmento mencionado prova satisfatoriamente que, ao contrário do que alguns podem sustentar, Roma não tinha um compromisso especial com a ideologia imperial. A cidade cresceu porque patrícios e plebeus se preocuparam primeiramente com a subsistência da cidade. O sucesso romano decorreu de sua unidade na diversidade para fazer frente às adversidades. Os romanos se curvavam aos fatos e procuraram adotar a melhor política para cada momento. Não descartavam o aproveitamento das experiências dos atenienses antes mesmo de submeter a Grécia pelas armas. A virtude romana parece ter sido realmente agir e sofrer. É claro que a partir de um certo momento a idéia imperial acabou se confundindo com a sobrevivência da cidade, mas isto pode ter ocorrido porque Roma se viu obrigada a crescer ou morrer.

As instituições gregas, entretanto, não fincaram raízes em solo romano, pois “…no trecentésimo segundo ano da fundação de Roma, a forma de governo foi novamente mudada e o poder passou dos cônsules aos decênviros, como outrora havia passado dos reis aos cônsules. Essa mudança, entretanto, não foi importante porque sua duração foi menor. Com efeito, após um começo feliz, aqueles magistrados entregavam-se a excessos que lhes apressaram a queda e o poder voltou às mãos de dois magistrados com título de cônsules.”

Algum tempo depois que os decênviros foram nomeados, sentido-se ameaçada e subjugada a plebe começou a reivindicar o retorno do tribunato. Mas os senadores que se beneficiaram com a mudança apoiavam o novo regime e os que odiavam os decênviros “…não menos odiavam a plebe…”.  Assim, mesmo provocando desarmonia, o regime foi sendo mantido por algum tempo.

Eleito decênviro, o jovem Ápio Cláudio reivindicou a posse de uma plebéia que desejava. Alegou que a mesma havia nascido em sua casa e fora roubada e entregue ao pai adotivo. A jovem Virgínia, que era filha de um importante militar na guarnição de Álgido e noiva de um ex-tribuno, foi obrigada a defender-se no Fórum. Ápio ignorou a defesa da jovem e decidiu a causa em seu próprio benefício. Indignado, o pai da jovem a matou para não vê-la desonrada pelo decênviro. O episódio desencadeou uma verdadeira revolução.

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A plebe se revoltou contra Ápio quando ele quis punir o desesperado pai que matara seu objeto de desejo. O exército se rebelou,  a plebe nomeou tribunos militares e se retirou novamente para o Monte Sacro. Privada “…de sua população habitual, Roma se tornara um imenso deserto.” Não demorou para que os senadores cedessem à plebe aquilo que ela reivindicava. Os decênviros foram convencidos a renunciar e o sistema antigo de governo foi adotado. Desta maneira os patrícios recuperaram a tranquilidade e os plebeus seus tribunos. Mas os senadores tiveram o cuidado de não permitir à plebe se vingar dos decênviros. Afinal, caso provassem o sangue de seus algozes os plebeus poderiam sentir-se estimulados a fazer o mesmo com os cônsules e senadores no futuro.

A  instituição e preservação do decenvirato com prejuízos para todos, inclusive para os patrícios que foram proibidos de usar a palavra na cúria, demonstra como pode ser  danosa a importação de um modelo político estrangeiro. O que era bom para os atenienses se mostrou profundamente nocivo para os romanos. Além disto, uma vez aprovada a modificação não tardou para que aparecesse alguém que procurasse abusar dela em seu próprio benefício. O relato deste episódio é bastante útil, pois nos ensina que  é melhor suportar as turbulências políticas e preservar as instituições tradicionais do que adotar instituições novas que podem desencadear turbulências ainda maiores.

Restabelecida a normalidade foram aprovadas leis que asseguravam o direito de apelação e que atribuíam ao tribunato da plebe o caráter sacrossanto, punindo-se com a morte o atentado contra os magistrados da plebe. E os tribunos voltaram a carga. Ápio Cláudio foi acionado pelo pai da jovem morta, apelou, mas acabou preso e se matou antes do julgamento. Os outros decênviros também foram processados e presos. Ópio também se suicidou e os demais partiram para o exílio após seus bens serem confiscados. A responsabilização dos autores dos abusos afetou positivamente o futuro de Roma. A aprovação da Lei das Doze Tábuas, que consolidou as magistraturas e as relações entre plebeus e patrícios, também ajudaria a pacificar a cidade.

Numa nova campanha contra os  équo e volscos “…antes que a linha inimiga pudesse contar com todas as forças, o cônsul romano ordenou o ataque…”. Na campanha contra os sabinos, o cônsul lembrou aos soldados que “…se o desfecho da guerra lhes fosse adverso, seriam milhares de inimigos que constituiriam ameaça para eles e para seus filhos.” Durante o decenvirato os romanos haviam perdido uma batalha, de maneira que o cônsul preferiu experimentar “…seus soldados em pequenas incursões e em combates ligeiros…” antes de realizar uma ofensiva de grande porte.

Estes episódios ensinam algumas lições conhecidas de qualquer comandante: a) a surpresa pode ser a chave do sucesso; b) na guerra não há qualquer ética; c) mais do que desejar vencer o soldado deve temer a derrota; d) antes de realizar operações de vulto o comandante deve testar a disposição da tropa e dar-lhe autoconfiança.

Apesar de todos os cuidados adotados por Horácio, os legionários romanos “…estavam prestes a ceder…” antes de serem socorridos pela cavalaria. Mais adiante Tito Lívio afirma que os “…soldados voltaram ao combate que haviam interrompido e reconquistaram as posições abandonadas.” O segundo fragmento contradiz o primeiro. É óbvio que os soldados já haviam abandonado suas posições e interrompido o combate. Portanto, eles não estavam prestes a ceder, já haviam cedido e fugido. Tudo indica que o historiador omitiu deliberadamente os detalhes da vergonhosa retirada para dar ênfase a uma suposta galhardia dos soldados. A vitória salvou as aparências e o narrador procurou enfatizar apenas os aspectos positivos da campanha que motivaria o primeiro triunfo em Roma.

Mas como em Roma a paz nunca era duradoura, novamente patrícios e plebeus entraram em  conflito. Os cônsules Marco Gegânio Macerino e Caio Julio conseguiram “…impedir uma sublevação da plebe contra um decreto de mobilização para os volscos e équo, suspendendo-lhe simplesmente a execução. Afirmavam que enquanto a cidade estivesse calma a paz reinaria também no exterior, e que somente as discórdias civis excitavam os ânimos dos estrangeiros.” O fragmento demonstra claramente que é verdadeira a hipótese anteriormente levantada de que os patrícios empregavam a guerra externa para calar as reivindicações da plebe.

No discurso atribuído ao cônsul Tito Qüincio Capitolino a defesa dos patrícios em relação à discórdia civil é feita de  maneira bastante eloqüente. “…A luta de classes é o veneno desta cidade”… “Vós desejastes tribunos da plebe e, para conseguir a paz, nós concordamos. Vós quisestes os decênviros e nós permitimos que fossem nomeados. Vós aborrecestes os decênviros e nós forçamo-los a deixar o poder…” “…Mesmo vencidos, nós nos mantemos calmos e com mais serenidade do que vós, como vencedores.” Sobre a atitude de alguns tribunos, Tito Qüincio teria afirmado que “…ao verem que, com a união de classes, eles não terão mais importância alguma, preferem ser chefes de sedições a perder o seu prestígio.”

