O passado perdido e o futuro dirigido, por Carlos Ernest Dias

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(Imagem ilustrativa)

Brasil, o país sem memória.

Brasil, o país do futuro.

Quais são as razões de nosso país ser lembrado através das duas frases acima?

O que se repete no Brasil não é apenas um golpe político, mas um novo e violento ataque às estruturas mentais, ideológicas, culturais, científicas e intelectuais do país, ou seja, à sua história cultural, tal como aconteceu no pós-golpe de 1964.  Mas naquela época o país não era tão dócil e anestesiado pela grande mídia como agora, por isso foi necessário matar, exilar, afastar, calar ou torturar centenas de brasileiros, e entre eles, seus principais líderes e intelectuais. Continua sendo necessário, no entanto, matar os índios e as lideranças rurais, calar os intelectuais e glorificar os militares.

Podemos dizer que o brasileiro é em sua maioria privado do entendimento da própria história, das próprias riquezas e do próprio destino. Trata-se de uma “ficção necessária” à perpetuação do poder pelas classes dominantes. O fenômeno já foi comentado por muitos historiadores e cientistas sociais ao longo dos cinco séculos que temos de história conhecida, que é a história contada através dos livros escritos pelos dominadores. Livros, história e destino desde sempre vigiados e controlados de perto pelas elites consulares, as mesmas que, desde Tomé de Souza, são posicionadas no Brasil para defender os interesses econômicos das elites europeias e norte-americanas.

E como essas elites garantem a plena realização dos objetivos econômicos? Atacando e controlando a cultura, as ideias, a informação, o saber, o lazer e a religião, que são os meios pelos quais se constroem as estruturas mentais e espirituais de um povo. Resumindo, controlando a sua história cultural e, caso “necessário”, impondo o poder militar contra o próprio povo. Um livro recentemente lançado no Brasil é um exemplo claro de como se exerce esse controle. Chama-se “A história da riqueza no Brasil”, de Jorge Caldeira. Mas será que é preciso mesmo contar a história da riqueza no Brasil? Qual riqueza? Não será esse mais um capítulo da ficção necessária?

É evidente que contar a história da riqueza no Brasil é muito diferente do que contar a história da pobreza e das privações, que é a real história vivida por 90% dos brasileiros. Essa última sempre foi evitada, deturpada ou combatida toda vez que ela começa a se sobressair, a história real e vivida pelo povo. Por isso os primeiros ministérios a serem controlados pelo golpe de 2016 foram o da Educação e o da Ciência e Tecnologia, justamente os principais impulsionadores do desenvolvimento autônomo de um país.  

Não podemos ser educados, ricos e sábios, temos que ser ignorantes, pobres e atrasados. Por isso se divulga aos quatro ventos a Base nacional comum curricular “homologada” e o ensino médio “reformado”. Homologada por quem? Reformado por quem? O que se quer ensinar através dessas reformas? Teremos uma nova “Educação Moral e Cívica”? Qual a história do golpe será contada às nossas crianças? A realidade ou a ficção?

Creio que esse seja o ponto. Quem deu o golpe não quer permitir que se conte aos mais jovens a sua verdadeira história, pois assim terão o controle da situação por mais 50 anos. Daí o controle sobre disciplinas como a do professor Luiz Felipe Miguel na UNB. Daí a “reforma educacional” iluminista e elitista feita pelo Marquês de Pombal no século XVIII, expulsando os jesuítas e destruindo a vasta rede educacional por eles construída nas principais capitais litorâneas do Brasil ao longo de duzentos anos. Daí o ataque de segmentos conservadores da Igreja católica ao Manifesto dos Educadores da Escola Nova em 1932. Daí o “extravio” dos originais da Lei de Diretrizes e Bases da Educação apresentada ao Parlamento em 1948 e somente aprovada em 1961. Daí a perseguição a Anísio Teixeira. Daí o fechamento da UNB em 1964. Daí os acordos MEC/USAID em 1966 e a “reforma universitária” de 1968.

