O capital é masculino (parte I), por Wilton Moreira

Desde a antiguidade, o ocidente concebe a competitividade como característica do homem, em contraste com as tendências solidárias da mulher

Por Wilton Moreira

Do Poesia Agora

O capital é masculino (parte I)

O valor, a riqueza do capitalismo, é uma grandeza abstrata cuja substância é uma relação social, o trabalho. Este, por sua vez, se constitui, por um lado, como uma quantidade específica de tempo necessária para que a atividade humana produza uma mercadoria qualquer e, por outro, como uma relação social em que o trabalhador se torna mercadoria, trocando sua força de trabalho por dinheiro. A mercadoria é trabalho tornado morto e que se constitui como valor de uso e valor (de troca). O capital é o valor que se valoriza, por meio da acumulação do lucro (mais-valor).

Valor, trabalho, mercadoria e capital são categorias básicas do capitalismo, todas despidas de conteúdos (são formas sociais) e constituídas como quantidades abstratas. O capital é a síntese delas, uma espécie de Zeus no olimpo das categorias abstratas. A formalidade, quantidade, impessoalidade e inconsciência o capital não implicam que ele tenha uma sexualidade. Sob esta perspectiva, o capital é assexuado, indiferente a questões de gênero.

Por outro lado, se olharmos para o trabalho, a relação social básica que constitui o capital, ele tem sido, ao longo do tempo, uma atividade preponderantemente masculina, que apenas com muita luta pôde ser exercido pela mulher que, ainda hoje, se encontra em posição de inferioridade no mundo do trabalho. A primazia do homem pode ser explicada, até certo ponto, por uma espécie de inércia social do capitalismo, cujo nascimento se deu no bojo da sociedade medieval, fortemente patriarcal.

Esta inércia patriarcal do mundo do trabalho (e não só dele, mas de todas as esferas da vida moderna) só pôde ser quebrada, mesmo que lentamente, por conta do caráter abstrato, cego e impessoal do capital, indiferente ao agente que o mobiliza. O capital, em última instância, é amoral e despido de preconceitos humanos. A ele pouco importa o gênero, a cor ou a religião das pessoas que o mobilizam, contando que sua lógica possa se desenvolver livre de embaraços. Em essência, portanto, o capital não é masculino nem feminino, branco ou negro.

A masculinidade do capital

Há, no entanto, alguns comportamentos e características pessoais necessárias à reprodução do capital. Por se tratar, no fim das contas, de uma relação social, cuja substância é o trabalho abstrato,o capital necessita habitar o íntimo da subjetividade moderna. Mais ainda, ele a constitui como princípio fundador, a ponto de Marx dizer que o verdadeiro sujeito moderno é o capital, o sujeito automático que age por trás do suposto livre arbítrio.

E quais são as características e comportamentos exigidos do indivíduo quando ele se torna um trabalhador ou um homem de negócios, em suma, um sujeito automático do mercado? Os ditos populares podem ser reveladores de muitas disposições culturais fundamentais e aquele que diz “amigos, amigos, negócios à parte” nos informa que os sentimentos não devem se misturar à racionalidade da troca, quando os homens se encontram para negociar. A lógica capitalista do lucro e da acumulação deve sempre se impor quando se está numa situação de mercado.

Da mesma forma, a exigência de profissionalismo por parte do trabalhador vai na mesma direção de não haver interferência da passionalidade própria dos assuntos pessoais ou extra-mercado no ato do trabalho, que deve ser rigorosamente guiado pela racionalidade produtiva. O dever do trabalhador é ser o mais produtivo possível, não deixando que sua esfera pessoal (que pode ir de relações familiares a preconceitos) interfira negativamente em seu desempenho.

A razão, portanto deve se sobrepor à emoção no trabalho e nos negócios em geral. Esta regra vale tanto para o mais miserável trabalhador tanto quanto para o executivo ou capitalista no topo da cadeia. Estes últimos devem ser ainda mais frios e calculistas (mais racionais), sob pena de se verem derrotados pela concorrência. O capital premia quem se adapta melhor à lógica da produtividade e do lucro.