O fragmento é importante por demonstrar novamente quais são as opções do historiador. O discurso de Tito Qüincio ocupa quase quatro páginas e substitui completamente a avaliação dos fatos pelo historiador. Desta maneira a versão dos patrícios para a origem dos conflitos sociais e as suas propostas para a solução dos mesmos se tornam uma verdade histórica. A versão da plebe para os conflitos não tem espaço na narrativa. Os discursos dos tribunos acusando os patrícios de serem os verdadeiros causadores das disputas romanas também não são mencionados ou transcritos com detalhes. Assim, fica parecendo que Tito Lívio se conduzia segundo alguns princípios: a) os patrícios são vítimas das sedições dos plebeus e representantes; b) os plebeus sempre foram os grandes responsáveis pelas desordens na cidade; c) os tribunos sempre cuidavam mais dos seus próprios interesses do que dos interesses da plebe quando promoviam as sedições.

Contudo, se prestarmos atenção aos fatos, veremos que eles contradizem a versão idealizada por Tito Lívio. A narrativa não consegue esconder que os patrícios também eram responsáveis pelas confusões que ocorriam na república. Afinal, eles sempre queriam conservar e ampliar seus privilégios e patrimônios por intermédio das guerras que declaravam para pacificar a cidade. A resistência dos patrícios às pretensões da plebe era excessiva. Muitas vezes os patrícios preferiam endurecer a negociar com os tribunos da plebe. Somente quando a cidade estava prestes a entrar em guerra civil ou correndo o risco de ser invadida pelos inimigos externos é que os patrícios recuperavam o bom senso e negociavam com seriedade. Os tribunos eram cooptados ou subornados. Houve pelo menos um caso em que o tribuno que se recusou a exercer seu cargo em beneficio dos patrícios foi criminosamente executado.

Durante uma nova campanha contra volscos e équo, para inspirar seus soldados, Agripa “…arrebatou as insígnias das mãos de seus condutores e conduziu-as ele próprio à frente das tropas, lançando algumas delas nas fileiras inimigas.” As insígnias romanas tinham uma importância capital. Os soldados juravam proteger suas insígnias a qualquer custo. A perda das respectivas insígnias era considerada ultrajante e o culpado poderia ser proibido de  retornar ao acampamento fortificado (o que equivalia a uma sentença de morte por frio, fome ou ataque de inimigos ou feras). Além de um caráter quase religioso, a insígnia tinha uma utilidade bem prática.  A movimentação de tropas no campo de batalha era feito através da movimentação das insígnias, pois as mesmas se sobressaiam e podiam ser visualizadas pelo comandante da tropa. As insígnias eram como que peças de xadrez num tabuleiro que só o comandante compreendia.

Após esta guerra, o tribuno Caio Canuélio apresentou um projeto de lei permitindo o casamento entre patrícios e plebeus. Também foi apresentando um projeto de lei “…concedendo ao povo o direito de eleger livremente os cônsules, fossem eles plebeus ou patrícios.” A reação dos patrícios às estas novidades democráticas foi imediata. Eles não aceitavam as propostas que consideravam ofensivas à sua dignidade. Uma nova campanha militar foi cogitada, mas os tribunos proibiram o alistamento de tropas. Novamente os patrícios acusaram os tribunos de causarem a desarmonia social. A disputa é resolvida mediante um acordo, em que foi aprovada a criação de tribunos militares com poderes consulares, que seriam escolhidos entre plebeus e patrícios.

O episódio revela certa penetração dos ideais da democracia ateniense na cidade de Roma. Este é o primeiro registro do questionamento da proibição de casamentos entre plebeus e patrícios. Também foi a primeira a reivindicação aberta da plebe de eleger cônsules plebeus.

Este também pode ser considerado um episódio exemplar de como conduzir uma negociação delicada. A solução encontrada agradou as duas classes de cidadãos. Os patrícios não abriram mão de seu direito exclusivo de ser eleitos cônsules e a plebe ganhou a possibilidade de eleger tribunos militares com poderes consulares. Tudo bem pesado, pode-se dizer que os patrícios se saíram muito bem na mesa de negociação. Afinal, concederam menos do que os plebeus reivindicavam e preservaram privilégios que estavam sendo questionados. Os plebeus ganharam algo que não tinham e aumentaram sua participação na vida pública.

Um pouco mais adiante o autor alerta que para “…alguns historiadores a criação de tribunos militares, revestidos da autoridade e das insígnias consulares, teria sido motivada pela impossibilidade dos cônsules em fazer frente a tantas guerras simultâneas contra os veienses, os équos, os volscos e os ardeatas sublevados.” Qualquer que seja a versão verdadeira a importância do episódio é evidente. Tanto que  Tito Lívio concede a um suposto discurso do tribuno Caio Canuélio quase quatro páginas. A rápida solução da contenda indica que os patrícios aprenderam a  ceder os anéis para não perder os dedos.

A discrepância entre as versões para a criação dos tribunos militares sugere duas questões interessantes. A primeira é óbvia. É impossível saber qual das duas versões é verdadeira. A segunda é mais sutil. Em razão desta ambigüidade o texto de Tito Lívio ganha contornos claramente literários, pois ficção e fato, versão e verdade, se confundem na narrativa que segue, portanto, o padrão estabelecido no relato da retirada da plebe para o Monte Sacro (anteriormente discutida).

Após a aprovação da lei que institui os tribunos militares com poderes consulares os patrícios criaram o cargo de censor. Os censores, que realizariam algumas das tarefas burocráticas que competiam aos cônsules, seriam obrigatoriamente patrícios. É evidente que a complexidade da vida política e social romana aumentou à medida que o tempo foi passando. O crescimento populacional e territorial da República causou novos conflitos internos, que foram solucionados com a criação de outros cargos.

É importante notar que os patrícios não perderam o controle político de Roma. Eles tiveram sempre o cuidado de conceder á si mesmos novos cargos através dos quais pudessem rivalizar os representantes da plebe. A propósito, à medida que ficaram liberados de tarefas que seriam realizadas doravante pelos censores, os cônsules ficaram livres para adquirir novas atribuições de maneira a ofuscar o poder dos tribunos militares.

Não são poucas ou  rasas as armadilhas da narrativa liviana. Ao perceber que o historiador concedeu ao tribuno da plebe Caio Canuélio quase  quatro páginas, ficamos tentados a acreditar que ele tratou-o igual ao patrício Tito Qüincio, cujo discurso tem o mesmo tamanho. Contudo, há uma sutil diferença no tratamento dispensado aos dois personagens. O discurso de Tito Qüincio substitui integralmente a narrativa histórica e não é questionado por outra versão. Já o de Caio Canuélio é colocado em dúvida pela versão narrada de que os tribunos militares foram criados pelos patrícios para fazer frente às necessidades da guerra em várias frentes e não em virtude das reivindicações do tribuno da plebe. A distinção é sutil, mas importante e revela como Tito Lívio tratou de maneira desigual pessoas que considerava desiguais.

Após uma nova campanha vitoriosa contra os équos, em que o cônsul romano alertou o inimigo que “…os vencidos deviam submeter-se às condições que lhes fossem impostas e não tinham o direito de dita-lás…” houve escassez de tribo em Roma. Na oportunidade os “…patrícios acusavam os plebeus de ociosos e os tribunos da plebe acusavam os cônsules ora por sua má fé ora por sua negligência.” Episódio interessante este. Quase todos os conflitos anteriormente narrados estão relacionados ao acesso a terra, a concessão de direitos ou preservação de privilégios e, principalmente, ao acesso a cargos na administração da cidade. No momento em que plebeus e patrícios dividem a administração de Roma e ocorre o desabastecimento nem tribunos nem cônsules aceitam ser responsabilizados, o que prova que os homens são mais inclinados a lutar pelo poder do que aceitar os encargos que decorrem de seu exercício.

