Lévi-Strauss(s), por Daniel Afonso da Silva

Lévi-Strauss(s), por Daniel Afonso da Silva

No princípio ele atendia simplesmente por Claude. Vivia em sua Bélgica natal. Era um judeu israelita praticante. Tinha um pai artista, pintor, e um em torno dos mais variados tipos da burguesia europeia da belle époque do fim do século 19.

Em Paris ele vira Claude Lévi-Strauss. Faz seus estudos de filosofia e trafega pelos corredores das letras e do direito.

Na capital francesa, seus tempos primeiros, iniciados em 1908, vão ficando no passado. Vivem-se os anos de 1930. O jovem moço lê Marx e os marxistas e vira socialista. Ele milita com fervor. Quer, como todos, mudar o mundo que a guerra de 1914-1918 em muito destroçou.

Mas em 1935 vem a primeira chance de escapada. Seu destino é o novo mundo. Seu ponto de partida, São Paulo, Brasil. E foi aí, na nascente Universidade de São Paulo, que ele abdicaria da filosofia e se iniciaria antropólogo.

Sua curiosidade o levaria a se imiscuir aos Bororo, aos Caduveo, Gé, Guarai, Guaycuru, Kaingang, Karaja, Mundé, Nambikwara, Tupinambá para depois fazer a mesma experiência nos quatro cantos do mundo.

O êxtase passou rápido.

Em 1939 ele se obriga a retornar ao velho mundo. Seu contrato não fora renovado pela Universidade de São Paulo.

Mas justamente nesse ano de 1939 o inferno de 1914-1918 recomeçava especialmente na Europa. A escuridão dos sentidos invade novamente as almas. O senhor Claude Lévi-Strauss decide partir novamente a um mundo novo. Agora aos Estados Unidos da América. O ano é 1941.

Nas Américas ele se faria completamente. Seu passado belga fora por todos praticamente esquecido. Ele já se afirmava como um monumento francês. Um cientista social. Um erudito à moda antiga. Um intelectual desses que talvez somente Antonio Candido de Mello e Souza – talvez dos últimos discípulos vivos de Claude Lévi-Strauss dos tempos anteriores à segunda guerra mundial – possa dar testemunho de como era.

Além de ler literalmente tudo de sua área, Claude Lévi-Strauss viraria conselheiro cultural francês da France libre nos circuitos de Wall Street.

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Mas em 1947 se lhe impõe novamente volver à Europa.

De 1947 a 1959 seus dias seriam terríveis. Seu acesso à universidade seria em muito dificultado. Seus antigos conhecidos viraram seus rivais ou inimigos. A intelligentsia francesa do após-1945 não lhe concebia perdão e não se sabe – ou se sabe – a razão.

Untado em desilusões ele escreveria para a Unesco em 1952 Race et Histoire como base para a reunião de Bandung sobre o racismo no mundo em descolonização. Soterrado em desesperanças ele faria em 1955, no intervalo de não mais que 40 dias, Tristes tropiques.

Sua vida poderia terminar aí. Mas não. Ela o faria ainda muito ver e viver.

Tristes tropiques o fez conhecido em todas as partes do mundo e reconhecido por todas as áreas do saber.

Os círculos literários queriam lhe ofertar o prêmio Goncourt – o mais importante prêmio literário francês. Mas ficou difícil saber se seu livro era literatura malgrado sua irrefutável qualidade estética e literária. Acabaram se convencendo que não.

Do lado dos historiadores encabeçados pelo já proeminente Fernand Braudel (1902-1985) – colega de Lévi-Strauss nas andanças pelo Brasil para a invenção da Universidade de São Paulo nos anos de 1930 – o furor ainda mais desconcertante. Testemunha o lendário Jacques Le Goff (1924-2014) que a ideia de longue durée fora uma resposta à imensidão dos caminhos propostos por Lévi-Strauss que deixara os seguidores de Clio fora de órbita.

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Entre os sociólogos e filósofos o mal-estar não seria diferente.

Note-se que Raymond Aron (1905-1983), dos mais importantes pensadores franceses do século 20, para ficar apenas em um exemplo, em seus escritos e em sua autobiografia jamais menciona Lévi-Strauss o que denota, por seguro, a força da presença de Lévi-Strauss em tudo e mesmo em seu magistral Paix et guerres entre les nations.

Em 1959 não teve jeito. O Collège de France teve de abrir as portas ao antropólogo e à antropologia que superava o saber dos etnógrafos e da etnografia.

