Menos sabe o tolo de si… (mais de nossa História Cultural), por Carlos Ernest Dias

Menos sabe o tolo de si… (mais de nossa História Cultural)

por Carlos Ernest Dias

Já chamei a atenção em outras oportunidades sobre a importância da história cultural para a vida de um determinado povo ou comunidade. Gostaria de retomar essa discussão, no sentido de que, para compreender o Brasil e suas eternas “crises” não podemos trabalhar apenas com a história política, militar, econômica ou a do Direito. A complexidade humana e cultural do país é algo que merece constante observação, estudo e análise, se quisermos recuperar o nosso destino e sermos dono dele, de uma vez por todas. 

Nenhum povo vive sem a teoria de si mesmo, disse o Darcy Ribeiro. Isso quer dizer que nenhum povo vive sem a compreensão de sua própria cultura, de sua própria sociedade e de como elas se formaram.E quem são as pessoas que nos trazem o entendimento da cultura de si mesmo, da história de si mesmo, entendendo esse “si mesmo” como um país chamado Brasil? Certamente não são os políticos, economistas, juízes, militares, ministros e agentes de governo. Estes trabalham para manter os privilégios, as teorias, as histórias, culturas e políticas a eles convenientes, quase sempre estrangeiras, jamais permitindo que a sociedade se desenvolva cultural e intelectualmente a partir de seus próprios valores. Esses muitos homens e poucas mulheres donos do poder compõem uma classe abastada e privilegiada, e assim desejam permanecer, combatendo todo tipo de consciência, de cultura e de conhecimento que possa vir a ameaçá-los. Estão sempre a postos para fazer a “revolução Burguesa”, a contrarrevolução, e se for preciso mobilizar as Forças Armadas,a tecnologia espacial ou a máquina midiática.

Algum tempo atrás, vinha eu escrevendo sobre o livro “O povo brasileiro” quando um leitor atacou violentamente o seu autor Darcy Ribeiro, de forma semelhante a como alguns setores da sociedade sempre atacaram o conhecimento adquirido e o desenvolvimento sociocultural no Brasil. Atacaram da mesma forma o Gregório de Matos, o Villa-Lobos, o Tom Jobim, o Juscelino, o Florestan, o Anísio, o Josué de Castro, o Niemeyer, o Moniz Bandeira, a Emília Viotti, e tantos outros, principalmente aqueles que com seu trabalho, dedicação, sucesso pessoal e prestígio profissional ajudaram a elevar o nível de compreensão e de consciência sobre a enorme complexidade do nosso país.

Não há dúvidas de que avançamos muito a partir de 1985. A constituição de 1988, as eleições de 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, a Comissão Nacional da Verdade, a ampliação das universidades e institutos técnicos, o livramento do FMI, o fim da extrema pobreza e outros aspectos são indícios de um inequívoco desenvolvimento intelectual e sociocultural.

Penso, portanto que o maior risco que se corre hoje é o de se perder mais uma vez o fio da história, da cultura e do conhecimento adquirido nestes últimos anos de “período democrático”, e que tenhamos que começar tudo de novo, privados do conhecimento sobre a própria história e sobre a própria cultura.

Afinal, menos sabe o tolo de si que o espertalhão do alheio, diz o ditado.

 

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