Os conflitos em Roma eram permanentes. Quando havia fartura, os patrícios lutavam para aumentar seus privilégios ou para conservá-los e plebe buscava adquirir direitos e espaço político. Diante da escassez os representantes das duas ordens acusaram-se mutuamente, cada qual se dizendo irresponsável pela crise.

Na oportunidade, acreditando que teria acesso ao poder absoluto Espúrio Mélio efetuou “…uma compra de trigo na Etrúria às suas próprias custas – o que inutilizou, creio eu, as providências do Estado para baixar os preços – e começou a distribuí-lo ao povo. Com essas dádivas conquistou a plebe e por onde passava todos os olhares o acompanhavam, elevando-o acima da condição de cidadão privado.” Entretanto, sua intenção declarada de se tornar rei despertou a ira dos patrícios, que não aceitaram submeter-se a um igual. Espúrio Mélio chegou a ter um arsenal em casa, mas a conspiração foi abortada antes do golpe e seu mentor acabou citado e morto por Ahala Servílio.

Esta tentativa de golpe de estado pode não ter dado certo por dois motivos. Naquela época Roma ainda não tinha um exército regular. Assim, Espúrio Mélio não tinha como domesticar Roma militarmente em razão da lealdade adquirida ou comprada dos soldados como fizeram posteriormente quase todos os césares. Por outro lado, desde o fim da realeza as principais famílias patrícias tinham se acostumado a governar a cidade e não cederiam seu poder e privilégios a não ser que a coação fosse realmente irresistível. De qualquer maneira esta tentativa de golpe demonstra como a República era frágil. Diante das condições propícias, existência de um exército regular comandado por um líder querido ou generoso, os soldados nomeariam um imperador que poderia ignorar os patrícios e se apoiar exclusivamente na plebe mediante a política do pão e circo.

Alertados do risco, os patrícios tomaram providências para fazer de Espúrio Mélio um exemplo. O cônsul Lúcio Qüincio decidiu que “…fosse reduzido a pó o telhado e as paredes que haviam abrigado semelhante loucura e confiscados os bens contaminados por terem servido à compra da realeza. Por esse motivo, ordenara aos questores que vendessem esses bens e recolhessem a quantia ao erário público.” A pena  imposta Espúrio, ao seu patrimônio e à sua memória foi tão severa e permanente que sobreviveu até mesmo ao Império Romano, pois seu nome se tornou um adjetivo que designa algo ilegítimo e ilegal.

Nem é preciso dizer que a solução da tentativa de golpe desaguou em nova guerra externa. No combate contra veienses, fidenates e faliscos o tribuno Aulo Cornélio Cosso matou  o rei dos inimigos, despojou “…o cadáver ensangüentado, cortou-lhe a cabeça, espetou-a na ponta de sua lança e exibiu-a aos inimigos que, apavorados com a morte do rei, debandaram.”

O principal objetivo da guerra sempre foi e sempre será privar o inimigo de seu comandante supremo. Como as estruturas militares são organizadas numa hierarquia rígida, cada homem sempre responde a um superior com exceção do que está no topo da hierarquia. O comandante supremo só responde a si mesmo e na maioria das vezes tem vários subordinados imediatos que controla obrigando-os a competir entre si. Morto o comandante, cada um destes imediatos tenderá a não aceitar se submeter aos demais, seguindo-se um conflito entre eles (foi o que ocorreu, por exemplo, quando Alexandre o Grande morreu).  Esta disputa afetará, obviamente, a coesão das tropas e a sua capacidade de resistência diante de outro inimigo (o império construído por Alexandre o Grande e fragmentado após sua morte foi sendo conquistado aos poucos por Roma).

Mesmo que tudo isto seja óbvio, a citação do episódio se justifica. O historiador refere que Aulo Cornélio pode ter sido cônsul e não tribuno militar. Tito Lívio esclarece que alguns historiadores anteriores afirmam que Aulo foi tribuno e que inscrições nos seus despojos provariam que ele foi cônsul.  O próprio Lívio afirma que ouviu “…pessoalmente de César Augusto, que construiu e restaurou todos os nossos templos, dizer que havia entrado no templo de Júpiter Ferétrio, mandando reconstruí-lo mais tarde pois se achava em ruínas, e havia lido essa inscrição na couraça líntea. Na minha opinião, seria quase um sacrilégio privar Cosso e seus despojos do testemunho de César, restaurador do próprio templo. O erro correria por conta de nossos antigos anais e dos livros dos magistrados escritos em telas de linho e guardados no templo Moneta, citados muitas vezes por Licínio Macer, e que datam o consulado de Aulo Cornélio Cosso, juntamente com Tito Qüincio Peno, de nove anos mais tarde. Este é um problema que cabe a cada um resolver.”

O fragmento demonstra claramente que os historiadores antigos tinham os mesmos problemas que os modernos. A conservação e a diversidade das fontes as vezes dificulta descrever exatamente o que ocorreu. A intromissão do poderoso do momento também. Entre a versão dos documentos e historiadores e a de César Augusto, primeiro imperador de Roma, Tito Lívio adotou uma saída bastante inteligente, quase literária. Narrou o fato segundo os documentos e historiadores, afirmando que Aulo foi tribuno. Depois mencionou a versão do Imperador, dizendo que, pessoalmente, acreditava que a mesma fazia mais jus ao cônsul heróico.

É claro que compreendemos a subserviência de Tito Lívio. O historiador viveu numa época em que o César tinha poder de vida e de morte sobre seus súditos, premiando a lealdade e punindo com rigor o menor indício de traição. Apesar ou por causa disto, o fragmento revela a precoce decadência da sociedade romana sob Augusto.

Neste caso fica bem evidente que o imperador considerou-se acima da memória documental de Roma e dos historiadores romanos. O texto sugere que ele deve ter insistindo pessoalmente que Tito Lívio narrasse a história de Aulo Cornélio Cosso segundo seu testemunho.  Este abuso, pequeno para um súdito e imenso para um cidadão, demonstra que o regime  dos césares já nasceu doente e fadado a enterrar a glória da civilização romana. Não é a toa que os abusos imperiais somente aumentariam sob Tibério, Calígula e outros césares.

Quando do ataque a Fidenas “…perdidas todas as esperanças de assaltá-la ou forçá-la a render-se, o ditador resolveu abrir um túnel até a fortaleza, no lado oposto da cidade, em terreno que bem conhecida por ficar próximo de Roma, na área menos vigiada por ser protegida pela natureza local. Enquanto isto, dividiu o exército em quatro colunas para revezarem-se no ataque…” A persistência parece ter sido uma virtude de Roma. Seu exército nunca desistia  antes do inimigo ter sido subjugado. Os romanos consideravam as derrotas e adversidades fatos temporários. Quando o inimigo recusava o combate, os cidadãos soldados recorriam a um ardil.

Em razão do caráter rudimentar das máquinas, a guerra antiga é um fenômeno realmente notável. O assedio a uma cidade fortificada poderia demorar vários anos. As estratégias empregadas para minar a resistência dos sitiados eram muito criativas. Se não fosse possível chegar ao topo da muralha através de escadas, torres de assédio ou rampas de terra construídas junto à mesma, os soldados cavavam túneis para penetrar na cidade por baixo ou, no mínimo, para provocar o desabamento parcial da fortificação. Obras magníficas eram realizadas para desviar cursos de água que abasteciam os sitiados. Isto para não mencionar no uso de suborno, infiltração de espiões, envenenamento de fontes, divulgação de boatos e outras velhacarias. Tudo que fosse útil para enganar, entorpecer e derrotar o inimigo era empregado.