Daí também a falsa nacionalização da infraestrutura durante os governos militares, que hoje vemos que significou na verdade, num processo de longa duração, a guarda militar das reservas brasileiras para depois entregá-las de mãos beijadas através de acordos espúrios entre elites transnacionais civis e militares, como se vê agora.  Daí a “reforma” do Estado de FHC e Bresser-Pereira nos anos 1990, quando se prepararam as universidades para a produção do conhecimento matéria-prima e as estruturas jurídicas para o regime de financeirização da economia. Daí o controle do nosso destino.

Controle da educação e da informação por um lado, controle militar por outro. E nas faixas centrais, a política, a economia e o aparelho jurídico, funcionando pragmaticamente segundo diretrizes internacionais. Todos os segmentos controlados pelas elites consulares ao longo de toda a história brasileira. A educação, a ciência e a tecnologia, aonde sempre se intervêm visando a garantir o controle do saber. As Forças Armadas, aonde não se intervém quase nunca visando a garantir o poder e os privilégios de mando, de comando e de manutenção da “ordem”, como prevê o artigo 142 da Constituição de 1988. Dupla e histórica dominação. O passado perdido e o futuro dirigido.

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6 comentários

  1. o passado….

    Se muito, a Ditadura durou uma década. Do AI 5 de 69 à Anistia de 79. Isto com Eleições Diretas entre estas datas. A partir dos anos 80, o Executivo liderado diretamente por Forças Socializantes, Progressistas, Democratas e toda a farsa que foi vendida ao País das Ilusões. Quarenta anos de Ulisses, Tamcredo, Covas, Montoro, Lula, Dirceu, Serra, Teotonio, Brizola, Arraes, Campos e todo o lixo e mediocridade produzidos em 4 décadas. E a conversa continua a mesma? A culpa é dos outros? Lá em 1964 nossos problemas….A Ditadura era corrupta e entreguista…Blá, Blá, Blá…….40 anos de Mediocres, corruptos e Incompetentes, produziu este Brasil de 2018. Não tem CENSURA que apague isto. Fatlismo e DonSebastianos não colam mais. O desespero bate à porta. Lisboa, Los Angels, Paris, Nova York lotam com a fuga dos parasitas que formaram a Elite Tupiniquim da Redemocracia. “Conheceis a Verdade. E a Verdade Vos Libertará. 

  2. Caro Zesergio
    Alem do obvio. você tem algo mais a dizer? Pois dizer que esta nação não deu certo e chover no molhado e colocar a culpa em seu povo idem. Ou a política não é reflexo do que acontece com o povo de um país?

    • caro….

      Óbvio? A Redemocratização a partir de 1979, recriou a estrutura de Estado e redesenhou um novo país. Formou uma nova espinha dorsal com a Constituição Cidadã. Alterou a quase totalidade dos Representantes Políticos. Primeiro com a avalanche do PMDB, seguindo o Progressismo dos partidos de esquerda, até chegar a quase totalidade do dominio de PPS, PSDB, PSB, PT,…Tentar aceitar e entender este Estado que manteve e ampliou a destruição do tecido social nas áreas de saúde, educação, segurança pública, industrialização, lazer, defesa nacional é uma ABERRAÇÃO.  Aceitar um Estado que em 2018 ainda aceita um golpe? Um Estado que aceita Pedrinhas e Alcaçuz? um Estado que aceita Mariana/MG? Um Estado que aceita Santa Maria/RS? Um Estado que aceita a situação secular do RJ? Este grau de analfabetismo? Que aceita este Judiciário? Que aceita rios usados como rede de esgoto?  Que aceita gastar em mordomias e privilégios, mais dinheiro que o gasto em Saúde ou Educação? Que não dá Transporte gratuito a todos alunos do Ensino ? Revolucionar isto e muito mais, agora a partir de 2018? Esta era a promessa da Redemocratização há 40 anos. Fanatismo, Fatalismo, Desculpas, Ilusões, Inocência, Falta de Representatividade, Eleições Obrigatórias,…não nos levará a lugar algum. Óbvio?  

  3. O país sem memória. O país do futuro.

    Excelente o seu texto, Carlos Ernest. Aproveito essa ocasião para fazer algumas considerações pessoais.

