Relato em defesa de Amílcar Lobo

Folha de S.Paulo

MINHA HISTÓRIA MARIA HELENA GOMES DE SOUZA

Meu marido não foi torturador

(…) Se meu marido tivesse sido conivente, hoje seria viúva de general. Vivo com pensão de R$ 829. Foi o que me deixou

CRISTINA GRILLO
DO RIO

RESUMO A casa modesta, com paredes descascadas, fica na zona norte. De lá Maria Helena Gomes de Souza defende o marido, o médico Amílcar Lobo, morto em 1997 aos 58 anos. Entre 1970 e 1974 ele atestava se os presos podiam continuar a ser torturados. Maria Helena diz que o crime do marido foi a omissão: “Ou Amílcar fazia ou ia ser torturado. Peço perdão por meu marido não ter tido coragem”.

Quando a Comissão da Verdade foi criada, pedi à minha filha que se preparasse porque surgiriam histórias negativas sobre o pai dela. Quando ele morreu [em 1997], Alessandra tinha 5 anos. O primeiro impacto veio em uma aula na faculdade. A professora levou um artigo para discussão no qual se chamava Amílcar de torturador. Ela saiu da sala chorando, queria abandonar a matéria. Disse a ela que não adiantava fugir. “Você vai ter que enfrentar e dizer que é filha de Amílcar Lobo.”

Algum tempo depois houve uma audiência da Comissão da Verdade na faculdade, e ela me pediu que fosse porque não se sentia em condições de defender o pai. A questão não é defender, é se posicionar diante dos fatos. Quando Amílcar escreveu o livro [“A Hora do Lobo, a Hora do Carneiro”, 1989], queria expiar sua culpa. Antes de morrer ele disse: “A única coisa que você tem de herança é continuar minha luta para expiar minha culpa. Não posso carregar toda a responsabilidade, mas não deixe de assumir a minha culpa”.

Em 2002 entrei com um pedido de indenização na Comissão de Anistia. Foi uma audácia. A esquerda ficou uma fera comigo, mas sou uma perseguida política até hoje. Já perdi vários empregos por ser a mulher e depois a viúva de Amílcar Lobo. O processo está parado. Ninguém diz não, mas também não dizem sim. Ninguém é hostil, mas o silêncio dói mais do que a hostilidade. Se não tenho direito, que me digam isso. O processo ficou parado de 2008 até 2012. Escrevi para a presidente Dilma: “A sra.diz que precisou se calar para sobreviver, meu marido também, e sou punida por isso”. Aí o processo andou um pouquinho, e voltou a parar.

Conheci Amílcar quando fui trabalhar como sua secretária no consultório em Copacabana [em 1974]. Tinha 14 anos. Começamos a namorar quando eu já tinha 21 anos.

Lembro o dia em que fiquei deslumbrada quando o general Sylvio Frota apareceu no consultório. Achei fantástico o Amílcar ser visitado por alguém tão importante.

Ele foi lá porque Amílcar queria dar baixa do Exército. Para ficar na ativa, precisava fazer uma prova. Faltou porque queria sair. Mas ele tinha visto demais, ouvido demais, para o Exército deixá-lo ir. Amílcar atendia um paciente quando Frota entrou mandando que eu interrompesse a sessão. Expliquei que não podia, era um consultório de psicanálise. “Você sabe com quem está falando?”. Respondi: general Sylvio Frota.

Quando o paciente saiu, Frota entrou gritando: “Você faltou à prova, eu disse que não faltasse, que você tinha que se manter no Exército, você vai se arrepender amargamente”. Amílcar foi inflexível: “Eu não vou, general”. “Então arque com as consequências dos seus atos”, respondeu Frota aos berros.

Se meu marido tivesse sido conivente e obedecido a ordem do Frota, hoje eu seria viúva de general. Estou desempregada e vivo com pensão de R$ 829. Foi o que Amílcar me deixou. Minha filha recebe R$ 900 em um estágio. É assim que vivemos. E ainda tenho que ouvir que sou a viúva do torturador?