Durante uma epidemia “…foi enviada uma missão ao território do Pontino, na Etrúria, a Cumas e à Sicília, para adquirir trigo…” Em razão disto naquele “… ano não houve perigo de carestia pelas providências tomadas para o abastecimento da cidade.” É notável como os patrícios aproveitaram a tentativa de golpe de Espúrio Mélio para modernizar a administração da cidade e prevenir conflitos advindos do desabastecimento. A fim de preservar a tranqüilidade e os privilégios dos patrícios, os cônsules começaram a adquirir estoques reguladores de trigo para manter o preço do produto estável quando fosse necessário. Para evitar a carestia, algo que hoje chamamos de inflação, uma política econômica rudimentar começa a ser desenvolvida.

A dramática narrativa da batalha entre os volcos chefiados por Vétio Messio e os romanos comandados por Aulo Póstumo merece registro. Afirma Tito Lívio que “…Méssio passou à ação e seus companheiros soltaram de novo o grito de guerra, dirigindo o ataque para o local onde Postumio Albo investia com suas coortes. Desnorteados, os vencedores começavam a recuar quando o ditador veio em seu auxílio, concentrando todas as forças naquele ponto. Um só homem, Méssio, sustentava o destino dos volcos. Dos dois lados houve grande número de mortos e feridos e até os generais romanos derramaram sangue no combate. Apenas Postúmio, atingido por uma pedra, teve que abandonar a luta com a cabeça quebrada, pois nem o ditador, ferido no ombro, nem Fábio, com a coxa quase pregada ao cavalo, nem o cônsul, com um braço cortado, afastaram-se daquela difícil batalha.”

Além de sua beleza estética, o fragmento nos ajuda a compreender as nuances da psicologia da guerra. Em geral é difícil entender como um exército inferiorizado numérica e tecnologicamente pode vencer um inimigo mais  poderoso. O texto citado sugere que,  no calor da batalha, o destino de um exército com milhares de soldados pode ser decretado pela conduta de um só homem. Isto se explica pelo chamado efeito manada. A coragem e a covardia são sentimentos que se transmitem pelo exemplo. Quando um dos dois inflama a maior parte de um grupo o desfecho do conflito é previsível. O terror ou o ímpeto de um exército quase sempre provoca o sentimento contrário no outro.

Durante uma nova campanha de veienses e fidenates em território romano ocorreu uma seca e uma nova epidemia. “Os corpos eram afetados pela epidemia e os espíritos por superstições, na maior parte, do estrangeiro. Os aproveitadores da credulidade do povo, com vaticínios, introduziam nas casas novas formas de sacrifício, a tal ponto que os principais cidadãos começaram a envergonhar-se pela república ao ver em toda parte, nas ruas e nos santuários, práticas estrangeiras insólitas empregadas para aplacar os deuses. Os edis foram encarregados de velar para que só se celebrasse o culto dos deuses romanos conforme as tradições pátrias.”

À medida que cresceu e absorveu povos que tinham culturas e religiões diferentes, a República de Roma passou a ter os mesmos problemas que outras estruturas políticas heterogêneas. Preservar a identidade cultural e religiosa acabou se transformando numa questão de segurança interna, cabendo ao poder público prevenir a disseminação de heresias e punir os refratários à religião predominante ou oficial. Portanto, a perseguição aos cristãos a partir do século I de nossa era não foi uma novidade. Quando a sobrevivência da cidade estava em questão o uso da violência era justificada e legítima mesmo contra uma religião pacífica.

Naquela oportunidade os veienses obtiveram uma vitória importante porque o comando do exército de Roma não foi centralizado. A derrota ensinou aos romanos “…quão inútil na guerra é a pluralidade de comando. Seguindo cada um seus próprios planos, divergindo em suas opiniões, deram ao inimigo oportunidade de êxito. A tropa não sabia a quem obedecer, pois enquanto uns davam sinal de ataque, outros soavam a retirada.” O episódio não pode ser ignorado. Mesmo que mantido por um regime democrático, o exército deve ser organizado de maneira rigidamente hierárquica e seu comando centralizado. Os partidos políticos mais centralizados (como o PT) sempre tem melhores chances de êxito eleitoral que os partidos descentralizados (como o PSDB).

Ao iniciar uma nova campanha, o cônsul Mamerco Emilio “…acampou a mil e quinhentos passos de Fidenas, protegido à direita pelas montanhas e à esquerda pelo rio Tibre.” Ao fim da guerra Fidenas foi invadida e submetida a saque, parte dos sobreviventes foram sorteados entre os cavaleiros e centuriões, os demais fidenates acabaram sendo vendidos como escravos. Já na guerra contra os volscos, o cônsul Caio Semprônio Atratino tomou “…as providências necessárias, mas com tanta leviandade e negligência que houve mais disciplina no exército volsco do que no romano. Por isto a Fortuna, como em muitas outras ocasiões, protegeu quem merecia.”
   
Selecionados os dois exemplos para mostrar como a guerra é o palco ideal para os homens mostrarem seu valor ou vício. A guerra sempre acarreta glória para o vitorioso, consideração para o comandante diligente que salva suas tropas de uma derrota. Também atribui vergonha eterna para o que foi derrotado em razão de sua desídia.

O cuidadoso Mamerco Emilio venceu a campanha contra Fidenas e seu feito sempre seria lembrado pelos romanos das futuras gerações. Já o desleixado Caio Semprônio Atratino não só colocou em risco seu exército como teve sua autoridade consular ignorada pelo decurião de cavalaria Sexto Tempânio. No calor da batalha, ao percebendo o risco de derrota, Tempânio, que era subordinado ao cônsul, comandou operações que equilibrariam o combate e salvariam o exército. Em razão de sua vergonhosa derrota, o cônsul Caio Semprônio acabou sendo acionado pela plebe e condenado a pagar multa de quinze mil asses.

Após este episódio ocorreu a primeira revolta de escravos. Para a felicidade de patrícios e plebeus a sedição foi denunciada “…por dois de seus cúmplices, os culpados foram detidos e castigados.” Segundo Tito Lívio os delatores “….receberam do erário público dez mil asses pesados cada um, o que representava na época uma fortuna, e ainda a liberdade, como prêmio.” Durante e logo após a sedição as relações entre patrícios e plebeus se pacificariam por algum tempo. Afinal, os escravos representavam um perigo comum para todos os romanos, obrigando patrícios e plebeus a se unirem contra este inimigo interno.

O episódio coloca ênfase na virtude da delação premiada. Atualmente a delação premiada tem sido muito debatida no Brasil. Este instituto de Direito Penal permite que o delator seja beneficiado caso ajude o Estado a perseguir e punir outros culpados por atos criminosos. O episódio destacado prova que a delação premiada remonta aos primórdios da República de Roma. Sua eficiência é comprovada pelo resultado.

Antes de Quinto Servílio ser nomeado ditador Roma sofreu uma derrota para os volcos por causa da divisão do comando. Na verdade “…os jovens recrutas partiram para a guerra sob o comando dos dois tribunos. Mas a rivalidade nascida em Roma entre os tribunos, igualmente ávidos de comandar, aumentou ainda mais no campo de batalha. Nunca estavam de acordo, cada um lutava por suas opiniões e procurava impor seus planos, julgando-se o único com direito a dar ordens.” Este novo episódio reforça a tese de que a centralização é a chave para o sucesso de qualquer estrutura militar. A divisão do comando acarreta paralisação, apatia e, principalmente, ineficiência em razão de ações contraditória e não coordenadas.