    O adestramento militar é método mais eficiente para construir um homem incapaz de envergonhar-se. Sem a noção de vergonha e de ridículo perde-se a humanidade, a qualidade que mais nos diferencia dos demais animais. A mediocridade do interventor militar no Rio, o general Brega Nato, transparece na sua fisionomia. Fico imaginando o cadete disciplinado debruçado nos livros da coleção Marechal Trompovsky, anotando durante anos o que leu na merda publicada pela editoria do Exército; o jovem oficial que sonha realizações pessoais, estuda tática militar, as grandes batalhas, os grandes generais. Mas a sorte reservara-lhe a humilhante missão de comandar blindados e homens armados de fuzil de guerra nas ocupações de favelas e bairros pobres; e como se não bastasse, com a enorme desonra de ser contra brasileiros como ele. Fica explicado porque o adestramento do militar anula a noção de ridículo e de vergonha. Somente um computador do CERN pode calcular a distância sideral entre o Capitão Luis Carlos Prestes e o general Brega Nato.

    Ulterior prova do resultado deformador do adestramento militar é o artigo “Porque os EUA fazem muito bem em investir nas armas nucleares” publicado na revista Politico no dia 12 de maio de 2017, assinado por dois psicopatas com patente de general, o aloprado Dave Goldfein, chefe do Estado Maior da Aeronáutica e o descabelado Robin Rand, comandante supremo do CAGA, Comando Aéreo para Global Attack. Eles escreveram:«pode parecer coisa de louco mas armas nucleares são instrumento para a paz mundial», justificando que desde o início da era nuclear, não ocorreram mais grandes guerras. —  Baback Obomba foi assinalado em 2009 com o Nobel da Paz “pela sua visão de um mundo livre de armas nucleares e o esforço empreendido em tal sentido”. Pena que foi ele que deu o ”via” ao maior programa de rearmamento nuclear desde o fim da guerra fria, que estabelece a construção de 12 novos submarinos de ataque nuclear (cada um com 24 misseis capaz de lançar até 200 ogivas nucleares), mais 6 bombardeiros estratégicos (cada um com cerca de 20 misseis ou bombas nucleares) e 400 misseis balisticos intercontinentais com base em terra, cada um com a potência de 1 googol de cabeças de negro tipo ”obama” fabricada por nazifascistas da Ucrania (googol é o número 1 acompanhado de 100 zeros).
    Um doublé do Galvão Bueno de jaleco branco chamado Hans Kristensen, da Federação dos cientistas americanos (Bulletin of Atomic Scientists, 1 marzo 2017) –  documenta chorando que «a revolucionária tecnologia de modernização das atuais forças nucleares triplica a potência destrutiva dos existentes mísseis balísticos do EUA», como se os EUA tivessem capacidade de combater e vencer uma guerra nuclear neutralizando o inimigo com um first strike de sorpresa.

    A ausência da noção de vergonha e de ridículo da classe dominante estadunidense reabriu a corrida armamentista no governo Bush; Para Dick Chaney os russos eram uns fudidos e mal pagos e a Russia não passava de um posto de gasolina. Significativa foi a recente decisão russa de empinar e deixar na moita o novo missil intercontinental, RS-Sarmat, com raio de ação de até 18000 km, capaz de transportar de 10 a 15 ogivas nucleares que retornando na atmosfera na velocidade ipersonica (superior a 10 vezes a velocidade do som), manobram para fugir dos mísseis interceptadores furando como uma peneira o «famoso escudo» dos EUA.
    Convém lembrar que apesar da deterrent nuclear a lista de ações bélicas conduzida pelos EUA depois da II Guerra Mundial é de muitas centenas com milhões de mortos. «A guerra da Coreia, Vietnã e Iraque, foram guerras não declaradas. Somente em 2013 a lista inclue ações militares em pelo menos 13 países. «Noam Chomsky repete que, no que chamam uma democracia, o que mais teme o governo aqui é justamente seu próprio povo. As revelações recentes de crimes de guerra enganos diplomáticos, como também o fato de que esse é agora o povo mais espionado do mundo e da história – e que aqueles que se atreveram a vazar tudo isso ao público são acusados de ajudar o inimigo e de serem espiões – só comprovam isso». (David Brooks, La Jornada)

    A falta de vergonha explica o escárnio do general Etchegoyen no vídeo publicado nas redes sociais onde ele diz que a reforma da Previdência é “batalha que exige coragem”.

