Magonismo e Revolução Mexicana

Por Paulo F.

Da Revista de História da USP

MAGONISMO E A REVOLUÇÃO MEXICANA: um balanço político e ideológico*

Fabio Luis Barbosa dos Santos

Doutor em História pela Universidade de São Paulo

Resumo

Este artigo analisa a trajetória política do magonismo – facção que encarnava a crítica radical ao porfiriato no período pré-revolucionário – a partir da eclosão da Revolução Mexicana em 1910. Ao relacionarmos sua evolução ideológica com a derrota progressiva dos revolucionários nos campos de batalha, analisamos o destino magonista sob o ângulo dos constrangimentos sofridos pela revolução-democrática nacional no México.

Palavras-chave liberalismo mexicano • magonismo • Revolução Mexicana

Introdução

Este artigo realiza um balanço político e ideológico do magonismo, facção mais radical dos liberais mexicanos que se organizaram nos primeiros anos do século XX para combater a ditadura de Porfirio Díaz no México, no poder desde 1876. A questão subjacente é compreender por que a organização política que encarnava a oposição radical à ditadura foi incapaz de assumir a direção do processo quando a revolução que fomentou durante anos finalmente eclodiu. A reivindicação posterior de Ricardo Flores Magón (1874-1922) pelo movimento anarquista convidou a leituras simplistas da sua trajetória,1 ignorando sua fidelidade absoluta ao programa do Partido Liberal, de 1906 até sofrer derrotas decisivas nos campos da batalha revolucionária.2 Este programa propõe um projeto de democratização radical da sociedade mexicana nos marcos do capitalismo e será apontado por muitos autores como um dos antecedentes emblemáticos da constituição mexicana de 1917.3 A despeito da radicalização ideológica de muitos  membros da Junta Liberal no exílio, a percepção que tinham do modesto acúmulo político da classe trabalhadora mexicana determinou a subordinação das suas convicções pessoais ao cálculo das potencialidades políticas franqueadas pela conjuntura, proporcionando o cultivo de possibilidades várias, desde a aliança com os setores anti-porfiristas das classes dominantes até a ruptura irreversível nos campos de batalha.4

Este percurso é evidenciado por meio do cotejo do movimento ideológico do partido com os acontecimentos chaves que determinaram a sua derrota no início da revolução. Tal cotejo foi viabilizado pela recente publicação dos primeiros
tomos das obras completas de Ricardo Flores Magón e pela disponibilização da coleção completa dos exemplares do periódico Regeneración, em CD-ROM, principal veículo da articulação política liberal.5 Esse exercício comparativo revela que o fracasso magonista não deve ser debitado ao anarquismo, mas está referido à intransigência dos setores anti-porfiristas das classes dominantes, que se negavam a incorporar as demandas sociais da revolução e atuavam com determinação inflexível para conter as pressões democratizadoras do processo. Em suma, este trabalho propõe um reenquadramento da análise do magonismo sob o ângulo dos constrangimentos que a revolução democrática-nacional encontrou para afirmar-se como via histórica para o capitalismo mexicano. É somente no contexto da derrota das forças liberais no campo de batalha, coetânea ao avanço da rebelião camponesa, que Ricardo Flores Magón reorienta as consignas liberais em um sentido anticapitalista. Em outras palavras, é diante da incapacidade da classe dominante dividida de integrar as demandas sociais como caminho para a paz nacional que os liberais radicalizam suas bandeiras. Na medida em que é desencadeada pela derrota militar, a radicalização ideológica corresponde a uma progressiva impotência política dos magonistas. Em contradição com a racionalidade política prevalente no período pré-revolucionário, Flores Magón aposta no instinto das massas, enaltece a iniciativa popular espontânea e, ao mesmo tempo, enfatiza os vínculos entre o processo mexicano e a inexorabilidade da revolução mundial, apelando a um sentido teleológico da história ausente até então. Em síntese, o líder mexicano opera uma aproximação entre natureza e história que resulta em um esvaziamento da política, o que termina por reforçar as debilidades do campo popular da revolução com o qualse identifica e é derrotado.

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