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Após ser nomeado ditador, Quinto Servílio reuniu um novo exército e partiu para a guerra.  Após escolher o teatro de operações “…o ditador deu o sinal de ataque aos porta-estandartes de suas legiões, e ao ver que um deles hesitava, matou-o.” A severa e imediata punição da hesitação pode parecer um exagero, mas não é. Naquele contexto, a atitude de Quinto Servílio pode ter salvado todo o exército romano. Caso o ditador não tivesse agido prontamente, a hesitação do porta-estandarte se propagaria para a tropa. A ausência de punição faria com que os soldados deixassem de temer seu comandante e seguissem o exemplo daquele que se recusou a cumprir prontamente sua obrigação e ficou impune.

Finda a campanha de Quinto Servílio, os tribunos Espúrio Mecílio e Marco Metílio propuseram a distribuição das terras conquistadas ao inimigo. Os patrícios reagiram a esta nova lei agrária. “Uma luta violenta parecia iminente entre plebeus e patrícios. Os tribunos militares reuniam ora o Senado, ora as assembléias articulares da nobreza, mas não achavam solução. Foi então que Ápio Cláudio, descendente do decênviro encarregado da redação das leis, e o mais jovem membro do Senado, declarou, segundo consta, que trazia de casa uma velha solução familiar. Seu bisavô, Ápio Cláudio, mostrara ao senadores o único caminho a seguir para neutralizar o poder tribunício: a oposição entre colegas.” É notável como a política romana era previsível.

Os patrícios usavam os conflitos externos para obrigar os plebeus em armas a saírem da cidade esvaziando assim o poder tribunício. Quando isto não era possível provocavam discórdia entre os representantes da plebe para amenizar os conflitos internos e seguiam desfrutando seus privilégios. Enquanto os soldados, ou seja, os plebeus, combatiam pelos despojos os territórios conquistados pertenciam à cidade que era administrada predominantemente pelos patrícios. Muitos dos territórios ganhos ao inimigo eram adquiridos legal ou ilegalmente pelos patrícios ou usados para estabelecer colônias a fim de reduzir a tensão social na cidade.

Roma não era uma cidade, era um negócio. Um negócio altamente lucrativo para as famílias patrícias. Conscientes disto, as mesmas não abriam mão de seus privilégios ou do controle político da cidade. Quando seu poder era colocado em xeque, cediam um pouco mas logo readquiriam o controle mediante algum novo expediente. Acossados por fatores que fugiam ao seu controle (guerra externa, resistência patrícia às suas reivindicações, medo dos escravos e necessidades cotidianas) os plebeus nunca conseguiram controlar totalmente a cidade. Mesmo sendo mais numerosos que os patrícios eles eram prisioneiros da lógica hierárquica brutal que comandava cidade em benefício dos patrícios, que eles, plebeus, defendiam com seu sangue.

O paralelo entre Roma e o Brasil é inevitável neste ponto. Negros, índios e mestiços eram a esmagadora maioria da população brasileira durante os períodos da Colônia e do Império. Em algumas regiões do país os descendentes dos conquistadores lusos continuaram a ser minoria durante o período republicado, mesmo assim eles seguiram e seguem comandando quase tudo com mão de ferro. Seu principal instrumento de opressão no momento é o Poder Judiciário, que se recusa a julgar com rapidez e severidade os membros da elite comprovadamente corruptos (FHC, Serra, Alckimin, Azeredo, etc…) e, sem provas, condenou e mandou prender líderes populares (José Dirceu e José Genuíno).

Na guerra contra os bolanos o tribuno militar Marco Postumio Regilense despertou a ira dos soldados e dos tribunos da plebe em razão de sua atitude. Póstumo efetuou “…o alistamento com toda diligência, conduziu o exército a Bola e, após quebrantar a coragem dos équos em rápidos combates, irrompeu finalmente na cidadela. Foi então que sua fúria se desviou do inimigo para se voltar contra seus próprios concidadãos. Embora tivesse declarado  durante ao assalto que o resultado do saque pertenceria aos soldados, uma vez capturada a cidade faltou com sua palavra.” Não satisfeito, diante da ruidosa reação dos soldados mandou punir os mais exaltados e “…como os gritos dos homens que mandara submeter ao suplício das grades provocaram um motim, ele próprio, como um alucinado, precipitou-se de seu tribunal contra os que se opunham ao castigo.” Mentiroso, injusto e colérico, o tribuno militar Marco Postumio acabou apedrejado até a morte por seus próprios soldados.

É notável a disparidade de tratamento que Tito Lívio deu a dois assassinatos que sacudiram Roma. Ao relatar a conspiração dos patrícios e a morte do tribuno Cneu Genúcio o historiador afirma  “…que ele fora encontrado morto em sua casa…” . Um pouco mais adiante assegura ao leitor que os “…tribunos encheram-se de pavor ao verificar a inutilidade das leis sagradas que os protegiam. Os patrícios, ao contrário, mal conseguiam disfarçar sua alegria.” Ficamos sem saber se os responsáveis por este crime foram punidos.  

Ao relatar a morte do tribuno militar Marco Postumio afirma Lívio que esse foi “…um crime atroz…” Apesar da conduta autoritária, indigna e inadequada do tribuno militar um inquérito foi aberto para apurar os fatos acarretou a punição dos culpados, mas os cônsules “…agiram com moderação e brandura, condenando apenas alguns acusados, que acabaram se suicidando, conforme opinião bastante difundida.”

O que justificaria a distinção de tratamento dado aos dois crimes? A única explicação plausível que encontramos é simples. Cneu Genúcio era plebeu e, segundo uma convenção adotada pelo historiador os tribunos da plebe sempre foram responsáveis pelas sedições na cidade de maneira que o abuso dos patrícios foi perdoável porque ajudou a pacificar Roma. Marco Postumio era patrício e, em razão disto, não poderia ser impunemente punido pela plebe mesmo que tenha cometido as maiores crueldades.

O apedrejamento de Marco Póstumo e suas conseqüências demonstram como um problema militar pode se transformar numa questão política e vice versa. Ao descumprir sua promessa, o tribuno militar desencadeou uma revolta no exército e acabou sendo morto. Sua morte, entretanto, abalou o poder dos patrícios que se viram obrigados a punir alguns culpados para evitar que a impunidade se transformasse num exemplo para os plebeus.

Apesar de tratar de maneira distinta o apedrejamento do tribuno militar e o assassinato do tribuno plebeu, Tito Lívio pare compreender perfeitamente os problemas de sua cidade, pois sugere que teria “…sido oportuno, após a punição dos rebeldes, propor a distribuição das terras de Bola para acalmar os ânimos. Essa medida teria dissipado a esperança de uma reforma agrária que arrebataria aos patrícios as terras do Estado ilegalmente ocupadas. A indignidade de tal proceder irritava o povo. Além de conservar as terras do Estado de que se haviam apoderado á força, os patrícios recusavam-se a partilhar com a plebe as terras livres recentemente tomadas ao inimigo, que se tornariam, em breve, como as demais, propriedade de uns poucos indivíduos.” Este fragmento acima é importante por dois motivos.

Primeiro, porque contradiz a convenção adotada por Tito Livio de que a plebe sempre foi responsável pelas sedições na cidade. Na verdade a ilegal aquisição pelos patrícios de terras públicas conquistadas em campanhas militares quase sempre desencadeava a reação da plebe. Portanto, a plebe não poderia ser julgada culpada por reclamar da injusta distribuição da terra que havia ajudado a conquistar. E nada seria mais justo do que a repartição de parte das terras entre os plebeus já que eles eram os soldados que corriam riscos para que Roma conquistasse novos territórios.