Trata-se, obviamente, de uma racionalidade instrumental, voltada para a reprodução do capital, e não da Razão como ficção ontológica do iluminismo. Esta racionalidade do capital nem mesmo é compatível com os interesses da sociedade, haja vista a destruição que o capitalismo causa no tecido social, ao promover uma brutal concentração de renda; e a degradação que provoca no meio ambiente, a ponto poder torná-lo inóspito para a humanidade. A lógica do capital, à qual a razão do homo ecomonicus serve, é a da acumulação infinita de si mesmo.

Ora, a sociedade patriarcal do medievo e da modernidade mercantilista, na qual o capitalismo se gestou, concebe a razão como característica intrínseca do homem, em oposição à mulher, dominada pelos sentimentos. À força muscular do homem se soma sua força racional, em contraste com a fraqueza emocional da mulher. O cristianismo concebe o homem como a cabeça (a mente, a razão) do matrimônio, enquanto a mulher é o corpo (os instintos, a emoção). Enquanto o primeiro se encontra próximo de Deus Pai, a segunda se identifica com a mãe natureza. Como esta última, a mulher é erótica e passiva e, como Deus, o homem é viril e ativo.

Uma segunda característica necessária à subjetividade capitalista é o que se costuma chamar de competitividade. Inicialmente, apenas os capitalistas e gerentes pareciam necessitar de tal característica, uma vez que o mercado, quando observado em sua totalidade, se caracteriza como uma guerra impiedosa entre capitais concorrentes. Como representantes individuais destes capitais, os capitalistas devem necessariamente ser agressivos entre si, mas também com os trabalhadores, impedindo-os de se apropriarem de seu lucro.

Com o desenvolvimento do capitalismo na segunda metade do século XX, os próprios trabalhadores devem se tornar também competitivos no mercado. A educação no mundo capitalista visa, em alguma medida, a cidadania, mas na maior parte se trata de uma preparação para o mundo impiedoso do mercado, para se tornar um profissional qualificado que consiga ser bem remunerado. Cada vez mais o trabalhador se torna um capital individual em concorrência com seus pares. As mudanças legislativas em favor da desregulamentação do trabalho, ao mesmo tempo reconhecem e reforçam tais tendências de hiper-individualização competitiva do trabalho.

Os trabalhadores competem entre si dentro da empresa e do país; mas também com operários de outros países, cujas legislações trabalhistas e salários podem torná-los mais competitivos. No capitalismo tardio, o princípio da concorrência regula todas os níveis sociais e indivíduos, empresas, países e blocos competem ferozmente numa guerra de todos contra todos.

A competição se origina no esporte que, por sua vez, é uma metáfora da guerra, onde os guerreiros medem sua força. Os competidores no mercado (trabalhador ou capitalista) são guerreiros do capital, disputando sua sobrevivência, seja individual, no caso do trabalhador, seja empresarial, no caso do capitalista.

Desde a antiguidade, o ocidente concebe a competitividade como característica do homem, em contraste com as tendências solidárias da mulher. O pai é rígido e exigente consigo mesmo e com o aprendiz de guerreiro, enquanto a mãe é acolhedora e leniente. Para vencer, o guerreiro deve ser viril, agressivo e impiedoso, em oposição à mulher, por natureza erótica, conciliadora e compassiva.

O capital, como sujeito automático que age por trás do sujeito moderno, deve ser, então, racional e competitivo, duas características que na sociedade ocidental, desde a antiguidade, são tradicionalmente atribuídas à natureza do homem, em oposição à da mulher. Por isso, embora o capital seja, em essência, uma forma social, quantitativa, abstrata e impessoal, ao se configurar como o sujeito automático que se encarna nas pessoas e estrutura a subjetividade moderna, ele têm gênero, e é masculino.