    Foi noticia de jornal em dezembro de 2016: “Os benefícios garantidos às Forças Armadas tornaram-se alvo de polêmica porque Temer excluiu os militares da sua proposta de reforma da Previdência, prometendo discutir o assunto no futuro.”

    Publicado no Brasil247 em janeiro de 2018: ”O peso dos militares nas despesas da Previdência é cada vez mais gritante: custa 16 vezes mais do que um segurado do INSS; mesmo tendo um peso maior nos cofres públicos; apesar disso, militares estão fora do plano de reforma da Previdência do governo Temer. Os militares brasileiros têm uma aposentadoria para lá de generosa também em comparação com outros lugares do mundo, como Estados Unidos, Reino Unido e Portugal, revela levantamento; no Brasil, as regras atuais permitem que militares homens se aposentem com salário integral após 30 anos de serviços prestados; para as mulheres, bastam 25 anos; com o mesmo tempo de serviço, os EUA dão aos militares 60% do salário, o Reino Unido paga 43%, e Portugal, até 83%, independentemente do gênero, e se atenderem também a outros requisitos.”

    O general Eduardo Vaselinas Bôas entrevistado recentemente pela BBC declarou que as FFAA continuam as mesmas de 1964, com os mesmos valores, os mesmos princípios, os mesmos objetivos. Os objetivos em 2016 foram expulsar as forças populares dos circuitos de poder, destruir um projeto de Pais, desmoralizar o Brasil, esculhambar com o Estado de direito, destruir a capacidade engenheristica brasileira, destruir a Petrobras, privatizar ensino, saude, cancelar programas sociais, garantir o saqueio das nossas fontes de matéria-prima, etc., tudo isso com o aval das FFAA. De fato, os militares de hoje são os mesmos até no uso de armamento militar contra o ”inimigo interno” (o povo brasileiro); as Forças Armadas no conjunto foram mais uma vez humilhadas e rebaixadas à condição de traidoras e garantes da maior regressão social e econômica do Brasil que a nossa memória conheça. Fazem treinamento de guerra nas favelas e bairros de periferia, onde vive a massa indesejada de brasileiros pobres, impedidos de constituirem-se numa coletividade social do trabalho. Qualquer tentativa de rebelião será uma boa ocasião para eliminá-los de vez. O interventor general Brega Nato, quer entrar para a história como o general italiano Fiorenzo Bava Beccaris que no dia 7 de maio de 1898, em Milão, deu ordem de atirar com canhão contra manifestantes desarmados que pediam com firmeza para o governo abaixar o preço do pão. Foram horrendamente destroçadas mais de 80 pessoas entre homens, mulheres e crianças (em 1901 o pintor italiano Pelizza da Volpedo termina a famosa tela “O Quarto Estado”).
    Como bem escreveu um colunista do blog Carta Maior, as mesmas forças e o mesmo linguajar que levaram Vargas ao suicídio e violentaram a democracia em 64, voltaram a golpear o esforço progressista de retomar a construção interrompida de um Brasil mais justo e soberano.
    As declarações do general Eduardo Vaselinas Bôas ao jornal Falha de S.Paulo em julho do ano passado, não passou de vassalagem doutrinária. Disse ele: «Existe no Brasil uma excessiva compreensão com direitos e uma enorme negligência com deveres. O princípio da autoridade deve ser fortalecido e o sentido de disciplina social deve ser recuperado». O lesa-pátria Roberto Campos também insistia nisso. A versão do general é plágio do Powell Memorandum, enviado à Camera de Comércio dos EUA pelo juiz Lewis F. Powell, Jr., para acomunar republicanos e democráticos no combate à tendência democratizante da sociedade (excess of democracy). 