Segundo, porque coloca em xeque a noção de um Direito Romano justo e infalível. Ainda hoje aprendemos que o maior legado da civilização romana foi sua cultura jurídica. Os especialistas em  Direito Romano  não se cansam de elogiar a sagacidade e elevada noção de justiça dos juristas romanos. Contudo, a narrativa do historiador romano que viveu no princípio do Império demonstra que justiça era algo raro em Roma desde os tempos da República.

Tito Lívio admite que os patrícios abusavam muito de sua predominância política, social e econômica e nunca consideravam a lei um freio porque podiam forjar a própria impunidade.  Já os plebeus, por mais que cumprissem seus deveres militares e corressem riscos nos campos de batalha, estavam sempre à mercê dos patrícios e dos infortúnios da pobreza. A plebe e seus representantes não tinham segurança jurídica nem mesmo quando a lei os protegia.  É evidente a contradição entre o Direito Romano que nos é ensinado e a verdadeira cultura jurídica dos romanos que extraímos da narrativa de Tito Lívio. Este é um tema que merece ser melhor explorado. Quem se interessar por ele que se capacite para o empreendimento.

Já vimos que à medida que Roma se expandiu a tarefa de preservar as conquistas obrigou-a a manter guarnições em várias cidades. As rebeliões contra estas guarnições  levaram a cidade eterna a manter-se permanentemente em guerra dentro de seu próprio território.

Quando do massacre da guarnição de Carvento um dos tribunos da plebe dificultou a convocação de tropas. Mas isto não ocorreu quando a guarnição de Verrúgine foi massacrada. Segundo  Tito Lívio “…teria sido possível salvá-la se o exército enviado em seu auxílio caminhasse em marcha forçada. Mas ele só chegou ao local depois de consumado o massacre, restando-lhe apenas vingar-se dos inimigos, ocupados em saquear os arredores. A responsabilidade pelo atraso foi mais do Senado do que dos tribunos. Informados de que a guarnição se defendia com o maior denodo, os senadores esqueceram-se de que nenhuma coragem pode ultrapassar o limite da força humana.”
 

Os problemas resultantes da manutenção de guarnições em territórios conquistados são evidentes. Como postos avançados do exército as guarnições quase sempre são pequenas e não podem defender-se com êxito nem ser  imediatamente socorridas.  Quando forem atacadas, as guarnições ficarão expostas a dois inimigos, os atacantes e as divergências internas de seu país de origem que dificultarão o envio de socorro. Qualquer povo que almeje um império enfrentará estes problemas.  Antes de atacar uma guarnição inimiga em seu território, aqueles que almejam a liberdade devem semear a discórdia entre os habitantes do país que a enviou.

Quando os romanos conquistaram Anxur os três exércitos romanos “…saquearam aquela cidade enriquecida por longa prosperidade.” Naquela oportunidade antes “…que a plebe ou os tribunos se tivessem manifestado, o Senado decretou que os soldados receberiam um soldo pago pelo erário público, pois até então cada um prestava o serviço militar às suas próprias custas.”

A plebe ficou muito satisfeita com a instituição do soldo. Lívio relata que os plebeus “…apertavam a mão dos senadores que saíam, chamando-os de verdadeiros pais, e declaravam que daí por diante nenhum cidadão, enquanto lhe restassem forças, pouparia seu corpo e seu sangue na defesa de uma pátria tão generosa.” Contudo, não tardou para que ocorresse a instituição de um novo imposto para fazer frente às despesas com o soldo. “Depois que os patrícios pagaram o tributo com toda boa-fé e de acordo com suas rendas, os mais destacados plebeus, amigos dos nobres, concordaram em dar sua contribuição. Quando a multidão os viu elogiados pelos patrícios e olhados como bons cidadãos pelos homens em idade de pegar em armas, apressou-se em pagar sua parte…”

A profissionalização da atividade militar mudaria a vida em Roma de maneira permanente. Doravante a plebe teria a certeza de que seu esforço na guerra seria recompensado. Assim, as obstruções dos tribunos se tornariam mais impopulares. Além disto, o soldo ajudaria a calar as reivindicações territoriais dos plebeus permitindo ás famílias patrícias mais tranqüilidade para seguir desfrutando os territórios conquistados. À medida que os exércitos se tornassem regulares e remunerados a distinção entre civis e militares se tornaria mais clara e permanente. Os soldados comandados pelos patrícios poderiam  ser afastados da política e mantidos em ordem mediante rígida disciplina. As manifestações dos plebeus civis seriam menos violentas e danosas à segurança da cidade.

Além das vantagens acima mencionadas, a instituição do soldo permitiu a criação de um imposto para cobrir a despesa correspondente. Quando este imposto foi criado, cada cidadão patrício ou plebeu passou a sentir-se responsável pela preservação do exército na proporção de suas rendas. A sensação de igualdade entre as duas classes de cidadãos pode ter ajudado a pacificar a cidade.

O soldo possibilitou, ainda, que os exércitos romanos se ausentassem da cidade por mais tempo. Na nova guerra contra Véios,  os generais romanos “…começaram a construção de quartéis de inverno – o que constituía novidade para o soldado romano – com a intenção de continuar a guerra mesmo nos rigores da estação.” Percebendo que seus cargos se tornariam definitivamente decorativos, os tribunos da plebe protestaram mas os patrícios sustentaram a inovação e os plebeus preferiram escutar seus próprios interesses do que seus representantes.

A instituição do soldo deu a Roma um exército regular, que poderia ser empregado pelo tempo que soldados estivessem sendo remunerados. Destacados da plebe, os soldados adquiriram interesses próprios e passaram a ser mantidos mais tempo longe da cidade, dos tribunos, e, principalmente, da política. A autoridade dos cônsules, ou seja, dos patrícios sobre os soldados aumentou e se consolidaria.  Quanto maior fosse o soldo, maior seria a fidelidade dos soldados ao exército e aos comandantes.

O sucesso ulterior de Roma pode ser explicado pela preservação e aperfeiçoamento de seu exército regular. Entretanto, a inovação do soldo criaria condições para a destruição da república. Caso a fidelidade do exército fosse maior ao seu comandante do que à Roma, a guerra civil ocorreria e a ascensão de um líder militar ao poder absoluto seria inevitável. Seria uma questão de tempo o surgimento de um comandante tão popular entre os soldados quanto ambicioso de glória pessoal (se você pensou em Caio Julio César acertou na mosca).

Um exemplo do que estava por vir ocorreu durante uma nova guerra contra os veienses, na época em que Anxur foi tomada pelos volscos. “No cerco de Véios, que era então o centro das atenções gerais, a situação também não era das melhores, pois os generais romanos demonstravam mais animosidade uns contra os outros do que ardor combativo contra os inimigos.”.  A discórdia entre os tribunos militares Marco Sérgio e Lúcio Virgínio foi tamanha que o último “…informado de que a maioria das fortificações estava sendo atacada, as trincheiras tomadas, e que o inimigo avançava em duas frentes, ele se limitou a manter os soldados com as armas no chão, declarando que se seu colega precisasse de socorro mandaria pedi-lo.”

O exemplo tem a virtude de nos dar uma idéia clara do quanto a inimizade entre dois comandantes pode colocar em risco todo exército durante tempo de guerra. A única maneira de evitar episódios semelhantes é impedir que comandantes que nutrem antipatia mutua sejam nomeados para comandar tropas no mesmo teatro de operações, pois um sempre se sentirá tentado a sabotar o outro.  