Uma vez estava em uma festinha infantil com Alessandra e ouvi uma mãe dizer ao filho: “Sai de perto que ela é filha do lobo mau”. Quando minha filha disse que não tinha condições de defender o pai, eu resolvi que isso ia ter um fim. A Comissão da Verdade vai ter que me ouvir. Amílcar foi conivente com a tortura? Foi. Está na hora de assumirmos nossos papéis.

Outro dia conversei com Cid Benjamin. Tinha uma imagem horrível dele, gritando no dia do julgamento do Amílcar que tinha levado 17 pontos na cabeça sem anestesia. Pedi desculpas a ele, mas queria que ele entendesse que, quando o Amílcar foi chamado na frente de todos aqueles oficiais, ou fazia ou ia ser torturado como ele.

Não aceito a responsabilidade ser colocada somente nele. Quando se fala em tortura, em médicos, se fala em Amílcar Lobo. Por que só ele? Por isso eu quero tanto ir à Comissão da Verdade. Está na hora de chegar lá e dizer que Amílcar atendeu fulano, viu sicrano ser morto. Enquanto ficarmos nessa conversa de que o Exército não torturou, não vamos sair do lugar. Eu continuo sendo apontada como a viúva do torturador.

Tive noção exata de toda a história dele quando o consultório foi invadido por Inês Etienne Romeu e outros ex-presos políticos [em 1981]. Ele era uma pessoa boa de se lidar, foi aluno do São Bento, era muito culto, o que me fazia ter dificuldade de associá-lo à figura de um torturador.

Ele entrou para o Exército em 1970, quando terminou a Faculdade de Medicina, para cumprir o serviço militar obrigatório. Contava que tinha ficado feliz porque ia servir no quartel da Polícia do Exército –era perto da casa dele.

Quando Inês o descobriu, Amílcar foi chamado pelo Exército. Em um encontro com o general Walter Pires ouviu que, se falasse sobre o que tinha visto, ia comprometer toda a abertura política. Amílcar se sentiu sozinho, com muito medo e começou a achar que seria morto pelo Exército. Algum tempo depois ele voltava do Rio para Vassouras de moto quando achou que um Opala o seguia. Parou na porta de uma delegacia e esperou o carro passar. Mais adiante, o Opala saiu do acostamento e freou na frente dele. Amílcar caiu e só não morreu porque o caminhoneiro que vinha atrás conseguiu parar. No hospital apareceu um homem. Amílcar o reconheceu como alguém do Exército e teve a certeza de que tentaram matá-lo.

Depois ele ainda tentou voltar a clinicar no Rio. Veio o segundo atentado. Ele chegava para trabalhar quando homens anunciaram um assalto e entraram no consultório. Cortaram o fio do telefone, o amarraram e deram uma injeção. Fizeram com ele o que tinham feito com o Baumgarten. Baumgarten morreu. Amílcar ficou com uma sequela cardíaca que o levou à morte anos depois.

Amílcar tentou de várias formas fazer terapia, mas ninguém o aceitava. Ficou sozinho. A primeira denúncia dele foi feita contra a minha vontade. Pedi para ele para não mexer com o caso Rubens Paiva. Estávamos esquecidos. Eu fazia o curso normal, vivíamos com o que produzíamos no sítio. Um dia ele veio ao Rio sozinho e fez a denúncia à “Veja” [em 1986]. O Conselho Regional de Medicina abriu processo contra ele, que acabou perdendo o registro profissional. Perdemos o sítio, perdemos tudo. Tivemos que voltar para o Rio, para essa casa que meu pai me emprestou. Passei muitas situações difíceis. Perdi empregos por ser casada com ele. Estou desempregada há um ano. Já paguei minha conta, mais do que deveria. Quero colocar um ponto final nessa história para que minha filha não continue a ler que a última pessoa que viu o deputado Rubens Paiva foi o torturador Amílcar Lobo. Ele não foi um torturador. Amílcar era o médico que atendia os torturados, sim, mas não era o responsável pela tortura. Foi omisso? Foi, porque não tinha para quem pedir ajuda. A esquerda queria punir alguém. Dou razão a eles, mas puniram a pessoa errada.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador