O espião que vivia no frio, por Daniel Afonso da Silva

O espião que vivia no frio

por Daniel Afonso da Silva

9 de junho de 1985 estava um domingo agradável em Moscou. Adolf e Natasha Tolkachev agendaram jantar com amigos. Desde o dia anterior que eles passavam em sua casa de campo em Doronino. Era mais de meio-dia quando partiram de regresso à capital. Rodaram alguns quilômetros. Dois ou três talvez. Quando foram solicitados parar. Adolf e Natasha Tolkachev eram habituados a essas abordagens. O controle rodoviário era rotineiro nessas estradas de campo soviéticas. Nada de anormal, porquanto, aguardavam. Adolf deixou seu veículo em tranquilidade. Com a mesma calma maneou conversação com os homens de ordem. Natasha seguia seus passos. Sem temor nem excitação. De súbito, suas mãos foram imobilizadas às suas costas. E algemas lhes foram instaladas. Natasha inundou em pânico, desespero e incompreensão. Adolf negaceou os sentimentos e a concretude dos fatos como um bravo mujique afeito ao combate.

Por horas e dias eles foram dados desaparecidos. A inquietude invadiu seus parentes e amigos. Sua ausência ao jantar no domingo causou desconfortos. Oleg Tolkachev também aguardava encontrar os pais nessa refeição. Hospitais foram consultados. A polícia também. Ninguém nada sabia. Nem nada informava. O paradeiro dos Tolkachev permaneceu mistério.

Três ou quatro dias depois, Natasha contatou todos – inclusive os superiores de seu marido no Instituto de Pesquisa que ele trabalhava – para informar que tudo ia bem. O único problema era uma espécie de lombalgia que acometera Adolf.

A verossimilhança da notícia durou instantes. Esse contato simplesmente indicou que era algo mais grave. Muito grave talvez. Quem viu assim teve razão. Adolf jamais voltaria a ser visto. Natasha passaria diversos anos em campos de trabalho até o fim do regime soviético. A última notícia de Adolf apareceu no dia 22 de outubro de 1986. Deu na imprensa que ele seria executado. Motivo: alta traição ao regime. Delito: espionagem. Natasha foi inculpada como cúmplice. Mas ela nada de fato sabia. Menos ainda que seu marido dispunha de uma conta bancária no exterior com saldo de aproximados dois milhões de dólares oriundos de fontes norte-americanas.

União Soviética. Inverno de 1976-1977. Adolf Georgievich Tolkachev, 50 anos, natural de Aktyubinsk, Cazaquistão, técnico em ótica e mecânica, engenheiro pelo Instituto Politécnico Kharkovskyi e designer do Instituto de Pesquisa Científica em Radares, o prestigiado NIIR, aborda um diplomata norte-americano em um posto de gasolina e demanda uma audiência para exposição de assuntos confidenciais. O enviado dos Estados Unidos em Moscou recusa. Tolkachev insiste e repete a investida em fevereiro e maio de 1977. Outros funcionários do presidente Jimmy Carter vão consultados. Tudo sem retorno. Enviados estrangeiros em terras soviéticas sempre duvidaram dessas investidas. Acreditavam ser estratégia de contra-informação da KGB. Diplomatas e espiões norte-americanos tinham histórico de enganação desse tipo. E notadamente em solo soviético.

Mas a insistência de Tolkachev causou intriga. Em fevereiro de 1978 ele voltou a investir. Agora de modo ainda mais incisivo. Em lugar de pedir encontro ou solicitar contato, ele fez chegar às mãos do responsável da CIA em Moscou um documento ultra-secreto contendo informações sobre o protótipo soviético de radar look-down, shoot-down em fabricação. Após hesitação, o documento foi enviado aos Estados Unidos para verificação de autenticidade. Que logo foi comprovada. E causaria entusiasmo no Pentágono e em Langley cujas autoridades não tardariam a passar da luz vermelha à amarela e à verde o trato com o colaborador que vivia no frio.

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Adolf Tolkachev, alto funcionário desiludido, contrabandearia aos norte-americanos, entre 1978 e 1985, as mais variadas informações de alto valor estratégico do mundo soviético. Projetos militares. Projetos aeronáuticos. Projetos de radares. Os norte-americanos lhe retribuiriam com milhões de dólares e um grande portait póstumo, erguido a 11 de agosto de 2004, na sala de homenagens aos desaparecidos da CIA em Langley. Os soviéticos lhe dariam o fim reservado aos espécimes de sua iguala. A tensão Leste-Oeste caminhava para certo fim.

 

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3 comentários

  1. funcionário “desiludido”?

    Eta eufemismo para descrever um verdadeiro corrupto safado que colocava em risco uma nação de 300 milhões de pessoas e esforço conjunto por alguns milhoes de dólares no exterior.

    Só tá faltando levantar um memorial para os “coitadinhos” perseguidos pelo “ditadura soviética” que não “apreciava a liberdade”.

  2. Tantas histórias…

    Lembrei agora do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, da história de Dalton Trumbo… e tantas outras histórias parecidas Até hoje os EUA se protegem às custas de vidas de civis e do desmonte de estados nacionais que lhe são estrageiros (o nosso, por exemplo) sem o menor peso na consciência. Aliás, que consciência teriam para pesar, né?

    Se tivéssemos um comitê desses, que protegesse os interesses da nação, Sérgio Moro e Dallagnol já tinham sido pegos.

  3. Hughes

      Como veio a credibilidade em Tolkachev ?

      Em parte através da fuga para o Japão de Victor Belenko, em 1976 tripulando um Mig-25, que quando “aberto” revelou um sistema ( Smerch RP-1 ) bastante pesado, mas já com relativa capacidade LDSD, e quando recambiado para os Estados Unidos em 1977, Belenko em interrogatórios conduzidos não apenas pela CIA e DIA, afirmou que tanto o NRII como o Instituto Tikhomorov já desenvolviam um sistema bem mais efetivo que o Smerch e suas versões, o sistema ” Zaslon ” um radar PESA ( Passive Eletronic Scanned Array ) para o futuro MIG-31.

       A mesma época a Hughes, cujo pessoal tambem “entrevistou” Belenko, desenvolvia o sistema APG-70 para o F-15C, e confirmou que as informações, ainda sob desconfiança, fornecidas por Tolkachev, eram reais quando tecnicamente analisadas e algumas foram, a partir de 1982/1983 acopladas ao desenvolvimento de seus sistemas.

        O “custo” financeiro das informações fornecidas por Tolkachev, foi imenso, computado alem de sua morte em milhões de dolares, pois alem de comprometer todo os sistema Zaslon original – todos tiveram que ser modificados – ele fornceu as bases técnicas para que o Ocidente, ao final dos anos 80, identifica-se o potencial dos sistemas do SU-27 ( Tikhomirov – Phazotron N-001 Myech ).

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