Escola que acolhe alunos vulneráveis corre o risco de fechamento

Jornal GGN – Uma escola em Porto Alegre com uma proposta diferenciada, de oferecer educação e abrigo para crianças, adolescentes e adultos em situação de vulnerabilidade social, corre o risco de ser fechada. A instituição fica em um prédio cedido pela Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (FASE), que agora tem verba para reformas e quer o edifício de volta.

A situação é complicada. De um lado um projeto que ajuda uma população carente do entorno. De outro, a possibilidade de criar um espaço para oferecer cursos profissionalizantes para jovens cumprindo medidas socioeducativas. Para piorar caso as verbas adquiridas, que vêm do governo federal, não sejam usadas logo, a administração corre o risco de perdê-las.

De acordo com a Coordenadoria Regional de Educação, é necessário olhar para os dois lados do problema. “A ideia é transformar aquele prédio em espaço para oficinas, que são em parceria com Sebrae, Senac. Os meninos da FASE quando forem liberados, antes de irem para casa ou para a rua, vão poder fazer essas oficinas. E assim vão poder sair de lá encaminhados, para evitar que retornem”, disse a coordenadora, Jurema Garzella.

“A questão é: o que fazer com o

s nossos alunos? E, ao mesmo tempo, não deixar mal a FASE porque podem perder o dinheiro e é por uma causa nobre”.

Do Sul 21

Escola estadual que acolhe alunos em vulnerabilidade social está ameaçada de fechamento

Débora Fogliatto

Com uma proposta diferenciada, a Escola Aberta Estadual de Ensino Fundamental Vila Cruzeiro do Sul tem como estudantes crianças, adolescentes e adultos em situação de vulnerabilidade social. São jovens em situação de abrigagem amparados pelo Ministério Público, em situação de rua, papeleiros, egressos da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (FASE), entre outros. A instituição é localizada em um prédio cedido pela FASE há 30 anos, mas, agora, a Fundação conseguiu verbas para reformas e quer o edifício de volta.

A situação colocou em terreno complicado as secretarias de Segurança Pública e Educação: ao mesmo tempo em que consideram que o trabalho da escola deve ser valorizado, a FASE pretende colocar ali cursos profissionalizantes para os jovens que cumprem medida socioeducativa. Caso as verbas adquiridas, que vêm do governo federal, não sejam usadas logo pela administração, corre-se o risco de perdê-las.

A coordenadora da primeira Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Jurema Garzella, afirma que é necessário olhar os dois lados do problema. “A ideia é transformar aquele prédio em espaço para oficinas, que são em parceria com Sebrae, Senac. Os meninos da FASE quando forem liberados, antes de irem para casa ou para a rua, vão poder fazer essas oficinas. E assim vão poder sair de lá encaminhados, para evitar que retornem”, explica. Para ela, a proposta deve ser apoiada por educadores por fornecer uma alternativa para esses jovens. “A questão é: o que fazer com os nossos alunos? E, ao mesmo tempo, não deixar mal a FASE porque podem perder o dinheiro e é por uma causa nobre”, questiona.

Jurema garante que a CRE já está visitando escolas no entorno para avaliar a possibilidade de ceder espaços para que a instituição possa continuar existindo em outro local. “A nós cabe verificar a situação atual da escola, o espaço necessário para ver onde podemos colocar. E passar para a Seduc, que é nossa mantenedora, toda a realidade, para decidir como será feito. Temos que pensar no social como um todo e fazer o melhor, tanto pelos da escola quanto pelos da FASE”, acredita ela.

A questão é mais complexa por se tratar de uma escola aberta, que funciona em turno integral e tem aula de janeiro a janeiro. “Estamos fazendo essa pesquisa para ver que tipo de aprendizagem elas estão tendo e se estão sendo atendidas na totalidade que precisam. Percebi que existe bastante preocupação, até por isso temos que ter muito cuidado. Queremos tratar com o maior carinho também os professores”, assegura Jurema.

A diretora Giseli Silveira Oliveira explica que a escola têm alunos de seis até mais de 50 anos de idade, incluindo diversos com distorção série-idade. A princípio, segundo ela, a Secretaria informou que seria procurado um espaço para colocar a instituição junto a outra escola, mas que, se não houvesse essa possibilidade, os estudantes teriam que ser redistribuídos na rede de ensino. “Sabemos que não existe juntar duas escolas do mesmo prédio, não tem como funcionar cada uma numa modalidade, então com certeza aconteceria a redistribuição”, lamenta ela.

Atualmente, há 206 alunos matriculados, número que varia devido à proposta de ser uma escola em que estudantes podem entrar em qualquer momento do ano. “Funcionamos de manhã, de tarde e de noite. Do primeiro ao quinto ano temos turno integral, oferecemos quatro refeições diárias pra eles”, conta Giseli. Ela está aguardando a data de uma reunião sobre o assunto, que será marcada ainda esta semana, com a Coordenadoria, Secretaria de Educação e FASE.

A comunidade da escola lançou uma carta aberta nesta segunda-feira (11) sobre a ameaça de fechamento, em que destaca o caráter diferenciado da instituição. “Desenvolvemos nossas funções em um espaço cedido pela Secretaria de Segurança, visto que esta participou e solicitou sua criação juntamente com a Secretaria da Educação, com o objetivo de atender crianças e adolescentes em vulnerabilidade social”, explicam.

A existência da escola, a única que trabalha nos doze meses do ano, colabora para a diminuição dos índices de criminalidade na região, segundo a carta. “Exigimos o não-fechamento da escola, visto o quanto é perigoso o contexto em que estamos inseridos, que sofre cotidianamente com a ascensão da violência em seu entorno, tendo que disputar nossos alunos com a criminalidade. Chamamos atenção à catástrofe social que significará o encerramento de nossas atividades”, afirmam. Pela manhã, a escola oferece Laboratório de Aprendizagem, Laboratório de Ciências, Laboratório de Informática, Arte e Recreação e Cooperativa do Pão. Durante à tarde acontecem as aulas “regulares”.

Os estudantes, funcionários e professores realizaram um ato no início da tarde desta segunda-feira (11) em defesa da escola, que contou também com a presença da comunidade, de educadores de abrigos, apoiadores e alguns vereadores e deputados. A vereadora Sofia Cavedon (PT), integrante da Comissão de Educação e Cultura (Cece), esteve presente e destacou que o caso lembra bastante o da Escola Municipal Porto Alegre (EPA), que tem como público as pessoas em situação de rua e está ameaçada de fechamento pela Prefeitura. “Tem todo um trabalho pedagógico com essa flexibilidade que é importante para o público mais vulnerável. É uma situação muito semelhante à EPA, que está funcionando por liminar. E agora o Estado faz o movimento de fechar a Escola Aberta estadual, ao invés de qualificá-la, mesmo com tantos problemas de jovens envolvidos com tráficos, drogas, em um lugar extremamente complicado”, considera a parlamentar.

Sofia encaminhou, na Cece, um requerimento para que os vereadores abram uma agenda sobre o assunto e convoque o Estado e a comunidade escolar para falar sobre isso. Segundo a CRE, até a próxima segunda-feira (18) é possível que já haja alguma resposta sobre o futuro dos estudantes e professores da Escola Vila Cruzeiro do Sul.

Redação

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