O general Leônidas está de novo no caminho de Bolsonaro, por Marcelo Godoy

"Se o presidente quer saber a verdade sobre Santa Cruz, não faltam opções nas Forças Armadas"

Jornal GGN – Ao resolver contar a história do desaparecimento de Fernando Santa Cruz, militante da Ação Popular (AP) e pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, “Jair Bolsonaro não pensou no tamanho da encrenca”, escreve Marcelo Godoy, em artigo publicado nesta terça-feira (31), no Estado de S.Paulo.

“Como não leu os documentos do Exército sobre a luta armada, o presidente tem agora em seu caminho mais uma vez o general Leônidas Pires Gonçalves”, pontua.

A declaração do presidente aconteceu na segunda-feira, 29 de julho. Ao reclamar sobre a atuação da OAB, no caso Adélio Bispo, autor do atentado à faca contra ele, Bolsonaro disse que poderia explicar ao presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz, como o pai dele desapareceu na ditadura militar (1964-1985). “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”, atacou Bolsonaro.

“Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar nas conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio desaparecer no Rio de Janeiro”, completou em seguida.

Depois da repercussão negativa, Bolsonaro escreveu em uma rede social que não disse que Fernando de Santa Cruz foi morto por militares da ditadura, mas sim pela organização de esquerda Ação Popular do Rio de Janeiro, “grupo terrorista”, segundo o presidente.

O jornalista do Estado de S.Paulo aponta que, sem querer, Bolsonaro acabou se colocando “novamente” no caminho do general Leônidas Pires Gonçalves.

“Mais do que ministro do Exército de José Sarney, Leônidas foi o fiador, desde a primeira noite, do nascimento da Nova República. Ele submeteu Bolsonaro ao Conselho de Justificação que considerou o comportamento do capitão “aético e incompatível com o pundonor militar” por “mentir durante todo o processo” sobre o plano de pôr bombas nos quartéis em protesto contra os baixos salários. Era 1988. Bolsonaro – é verdade – reverteu o veredicto no Superior Tribunal Militar (STM), como o leitor viu aqui”.

“Naquele tempo, Leônidas conduzia em segredo o Projeto Orvil. Tudo começou em 27 de março de 1984, quando o tenente-coronel Romeu Antônio Ferreira, então analista do Centro de Informações do Exército (CIE), escreveu uma apreciação confidencial para os chefes: “As novas gerações de militares, atoladas na avalanche de propaganda ideológica marxista, desconhecem as lutas enfrentadas contra a guerrilha urbana e rural”. E concluía: “Há que se escrever a história verdadeira, a história dos vencedores, a nossa história. Sabemos que há muita coisa que não pode ser contada. Sabemos, entretanto, que há muita coisa que pode e deve ser contada. Temos os dados e os fatos. Falta-nos a vontade e a decisão”, completa o articulista.

Ele relembra que, dois anos depois da declaração de Antônio Ferreira, Leônidas, então ministro, deu aval para o projeto de escrever a história oficial do Exército sobre o combate aos movimentos da esquerda.

“Em 1988, o Orvil estava pronto. Tinha 953 páginas. Durante dois anos, dezenas de oficiais vasculharam os arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Mas Leônidas decidiu guardar tudo. Não queria problemas com o mundo civil. Oficiais fizeram cópias do material”, destaca Godoy completando que o Projeto Orvil foi usado como fonte para os livros escritos pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (A Verdade Sufocada) e pelo general Agnaldo Del Nero (A Grande Mentira).

Hoje, oficialmente, o Exército afirma que não guarda mais esses documentos que, segundo fontes, traz relatos de casos em que militares de organizações de esquerda foram “mortos por seus companheiros”.

“Tudo o que o Exército sabia e podia ser contado – na definição de Romeu – está na obra. E eis que o trabalho de Leônidas mais uma vez cruza o caminho de Bolsonaro: é que entre os “justiçados” do Orvil não está Santa Cruz. A versão que Bolsonaro deu para o caso nunca existiu nos arquivos militares”, destaca Godoy.

“E isso não é tudo. Os pesquisadores do Orvil omitiram o que foi feito do pai do hoje presidente da OAB. Talvez porque o destino do militante estivesse entre as coisas que, nas palavras de Romeu, não podiam ser contadas. Mas alguém contou. A Marinha, a Aeronáutica e o Dops de São Paulo o fizeram por escrito. Seus arquivos registram que Santa Cruz foi preso em 1974. O almirante Ivan da Silveira Serpa, então ministro da Marinha, consignou isso em 1993”.

Ainda na segunda-feira (29), após a declaração de Bolsonaro, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou documentos dos antigos Ministério da Aeronáutica e Ministério da Marinha. As duas organizações do Exército afirmam que Augusto de Santa Cruz Oliveira foi preso em fevereiro de 1974 por agentes da ditadura militar e, desde aquela data está desaparecido.

“Bolsonaro pode não acreditar em documentos. Talvez prefira ouvir de viva voz. Se esse for o caso, pode perguntar ao sargento Massayuki Gushiken, do Destacamento de Operações de Informações (DOI), de São Paulo, quem prendeu os integrantes da Ação Popular. Massayuki viu um deles encapuzado desembarcar de um avião em Brasília. Quem era? Pode questionar ainda o ex-sargento Marival Chaves, do CIE. Marival contou em 2004 que Santa Cruz foi apanhado em uma operação do CIE comandada pelo Doutor César”, sugere Marcelo Godoy.

“O presidente pode não conhecer quem é o tal doutor. Mas pode se informar em Brasília, onde o militar vive recluso. O doutor é da turma de 1958 da Academia Militar das Agulhas Negras. É artilheiro como Ustra. E paraquedista como Bolsonaro. Trabalhou no CIE e é coronel. Reformado”, prossegue.

“Pode também indagar o Ministério Público Federal sobre o militar. A procuradoria o ouviu por 39 minutos. Queria saber sobre a Casa da Morte (Petrópolis) e o Araguaia. Ele se negou a dar informações. Disse que no centro cuidava de “materiais eletrônicos”. E elogiou o procurador Sérgio Suyama: “O senhor é um bom interrogador”. Em 29 de maio deste ano, o MPF o acusou de decapitar Arildo Valadão, militante do PCdoB. Valadão foi morto em 1973, no Araguaia. Por fim, Bolsonaro pode bater na porta do doutor. E perguntar ao coronel também sobre Santa Cruz. Se tiver sorte, o doutor lhe conta tudo o que sabe”, concluiu.

Clique aqui para ler o artigo de Marcelo Godoy no Estado de S.Paulo na íntegra.

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