O incidente e a derrota deflagraram uma nova crise política em Roma. “Entre os senadores, poucos eram os que pensavam na república, cada qual defendendo um ou outro tribuno, de acordo com seus interesses pessoais ou com os deveres de amizade.” Para evitar retaliações, a maioria do Senado decidiu que as eleições para tribunos militares seriam antecipadas, mas  Sérgio e Virgilio não aceitaram a proposta. Percebendo a importância da situação, os tribunos da plebe “…começaram a ameaçar ferozmente os tribunos militares, dizendo que os mandariam prender caso não obedecessem a autoridade do senado.”  Então o tribuno militar Caio Servílio Ahala afirmou que  se os desafetos se recusassem a aceitar a decisão de Senado nomearia “…de imediato um ditador que os obrigue a demitir-se.”

Os desdobramentos desta nova crise demonstram uma vez mais como a política em Roma era instável. Por mais que a inovação do soldo tenha ajudado aperfeiçoar a administração da guerra e da cidade, a dependência de conflitos externos para conquista de territórios, despojos e escravos transformava  qualquer derrota no campo de batalha em motivo de disputa política. Não raro as disputas eram levadas da cidade para as campanhas militares, acarretando derrotas como a que ocorreu em razão da animosidade entre Sérgio e Virginio.

A necessidade de julgar a conduta de Sérgio e Virginio colocou mais lenha na fogueira. Os acusados foram condenados a multa de dez mil asses pesados cada. “Para compensar a plebe por seu julgamento, os tribunos vencedores apresentaram um projeto de lei agrária e proibiram o pagamento do tributo.” O resultado foi o caos, porque a “… ação dos tribunos impedia o pagamento do tributo, o dinheiro não era enviado aos generais e os soldados reclamavam o soldo, pouco faltando para que a desordem se instaurasse também no exército, por contágio com as sedições urbanas.”

A divisão da sociedade romana entre civis e militares não aboliu a mutua dependência entre plebeus e patrícios. Ao contrário, aumentou-a na medida em que o pagamento ou não pagamento do tributo (uma questão política) acarretaria o não pagamento do soldo comprometendo o sucesso na guerra (conseqüência militar). Segundo Tito Lívio esta nova crise foi superada com a eleição do primeiro plebeu para o cargo de tribuno militar com poderes consulares.

O agraciado com a dignidade foi o velho senador Públio Licínio Calvo. Em razão de sua idade é bem possível que ele não tenha exercido os poderes inerentes ao cargo, que implicariam no acompanhamento do seu exército até a frente de batalha. De qualquer maneira, seu exemplo foi frutífero, porque no ano seguinte  cinco plebeus foram eleitos tribunos militares.

Esta é, na verdade, a primeira vez que o historiador admite que o Senado romano também contava com representantes da plebe. Só agora podemos, portanto, compreender melhor a organização política da república.

O órgão político máximo era o Senado, composto pelas duas ordens sociais (patrícios e plebeus). Os cônsules e tribunos militares comandavam os exércitos e eram eleitos entre os patrícios. A plebe elegia seus tribunos, que tinham poder de apresentar projetos de lei e obstruir as ações dos cônsules. Após a crise acima relatada, a plebe passou a eleger de tribunos militares com poderes consulares. Em situações emergenciais era eleito um ditador patrício, que ficava no cargo pelo prazo máximo de seis meses e tinha poder absoluto.

Numa nova campanha contra faliscos e capenates os romanos caíram numa cilada porque lutaram  “…com maior coragem que prudência…”. Essa “…derrota esteve a ponto de causar um grande desastre, tal o terror que espalhou não só em Roma, onde a notícia chegou exagerada, mas também no próprio acampamento de Véios.” Em razão dito Marco Fúrio Camilo foi eleito ditador e a “…mudança de general modificara toda a situação: renovaram-se as esperanças, renovou-se o estado de espírito dos soldados.”

Desde muito cedo Roma sofreu em razão da inconstância da opinião pública. A cidade era dividida entre patrícios e plebeus. As duas ordens sociais competiam constantemente visando preservar privilégios ou adquirir direitos. Não raro patrícios e plebeus cometiam exageros e equívocos que provocavam imensos distúrbios políticos na cidade. Entretanto, quando a segurança de Roma estava em risco, patrícios e plebeus agiam da maneira mais pragmática possível. Se não fosse possível manter alguém num cargo, a pessoa era descartada em benefício da república.

Marco Fúrio Camilo é uma figura importante e notável. Antes de conquistar a rica e poderosa cidade de Véios,  para “…não incorrer  na cólera dos soldados por uma distribuição parcimoniosa da presa, ou na hostilidade dos patrícios por sua prodigalidade…” o ditador consultou o Senado sobre qual destino deveria dar aos despojos. Após debater o tema o Senado decretou “…que todos os homens que quisessem participar do saque a Véios partissem para o acampamento do ditador.” Camilo prometeu a décima parte dos despojos à Apolo.

Ao relatar o que teria ocorrido com o rei de Véios durante um sacrifício, Tito Lívio afirma que “…histórias desta natureza, mais adequadas à encenação teatral, que se compraz com a apresentação do maravilhoso do que com a verdade histórica, não vale a pena afirmá-las nem contestá-las.” Ao contrário dos escribas judeus, que registraram na Bíblia feitos maravilhosos como sendo históricos, Lívio procura fazer uma clara distinção entre fato e ficção e prefere não dar crédito às invenções relatadas pelos historiadores mais antigos.

O saque de Véios enriqueceu muito Roma. Além de ser uma cidade opulenta, Véios era populosa e seus habitantes foram vendidos como escravos. Ao contrário do que aconteceu com Alba e outras cidades conquistadas durante o regime monárquico, os romanos não estavam mais interessados na incorporação das populações conquistadas.

Na oportunidade todas as estátuas dos deuses foram retiradas de Véios e enviadas a Roma. A aquisição dos deuses inimigos tem valor estético e simbólico. Além de embelezar a cidade eterna, ela mostra ao inimigo derrotado e vendido como escravo que não poderá se socorrer nem mesmo nos seus deuses. Ao fim do relato, o historiador afirma que o saque ocorreu “…após dez verões e dez invernos de cerco ininterrupto.” É realmente notável a perseverança romana. Num tempo em que as guerras não duram mais do que alguns meses é impossível compreender a dimensão deste feito, que custou uma década.

Após seu triunfo, Camilo foi eleito tribuno militar mais para combater os tribunos da plebe do que para enfrentar inimigos externos. Mesmo assim conseguiu bom êxito contra os faliscos, que depois de serem cercados em Falérios e terem seus campos devastados, foram obrigados a se submeter a Roma. Aos derrotados coube, ainda, pagar o soldo dos soldados vencedores aliviando o povo romano da despesa.

O exemplo seria seguido no futuro, de maneira que a máquina de guerra romana passaria a ser sustentada pelas suas campanhas e, muitas vezes, pela simples extorsão. Foi o que ocorreu na guerra contra os volsinienses, que aceitaram uma trégua mediante o pagamento do soldo dos romanos. Finda esta campanha Camilo para o exílio após ser citado em juízo pelo tribuno da plebe Lúcio Apuléio.

O poderio de Roma já era reconhecido pelos povos vizinhos quando a invasão gaulesa da península itálica colocou em risco a cidade. “Desejando aliviar seu reino do excesso de população, Ambigato, já em idade avançada, manifestou a intenção de enviar Beloveso e Segoveso, jovens empreendedores, filhos de sua irmã, para se estabelecerem nos lugares indicados pelos seus através de seus augures.”