    Veja sobre isso em  –     https://www.youtube.com/watch?v=eygAlutORMk     –   a partir do ponto 13:00

    Outra boutade desse general: «é chegada a hora de consentir que o período que engloba 1964 é história e assim deve ser percebido». O mentor do general Vaselinas Bôas é Samuel Huntington, um cientista político estadunidense que teve grande influência durante o período da ditadura militar durante o processo de redemocratização. Em relatório para o governo da época Huntington afirmava que os militares precisavam controlar o processo de transição para que não parecesse derrotados pelos demais movimentos que pediam a volta da democracia. Huntington defendia a tese que somente instituições autoritárias podem conduzir as mudanças sociais.

    Nada disso general, essa página não foi ainda virada. Gerações de brasileiros não perdoaram a chantagem: ou o país aceitava a anistia ou os decendentes da ala golpista chamada eufemisticamente “Democrática” continuariam a barbarizá-lo. Foi e continua sendo cagaço, muita covardia e esperteza jurídica dos golpistas para nivelar os torturadores aos torturados, consagrando a impunidade. Isso ficou claro na entrevista para a BBC (as FFAA continuam as mesmas de 1964, com os mesmos valores, os mesmos princípios, os mesmos objetivos) tanto é que o general Pires declarou também à Folha de S. Paulo em agosto de 1981, que os militares estão acima dos poderes do Estado e em outubro de 2004, o Centro de Comunicação Social do Exército publicou nota no Correio Braziliense justificando a tortura de prisioneiros políticos durante a ditadura e Lula sacrificou um seu ministro, para não destituir o calhorda então comandante do Exército, o indigno Francisco Albuquerque (no dia 1º de março de 2006 esse fascista demonstrou platealmente o que significa abuso de poder: mandou parar um avião na cabeceira da pista no aeroporto de Campinas para retirar dois passageiros e embarcar, com sua mulher, no lugar deles.

    • Corações e mentes
      Prezado Eliseu, obrigado pelo comentário, ele é muito rico em informações dos meios militares que eu estou longe de possuir. Me fez visitar e ler o seu artigo “Abraçar corações e mentes” de 09/07/2016, no qual se criou ampla discussão sobre o tema, com a inevitável presença de alguém chamado zésergio, que só entra aqui para defender os EUA e falar mal do Brasil. Basta escrever algumas idéias mais profundas e verdadeiras sobre as relações Brasil X EUA para ele entrar desqualificando-as e tentando diminuir os autores.
      Mas o que me interessa é o que você escreveu, usando fontes importantíssimas como Chomsky e Moniz Bandeira. O adestramento das forças armadas brasileiras pelos EUA e o nível de privilégios que elas têm no orçamento do país salta aos olhos. Jamais alcançaremos progressos significativos enquanto isso não mudar.
      Da mesma forma a questão cultural. As culturas brasileiras (os corações) mesmo jamais serão adestradas por norte-americanos nem por qualquer outro povo, mas a educação e a produção intelectual (as mentes) encontram-se em grande parte dominadas por “reformas” e sistemas pernósticos de publicação de artigos, sem falar no não uso e não aprofundamento pelas universidades de obras de grandes brasileiros como o Moniz, o Darcy e tantos outros.
      Os que nos acusam de passadistas são os mesmos que combatem o nosso passado, pois como disse o George Orwell, quem controla o passado, controla o futuro, não é mesmo?

      • Orwell estava correto

        Prezado Ernest,

        Minhas fontes são os blogs, as análises políticas da semana e as palestras do PCO. Autores como Moniz Bandeira, Nelson Werneck Sodré e João Quartim de Moraes, são obrigatórios. Para reconduzir a inteligência dos nossos militares ao serviço dos Brasil é preciso rever o ensino das escolas militares para que eles conheçam a história como ela é, respeitem o próprio povo e os povos vizinhos, as instituições e defendam — inflexíveis — a soberania do Brasil.

