Os 50 anos de Brasília

Do Valor

Cidade de gente bem e de elite ruim

Maria Inês Nassif
22/04/2010

Quando cheguei a Brasília, em 1980, era jovem demais e tinha ressentimentos demais com o ditador que se instalara na Praça dos Três Poderes para considerar a cidade bonita. Fui descobrir alguns meses depois, no pico da seca, que era deslumbrante ver o céu avermelhar – uma expressão da ira dos deuses com os homens que usavam botas? -, invadir o azul límpido acima dele e, no chão, envolver com paixão as lúcidas curvas de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Pensei comigo, com desprezo: “Brasília deveria ter sido construída no céu”. Começava a aceitar aquele lugar, mas como representação de um feito do homem e como um reconhecimento de seu espaço natural – não, todavia, como espaço geográfico que homens e mulheres de bem eram obrigados a dividir com pessoas que usurparam a democracia.

Não precisou mais tempo para que eu entendesse que Brasília, como qualquer outro espaço urbano, era também lugar de convivência de contrários, de costura de laços afetivos, de conhecimento, de cultura. Hoje, sei: Brasília é deslumbrantemente bonita, a despeito da elite local que retalhou, dividiu entre si e fez especulação imobiliária em terras públicas daquele patrimônio da humanidade. Essa elite não merece Brasília. Sei também: Brasília é uma cidade de homens bons, que tecem sólidas relações afetivas, tentam domar aquele solo urbano monumental para torná-lo depositário de suas histórias individuais, têm orgulho daquele rincão que resistiu aos homens que usurparam a ditadura do país. Essas pessoas de bem também vão se orgulhar, no futuro, de terem livrado Brasília da elite que sobreveio aos militares e hoje a usurpa.

Quando cheguei a Brasília, há 30 anos, fui direto ao Plano Piloto e tive a sensação de que a capital federal era uma grande Cidade Universitária – uma USP que não acabava mais. Era como se cada prédio fosse uma cidade, isolado em si mesmo e isolando iguais – ilhas de especialidade e de convivência social. Meses depois, não podia deixar de vê-la como a síntese absoluta do Brasil. O cidadão vinha de fora e trazia para as asas do Plano Piloto a sua contribuição para o sotaque que hoje existe – e hoje, eu me pergunto, esse sotaque é mais nordestino, nortista, carioca, mineiro ou paulista? E concluo, com prazer: são todos ao mesmo tempo. Trouxeram também das várias partes do Brasil a sua contribuição culinária. Lá em Brasília, incorporei ao meu vocabulário palavras que jamais saberia que existiam.

Se tivesse continuado na região Sudeste, jamais teria conhecido, convivido e sido parte daquele pedaço de chão que Dom Bosco jurou que tinha potencial para resgatar o Brasil. Aliás, não teria conhecido também muitas seitas, religiões e coisas semelhantes que para lá convergiram com a convicção de que era uma terra mágica, capaz também de fazer uma síntese de astrais, crenças, fluidos e, com essa ajuda espiritual, homens e mulheres capazes de fazer um futuro menos egoísta e mais espiritual.

Talvez não conseguisse entender concretamente o Brasil, sem ter morado e trabalhado em Brasília. A repórter do Sudeste que chegou lá – com a firme intenção de assistir e reportar o fim da ditadura, direto da Praça dos Três Poderes – entendeu de cara o “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal, quando começou a percorrer aqueles imensos corredores do Congresso Nacional e a conhecer os parlamentares que vinham do mundaréu de Deus, onde mandavam em gente, e chegavam no mundão dos generais, onde obedeciam. Muitos deles deviam se deslumbrar com Brasília porque, olhada pela ótica do pequeno mundo de vários deles, era uma metrópole: muito mais do que conheciam em seus Estados de origem.

Era o mapa do Brasil que convivia entre as duas cuias, a côncava e a convexa, do Congresso Nacional. A repórter que vinha de São Paulo via desfilar, entre os salões Azul e Verde, um Brasil que era infinitamente mais rico e diversificado que a avenida Paulista: Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Minas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul… Fora do trabalho, as histórias de grandes amizades incluíam conhecer, mesmo que apenas de relatos, a vida de lugares distantes que, até então, estavam apenas nos livros de geografia.

Quando cheguei em Brasília, outros chegavam também, do país inteiro. Todos estavam muito longe de suas famílias. Construíamos as nossas, sob rigorosos critérios de afinidade. Nos fins de semana, reuníamos os amigos. Nossos filhos – os meus, quando os tive, e dos meus amigos que escolhi como irmãos – adotaram tios, primos e até avós. Deixei por lá irmãos e sobrinhos eletivos, cada um de um canto do Brasil.

Brasília foi, para mim, a prova de que o território tem uma vida própria – é gente, terra, intervenção urbana, opções, ar seco, água, céu e tantas coisas. Inclusive a política.

Eu morei em Brasília. Como queria, reportei o fim da ditadura. Eu vi o medo, estado de emergência, ocupação da Esplanada dos Ministérios por tropas. Assisti à história, direto da Praça dos Três Poderes. Vi como a desesperança da rejeição da emenda das diretas pelo Congresso foi substituída pela articulação para a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Assisti ao grande embate nacional travado na Assembleia Nacional Constituinte, em 1988. Foi lá que vi a tenra democracia brasileira ser tecida, fibra por fibra.

Quando deixei Brasília, em 1991, a cidade vivia a prepotência do governo sob Fernando Collor de Mello. Era uma desesperança. O clima foi tomado por novos atores que, na cidade, compravam e vendiam como se tivessem tomando posse de terra conquistada. Perdi de assistir, como observadora da história, ao impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto. Tem muita coisa que perdi e que, hoje acho, assistiria com desalento: à CPI do Orçamento, ao escândalo da compra de votos para aprovação da reeleição, ao escândalo do mensalão e ao escândalo do governo do GDF. Mas, fico pensando comigo: como culpar Brasília por isso? Brasília é o espaço deslumbrante que conversa com um céu límpido, no meio de um cerrado que verdeja à primeira chuva, depois de meses sem uma gota de água. Brasília é lugar de gente de bem que ocupa território, procria, faz amigos, cria laços de família. E a Brasília política nada mais é do que a síntese do Brasil. E cumpre a missão de superação que foi atribuída a ela por Dom Bosco.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

E-mail: [email protected]

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