Após os gauleses terem atravessado os Alpes foram combatidos pelos etruscos, que não conseguiram conter a invasão e apelaram para Roma. A princípio os romanos se recusaram a ajudar a Etrúria e se limitaram a enviar embaixadores aos invasores, pois “…preferiam, se possível, evitar a guerra e conhecer os gauleses, povo novo para eles, na paz e não na guerra.”

O cuidado dos romanos em não apoiar os etruscos é justificado. Algumas cidades da Etrúria eram poderosas e rivalizavam com Roma pelo controle da Itália. Caso seus exércitos fossem parcial ou totalmente destruídos nesta guerra, mesmo que os  gauleses saíssem derrotados Roma ficaria á mercê dos etruscos, que também tinham motivos para odiar os romanos e não perderiam uma boa oportunidade de assediar Roma e submeter a cidade a saque.

O pragmatismo político-militar  de Roma no episódio é evidente e merece mais atenção. Tudo indica que os romanos calcularam que teriam mais chances contra os gauleses depois que eles fossem enfraquecidos pelos etruscos. Nunca devemos nos esquecer que Roma encarava a guerra como um negócio. Neste caso cidade tinha muito a ganhar mantendo seu isolamento e pouco ou nada ganharia derrotando as hordas invasoras. Se as mesmas causassem mais danos as tropas romanas do que aos exércitos etruscos isto poderia comprometer a segurança de Roma no futuro. Os romanos preferiram protelar, mas não conseguiram evitar a guerra, nem uma vergonhosa capitulação.

Ao se preparar para esta campanha contra um “…inimigo que não conhecia nem dele ouvira falar…” a cidade eterna foi especialmente cuidadosa. Entretanto, no primeiro confronto os gauleses, que estavam em maior número, atacaram simultaneamente a linha de batalha inimiga e suas tropas de reserva. O ímpeto gaulês e a estratégia de seu comandante aterrorizaram os romanos, que fugiram em pânico para Roma e para Véios.

Tito Lívio nos informa que quando parte do exército se refugiou em Roma os soldados não tomaram o cuidado de “…fechar as portas da cidade, refugiaram-se na fortaleza.” Os cidadãos que não conseguiram se refugiar na cidadela abandonaram a cidade aos gauleses, que “…em parte alguma tiveram de enfrentar riscos de um combate, como não tomavam Roma por assalto ou à força, entraram na manhã seguinte sem cólera nem arrebatamento, pela porta da Colina…”

A versão narrada pelo historiador sugere uma questão importante. Porque os romanos deixaram as portas da cidade abertas a noite toda, quando poderiam guarnecer as muralhas e defender-se antes de se retirar para a cidadela? Durante a crise a atitude dos patrícios foi mais do que vergonhosa, foi doentiamente egoísta. Eles abandonaram os idosos e a maioria dos plebeus do lado de fora da fortaleza em que procuraram abrigo.

Após algumas escaramuças dentro da cidade e nos acampamentos gauleses, os romanos decidiram que “…chamassem Camilo do exílio e o nomeassem imediatamente ditador, para que os soldados tivessem o general de sua escolha.” Mas premidos pela fome, os patrícios se renderam e aceitaram pagar aos gauleses um resgate de mil libras de ouro.

Antes que o ouro fosse todo pesado, o ditador interferiu, desfez o ajuste e dispôs suas tropas para o combate. Surpreendidos os gauleses combateram “…com mais cólera do que prudência…” e foram vencidos e massacrados. O livro V se encerra com um eloqüente discurso de Camilo alertando os romanos para o perigo que representava uma nação desconhecida e numerosa.

Aqui findo este esboço. Roma sobreviveu à crise gaulesa, mas a mesma demonstrou como a política e a guerra são fenômenos bastante dinâmicos. Confiante na sua histórica superioridade militar sobre os povos que conhecia, o exército romano foi vergonhosamente surpreendido e derrotado por um inimigo que desconhecia. Ao menor sinal de perigo os patrícios abandonaram os plebeus à própria sorte se esquecendo que somente unidas  as duas ordens sociais poderiam fazer frente ao inimigo comum. Não fosse a coesão dos soldados em torno de um chefe militar banido, provavelmente Roma seria definitivamente ocupada pelos gauleses. A história da humanidade  poderia ter sido outra se Marco Fúrio Camilo não fosse chamado e, vindo em socorro de seus concidadãos, não estivesse preparado para livrar Roma dos gauleses. O mito do povo gaulês desconhecido, numeroso, ardiloso e perigoso, certamente alimentou a animosidade de Roma contra a Gália até que César resolveu submeter aquela terrea incognitae .

Como vimos neste pequeno trabalho, a leitura da obra de Tito Lívio pode ser bastante ilustrativa. A história de Roma é muito rica, cheia de crises e contradições. O crescimento territorial e o amadurecimento político não foi capaz de resolver as disputas entre patrícios e plebeus. A cada iniciativa igualitária dos plebeus, a reação patrícia fazia a cidade retornar à sua tradição de predominância de uma classe sobre outra. Quem conduz ou pretende conduzir os negócios da política e da guerra num país dividido como o Brasil não pode ignorar a experiência romana. Se despertei o interesse do leitor para aquele magnífico livro dou-me por satisfeito.

Registro o meu agradecimento a filosofa Cibele Neves,  que leu detidamente o original e sugeriu correções e modificações que se revelaram  indispensáveis.

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3 comentários

  1. José Serra, líder popular… só na Roma antiga mesmo.

    “Seu principal instrumento de opressão no momento é o Poder Judiciário, que se recusa a julgar com rapidez e severidade os membros da elite comprovadamente corruptos (FHC, Serra, Alckimin, Azeredo, etc…) e, sem provas, condenou e mandou prender líderes populares (José Serra e José Genuíno).” José Serra… líder popular? José Serra… preso???? Escrever um texto desse fôlego para, no final, nos brindar com essa “desatenção”?

  2. Processos contra Palocci

    Processos contra Palocci foram arquivados:  http://www.cartacapital.com.br/politica/denuncias-contra-palocci-estao-arquivadas-4227.html

     

    Confirmou-se assim o que eu disse aqui:

     

     “Na prática, entretanto, o próprio tribunato da plebe acabou se transformando num elemento a mais no jogo político de aparência/essência, pois não poucos foram os tribunos cooptados pelos patrícios. Foi o que ocorreu, por exemplo quando da aliança entre os veienses e estrucos. Na oportunidade, empregando “…os antigos cônsules de sua influência pessoal conseguiram, uns por reconhecimento, outros pela consideração de que gozavam junto a eles, que os tribunos pusessem sua autoridade a serviço da república.” Entretanto, os patrícios nem sempre foram tão benevolentes, pois os tribunos menos maleáveis à persuasão foram simplesmente executados. Foi o que ocorreu no caso de Cneu Genúcio, eliminado por estimular os plebeus a exigirem uma reforma agrária. Este episódio é importante, pois nos ajuda a compreender o que ocorreu no Brasil recentemente. Antonio Palocci Filho, José Dirceu e José Genuíno, todos filiados ao PT e que ocuparam postos chaves nos governos deste partido, por motivos distintos foram acusados de serem corruptos. O primeiro está em liberdade, os dois outros acabaram sendo presos. Palocci foi cortejado financeiramente pela elite a quem serviu bem quando foi Ministro. José Dirceu e José Genuíno tiveram mesmo destino que Cneu Genúcio porque não eram tão tolerantes?”  

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