        Os trabalhadores devem estudar história. As classes dominantes reconstroem incessantemente o passado para justificar sua dominação no presente. A questão Educação é fundamental. Anos atrás, uma leitora do blog Cidadania denunciou o problema:«o PT e demais partidos do seu espectro não podem ignorar a colonização da educação brasileira por grandes grupos do capital financeiro que chegam a interferir nas políticas públicas, inclusive da educação de base! É uma dominação por dentro, nas entranhas, colonizando jovens. Um deles é o “Todos pela Educação” com parceria da Globo, Victor Civita, etc., capitaneado por Itaú, Bradesco, Santander, Gerdau (irmãos Koch), Vale, Jorge Paulo Lemann, Telefonica . O gigante Kroton, empresa de proporções sem precedentes, a maior do mundo”: 120 campi, 600 operações de ensino a distância, cobertura de 500 cidades em todos os estados brasileiros. Não sei se o governo pode barrar ou controlar isso, mas se pode, não sei como não o fez.»

        E passou esses links:

        Entrevista do reitor da UFRJ  http://www.mst.org.br/2015/07/01/grandes-grupos-economicos-estao-ditando-a-formacao-de-criancas-e-jovens-brasileiros.html?fb_ref=Default

        http://www.viomundo.com.br/denuncias/namarianews-liga-de-editoras-questiona-paulo-renato-de-souza.html – escândalo da compra de edições escolares em São Paulo.
        No Viomundo, há outro artigo sobre a promiscuidade Abril/Globo e educação – “Grupo da USP denuncia Abril, Globo e projeto tucano de censura a professores” – http://www.viomundo.com.br/denuncias/grupo-da-usp-denuncia-abril-globo-e-projeto-tucano-de-censura-a-professores-brasileiros.html

        Nos anos ’90, representantes das elites globais reuniram-se nos EUA para discutir o estado do mundo e concluíram que o trabalho de cerca 20 por cento da população bastaria para sustentar a economia mundial; os 80 restantes deveriam desaparecer  —  «Essa análise cínica e malvada define com clareza o rol de mudanças às quais a escola deve atender no século 21», escrevera Jean-Claude Michéa em “Sobre ensinar ignorância e as condições modernas do processo”, em 1999.  —  O programa deles é manter ativo apenas um percentual mínimo de seres nolitivos, sem mobilidade social e sem formação humanistica (analítica, filosófica, política, crítica) mas bem adestrado ao serviço das elites globais. Esse programa não é novidade mas agravou-se nos últimos 30 anos. Colossos como Google, Apple, Adobe, Micrososft, Facebook são os novos protagonistas desse programa de controle e domínio capilar. E’ a luta de classes 5.0

        Anos atrás, o jornalista que entrevistava o diretor cinematográfico Claude Chabrol observou que ele continuava dando ressalto à burguesia. Ele respondeu: «na França é a única classe social que se afirma como tal fazendo muita atenção em manter o seu estatuto. Quem está às margens procura uniformar-se copiando-lhe o egoismo, o modo de vestir, de falar e o tom de voz. Outra coisa é a alta burguesia francesa que hoje tende sobretudo à crueldade para com os outros. Vȇ-se no modo de empossar-se da economia e da vida do país, que não era possível vinte ou trinta anos atrás. Naquela época se ao poder fosse a direita ou a esquerda as diferenças eram mínimas. Hoje, o pessoal da direita não quer saber o quanto seja insuportável a vida para todos aqueles que não fazem parte do club deles. Coisa que naturalmente cria tensões.»

        Tribunais, falta de escolas, polícia, drogas, desemprego endêmico, subemprego, sistema carcerário – tudo sempre conspirou para assegurar que o pobre permaneça pobre e doente. Droga, crime, promiscuidade, precariedade, família em desintegração é planificado por quem governa. Tire todas as oportunidades, preencha a vida do pobre com desespero e desesperança e o resultado será o mesmo, entre brancos e negros.  —  «Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É – permitam-me dizer – por falta de recursos políticos e, algumas vezes, de clareza de ideias» (Dilma Rousseff, abertura do Debate Geral da 66ª Assembleia Geral da ONU – NY/EUA, 21 de setembro de 2011

        Pra quem não leu: http://blogdoalok.blogspot.it/2015/10/o-mito-do-republicano-moderado.html  traduzido pelo Vila Vudu.