A potência feminista do capital: a abstração do masculino

Por ser uma uma forma social abstrata e inconsciente, que passa a governar a vida das pessoas a partir de suas próprias leis e categorias também abstratas (valor, trabalho, mercadoria), o capital exerce seu domínio indiferente às posições e relações sociais concretas. Não que os privilégios históricos de certos grupos (os brancos, os oligarcas, os homens etc) se tornem desimportantes nas relações de dominação e a história está aí para provar que a inércia social promove, em geral, os grupos dominantes das sociedade pré-capitalistas ao topo da cadeia de poder.

Mas não se pode negar que o capitalismo possibilita uma mobilidade social assombrosa, quando comparado com os regimes patriarcais anteriores. Particularmente no século XX e em relação à mulher, o capitalismo abriu possibilidades de igualdade de gênero até então inéditas no Ocidente.

Esta potência de igualdade do capitalismo decorre exatamente da natureza do domínio exercido pelo capital sobre as pessoas, que é abstrato, impessoal e inconsciente. As características subjetivas necessárias à reprodução do capital continuam sendo masculinas (racionalidade e competitividade), mas são também abstraídas da concretude social do homem, ou seja, as “virtudes” do racionalismo e da competitividade são desencarnadas do homem concreto e constituem para se tornarem características da abstração que é o sujeito automático. Esta abstração do masculino rompe com a oposição, tida como natural, entre o homem e a mulher e que foi, na verdade, culturalmente constituída pela sociedade patriarcal de forma binária e hierárquica, a partir dos corpos biológicos do macho e da fêmea.

O capital continua a exigir que as subjetividades envolvidas na produção capitalista sejam racionais e competitivas, mas sua característica abstrata e impessoal o torna cego em relação à concretude social do gênero. A título de exemplo, se uma mulher demonstrar possuir racionalidade e competitividade, ao capital não importa sua constituição social concreta como mulher, desde que ela seja eficiente o bastante para o trabalho ou a gerência. É claro que não se nega, aqui, que a tradição social de discriminação da mulher acabe por exercer um efeito contrário à indiferença do capital em relação ao gênero: ainda hoje cabe à mulher os cuidados da casa, não raro como dupla jornada que se soma ao trabalho remunerado pelo qual, em média, ela recebe menos que o homem, mesmo que seja tão qualificada quanto este.

O fato é que a abstração das características masculinas do homem (racionalidade, e competitividade, que se desdobram em disciplina, inteligência, criatividade, destemor, agressividade, capacidade de domínio sobre si e sobre o outro, individualismo etc), possibilitou à mulher uma progressiva entrada no mercado como subjetividade atuante, de forma tão eficiente quanto o homem.

A consequência lógica desta igualdade perante o capital, é que a racionalidade e a competitividade como características que perfazem o “masculino” não são mais percebidas como vinculadas ao homem (macho biológico) por natureza ou desígnio divino, mas se revelam como construções sociais das sociedades patriarcais pré-capitalistas, continuadas na modernidade. Ato contínuo, a própria dualidade ocidental homem-mulher, bem como a superioridade do primeiro sobre a segunda, se desvela também como construções sociais. O capital permite tais desconstruções porque ele desencarna o “masculino” do homem (como concretude social), permitindo reconhecer que a mulher também pode ser racional e competitiva, caracteres definidores do homem nas sociedades patriarcais.

O masculino perde, então, seu chão social, que é o homem, num processo semelhante ao que Deleuze e Guatari chamam de desterritorialização. Nos termos destes autores, o masculino se desterritorializa do corpo do homem para se reterritorializar no corpo do capital. Como este é uma forma social abstrata, esta reterritorialização do masculino implica em sua abstração (desencarnação) do homem concreto e, em consequência, sua perda de identidade como gênero privilegiado. Mas como o homem é constituído em relação (de oposição e superioridade) à mulher, é a própria dualidade patriarcal homem-mulher que é colocada em cheque. Por outro lado, o masculino se reterritorializa no corpo do capital, como sujeito automático que agencia, agora, tanto o corpo do macho quanto o da fêmea, como subjetividades igualmente racionais e competitivas.

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