Essa curiosidade milenar que remonta a Heródoto teve seus dias consolidados nos séculos do renascimento europeu. Mas foram os iluministas que forjaram a sua difusão e na virada do século 19 ao 20 gente como Émile Durkheim e Marcel Mauss eram os seus mais destacados praticantes. Lévi-Strauss encarnaria toda essa tradição e a modificaria em conteúdo e erudição. Introduction à l’oeuvre de Marcel Mauss de 1950 e Anthropologie structurale de 1958 foram as mostras mais incisivas desse turning point.

No Collège de France ele faria o estruturalismo dos linguistas adentrar as ciências sociais. E de par com Roland Barthes, Michel Foucalt, Louis Althusser e Jacques Lacan o prestígio dos saberes produzidos pelos cientistas sociais chegaria a níveis de reconhecimento jamais vistos.

Os quatro tomos de Mythologiques – 1. O cru e o cozido, 2. Do mel às cinzas, 3. A origem das maneiras à mesa e 4. O homem nu – produzidos de 1964 a 1971 foram a mostra desse valor indicado no formidável Pensée sauvage de 1962.

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Dada à imensidão de assuntos e abordagens apresentada em linguagem espontânea carregada de precisão e provocação Claude Lévi-Strauss foi virando mais e mais artista; como, aliás, todos os sábios tendem a ser. Um esteta das letras e da vida. Um inclassificável. Politicamente indecifrável. Jamais à direita tampouco à esquerda. Um reacionário para alguns. Especialmente para os cidadãos franceses que fizeram maio de 1968. Um carbonário para outros.

Por essa sua excentricidade, em 1973 a Academia Francesa o convocaria para a eternidade; e esse novo acadêmico que viveria mais trinta e seis anos faria essa eternidade quase real em termos de longevidade.

No 30 de outubro de 2009 quando ele morreu às portas dos 101 anos todos estavam certos de que uma parte francesa e mundial do século 20 se calava. E justamente por isso que Lévi-Strauss, biografia de Emmanuelle Loyer que vem se sair pela editora Flammarion, é absolutamente incontornável aos que desejam voltar a ouvir daquele século algo que lhe foi de melhor como a trajetória de Claude Lévi-Strauss.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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7 comentários

  1. Fotos dele com alunos, em São Paulo

    http://docvirt.no-ip.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=reviphan&pagfis=10969&pesq=

    Vou ler a biografia, deve ser muito interessante!

    A autora Emmanuelle Loyer ganhou o prêmio Femmina Essai por essa biografia de Lévi-Strauss

    http://www.lesinrocks.com/2015/11/05/livres/emmanuelle-loyer-recoit-le-prix-femina-essai-pour-sa-biographie-de-claude-levi-strauss-11785828/

    Quanto ao “Tristes Trópicos” , gostei de ler

    Neste momento brasileiro, aliás, os trópicos andam cada vez mais tristes, não é?

     

  2. A Simone de Beauvoir utilizou

    A Simone de Beauvoir utilizou as teses do Estruturas Elementares do Parentesco do Lévi-Strauss em O Segundo Sexo.

  3. A baia da Guanabara e outros

    Excelente, Daniel. Estudei no Instituto da América Latina como uma antropologa de Honduras, mas que viveu praticamente toda a vida em paises como EUA, Italia, Espanha ou ainda Russia. E lembro que de nossas conversas sobre a antropologia, ela reprovava em Lévy-Strauss um certo tropismo. Acho que ele não sera perdoado por uma certa ala acadêmica latino-americana. Ou depois de sua morte, o vento tera mudado de direção? Em todo caso, sempre tive muita curiosidade por entender melhor esse senhor que viveu todo o século XX e construiu parte dele. A biografia vem bem a calhar. 

  4. hoje ouvi de um coxinha,

    hoje ouvi de um coxinha, servidor público “concursado” do poder legislativo, que o Brasil poderia viver muito bem sem a Amazônia, que o Acre é um estorvo, que em vez de mantermos a ZUFRAMA deveriamos dar esmolas para os índios e amozonenses, que São Paulo é exemplo de desenvolvimento e Rondônia exemplo de atraso, o cara com mestrado em economia na UNB, era o tempo todo apoiado por outros coxinhas criados com danoninho aqui em BSB, com aquele discurso da eficiência dos “nossos” impostos, se fossem bem aplicados, é provavel que odeiem  índios, pretos e pobres.

  5. Muito bom. Mas senti falta de
    Muito bom. Mas senti falta de alguma menção ao tabu do incesto, essencial para o conceito de cultura de Levi Strauss.
    E a menção a Freud eh explicita. Enquanto para este o “corte com a natureza” funda o inconsciente e a biografia individual, para a etnologia funda-se a Cultura, no nível coletivo.

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