        Em abril de 2014, o Carta Maior publicou o artigo ”Reflexos da ditadura na educação impedem país de avançar”: «Nocivos e profundos que até hoje, 30 anos após o início da redemocratização, impedem o país de alavancar a qualidade e democratizar o acesso. Os especialistas apontam as heranças da ditadura militar como responsáveis pela má qualidade da educação pública e a falta de acesso a ela a cerca de 14 milhões de analfabetos, além de número maior ainda de analfabetos funcionais.
        A ditadura pôs fim ao ambiente de otimismo pedagógico dos educadores brasileiros com o avanço da educação popular e emancipatória já nos primeiros dias após o golpe. Em 14 de abril de 1964, um dia antes do ditador Castelo Branco assumir, foi extinto o Programa Nacional de Alfabetização, que vinha sendo implantado e seria inaugurado oficialmente em maio. Na sequência, vieram as reformas que arrasaram com o modelo de educação brasileira. “Estamos formando gerações sem discutir que país queremos”, repetia Paulo Freire. “A educação que não é emancipadora faz com que o oprimido queira se transformar em opressor”, insistia. O sociólogo Emir Sader, lembrou que a escola pública era um espaço de convivência entre a classe pobre e a classe média, um espaço de socialização.
        Sadir Dal Rosso, professor da Universidade de Brasília, abordou o impacto da ditadura na universidade e na construção do pensamento brasileiro. «O controle das administrações, demissão e expurgo de professores que discordavam, os assassinatos de estudantes e a implantação de serviços de informação causaram danos imensuráveis ao país, que ainda precisam ser investigados e punidos.»
        Rubens Ricupero, Falha de S.Paulo, 31/3/2014: «O que me impressionou foi a intimidade que se criou entre funcionários do embaixador Lincoln Gordon e a equipe tecnocrática dirigida por Roberto Campos. Chegava-se à ingenuidade de discutir em telegrama qual seria o salário das professoras primárias.»
         
        «O antiesquerdismo alucinatório que joga bomba e folheto em funeral, é fruto de da transição democrática não resolvida» disse um psicanalista entrevistado pelo O Cafezinho. O empresário sem compromisso com o Brasil foi e continua sendo parte indivisível da junta militar que brutalizou e continua brutalizando o Brasil. Eles mesmos declararam que são os mesmos de 1964: as manobras do Castelo Branco e do vampirão são iguais; são iguais as malas de dinheiro do general Kruel e do Gedel (a Fiesp comprou o general Amaury Kruel para que ele traísse Goulart. Ele aceitou US$ 1,2 milhão, foi para a reserva e virou fazendeiro na Bahia da noite pro dia. Castelo Branco que sonhava uma chácara em Prepúcio do Rocha não teve a mesma sorte. O Kruel quando era coronel recebia ordens diretas do CAPITÃO dos EUA Edgard Bundy na auditoria incumbida de julgar oficiais comunistas da FAB (para Bundy, comunistas eram todos aqueles que defendiam os interesses do Brasil e se opunham aos interesses dos EUA).

        Eles continuam ativos. Veja o Delfin Netto; safou-se da cadeia, hoje é colunista da Carta Igienica Capital, aparece nas capas de revista, ganha bem como palestrante; ele era conhecido em Paris como “l’ambassadeur veint per cent” (o adido militar da época enviou relatórios sobre as bandalheiras naquela embaixada); envolvido nos escândalos do Coroa Brastel e desvio de recursos públicos, etc. Delfin estava em todas. Naquela época ninguém gastava nada e todos se divertiam muito, à custa do povo. Das suntuosas casas no Lago Paranoá, todas com piscina, aos comes-e-bebes importados, garçons e criados, carros e motoristas, aviões para os convidados, tudo pago pelo governo. Na casa do Shigeaki Ueki, a piscina era térmica. Na do ministro Arnaldo Prieto a criadagem fixa era de 28 pessoas. O secretário de Imprensa da Presidência da República, Humberto Esmeralda, e o diretor-geral do DASP, coronel Darcy Siqueira, continuaram ganhando altos salários da Petrobrás, assim como todo o pessoal da Petrobrás que acompanhou o Geisel para o Planalto. Golbery e Geisel, mesmo no governo, continuaram recebendo salários das multinacionais onde trabalharam, para continuarem prestando serviço a elas.

        “Ardil-22” é expressão cunhada pelo escritor Joseph Heller, título do romance Catch- 22, de 1961 – para designar situações que apresentam a ilusão de escolha ao mesmo tempo em que impedem qualquer escolha real. Do livro, em  http://pt.wikipedia.org/wiki/Catch-22: “Só havia um regulamento, o Ardil-22, que dizia que a preocupação com a própria segurança, em face de perigos reais e imediatos, é conclusão racional de mente racional.

        “Caceta-Six-four” é o devaneio paradoxal do general Villas Boas: «As FFAA continuam as mesmas de 1964. O período que engloba 1964 é história e assim deve ser percebido.»
        «As mordidas eram mordidas humanas. Ela estava muito machucada… Eu creio que foi asfixia. O corpo sangrava. Estava estourada por dentro. O marido, Wilson Silva, estava sem as unhas da mão, todo arrebentado. Todos os cadáveres que eu recebi eram seminus. Porque as pessoas eram torturadas nuas, pau de arara era nu. As torturas ali de choque, nos órgãos genitais, muitos foram até castrados. Eram seminus, todos eles…  O caso de Capistrano ele não estava todo esquartejado não. Ele estava com o braço direito decepado. Tinham arrancado o braço dele. Os outros, na maioria eram fraturas expostas ao longo do corpo, com os ossos aparecendo.» (Claudio Guerra, entrevista).
         
        «São mulheres de diferentes cidades do Brasil. Algumas amamentavam. Outras, grávidas, pariram na prisão ou, com a violência sofrida, abortaram. Não mereciam o inferno pelo qual passaram, ainda que fossem bandidas e pistoleiras. Não eram. Eram estudantes, professoras, jornalistas, médicas, assistentes sociais, bancárias, donas de casa. Quase todas militantes, inconformadas com a ditadura militar que em 1964 derrubou o presidente eleito. As histórias de 45 dessas mulheres mortas ou desaparecidas estão contadas no livro “Luta, Substantivo Feminino”. A lembrança de crimes tão monstruosos contra a maternidade, contra a mulher, contra a dignidade feminina, contra a vida, é dolorosa também para quem escreve e para quem lê. (Professor José Ribamar Bessa Freire).

        «Maria Auxiliadora Lara Barcellos atirou-se nos trilhos de um trem na estação de metrô Charlottenburg, em Berlim… tinha sido presa 7 anos antes, em 1969, no Brasil. Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi submetida.» (Urariano Motta)

        Sobre a barbárie das FFAA, impressionou-me o que vi aqui no GGN com o titulo “Aconteceu no Brasil em um 7 de setembro”. A foto do desfile é digna dos momentos mais escabrosos da “santa” inquisição.  «Em 07.09.1970, em Belo Horizonte (MG), o Exército desfilou comemorando a formação da primeira turma do curso de ”Guarda Rural Indígena” formada por índios que se deixaram treinar para coibir rebeldes no campo, se preciso, torturando pessoas. É lógico que a iniciativa não foi adiante entre os índios e a prática de torturar seres vivos seguiu sendo uma demonstração de capacidade do chamado ”homem branco”. Contudo, esse registro demonstra o quanto a população indígena foi mais uma vez violada e invadida por quem queria lhes impor outros modos e outros lugares de vida.» (Eugênia Augusta Gonzaga)  http://jornalggn.com.br/noticia/aconteceu-no-brasil-em-um-7-de-setembro-por-eugenia-augusta-gonzaga

        Minha proposta para o dia 7 de setembro:
        Abram o desfile apenas as mulheres brasileiras e sem qualquer distinção social. Jovens e crianças fechem o desfile. Militares desarmados façam o cordão de isolamento. No palanque, representantes dos trabalhadores e demais autoridades. Chuva de papel picado com toda a merda publicada até 2018 por todos os envolvidos com a “velha guarda”militar. Confraternização com as mais famosas bandas militares, convidadas para o evento.
         

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