Quando políticas e empresas se unem para combater o racismo

Patricia Faermann e Pedro Garbellini
(Videorreportagem e entrevistas)
 
Em entrevistas exclusivas, representantes do Executivo e de multinacionais apresentaram o cenário negativo do Brasil e revelaram como a inclusão da diversidade provoca não só lucro social, mas material
 
 
Jornal GGN – “O Brasil é o país que mais cresceu no século XX, só que é um dos países mais desiguais do mundo”, disse Maurício Pestana, secretário municipal de Igualdade Racial de São Paulo. “Esse estranhamento de negros não mais em uma posição subalterna, mas em outra, gera o crescente crime de ódio e de reação, sobretudo nas redes sociais”, afirmou o Secretário Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Ronaldo Barros. “Nós não temos visto a capacidade de conexão de afrodescendentes às empresas, em oportunidade no mercado competitivo”, constatou o vice-presidente da Microsoft, Rodney Williams.
 
Foi unindo esses cenários que o público e o privado enxergaram a defasagem, tanto nas ações de governo, quanto de empresas, para combater o racismo no trabalho, incluir os afrodescendentes em posições chave de multinacionais, oferecendo igualdade de oportunidades para um público que é abandonado.
 
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“Na adoção de direitos por parte da população negra, todos ganham. Se você tivesse que igualar os níveis de educação de brancos e negros, teria um novo processo civilizatório. Se equiparasse o PIB dos negros e dos brancos, você teria todo o país em uma situação econômica, e todos ganhariam”, disse ao GGN, o Secretário Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Ronaldo Barros.
 
Já pensando na competitividade, a Assessoria Principal da Divisão de Gênero e Diversidade do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Judith Morrison, lembrou que não se trata apenas de garantir direitos a segmentos esquecidos, mas do déficit econômico que o racismo provoca. 
 

Foto: Fábio Arantes/ Secom“Em um país como o Brasil, onde a maioria da população se auto identifica como preto, pardo e afrodescendente, [a inserção representa uma oportunidade no trabalho, uma oportunidade no próprio mercado, a inserção dessas pessoas na sustentabilidade do setor econômico”, defendeu Morrison.

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Em uma comparação, a Assessoria do BID exemplificou que nos Estados Unidos, onde há grande interesse por parte das empresas em políticas afirmativas, apenas 14% da sua população são afrodescendentes. O número é o que equivale à porcentagem da população negra somente na cidade sulista de Porto Alegre. 

Os dados no Brasil adiantam mais.
 
“Palheireiros é o bairro que as pessoas mais se autodeclaram negras na cidade de São Paulo, é 57% da população. A renda é em torno de R$ 1.400. Pinheiros é o bairro que as pessoas menos se declaram negras. A renda média de Pinheiros é de R$ 17 mil. Uma política precisa ser feita”, contou Maurício Pestana.
 
Diante desse contexto, a inserção no mercado de trabalho necessita de políticas estruturantes que trabalhem a base do problema. 
 
Foto: Fábio Arantes/ SecomApesar de ser um dos maiores avanços do país, a lei de cotas também é uma das maiores necessidades de avanço, afirmou o Secretário Nacional. Lembrou que a lei 12.990 só se restringe ao serviço público federal, excluindo, por exemplo, uma das instâncias políticas mais representativas da população: o Legislativo. “No nosso sistema de poder não tem cotas”. As defasagens se estendem para o sistema de Justiça, e as defensorias e promotorias também não são contempladas pela lei federal. 
 
Quando as políticas afirmativas são pensadas de forma conjunta, as ações consequentemente são repensadas também para o mundo corporativo. Ao GGN, o vice-presidente da Microsoft alertou que a inclusão é lucro social e material para as multinacionais.
 
“É a minha convicção que uma das ferramentas que ajudam a fazer um trabalho melhor é criando uma força de trabalho diversa e encontrando nela as mentes mais brilhantes”. O executivo afirma que não se trata apenas de cor, mas de gêneros, culturas, classes sociais diferentes. “E eu tenho essa estrutura na minha equipe hoje: pessoas que nasceram em lugares bem pobres e de camadas mais ricas hoje administram negócios da Microsoft”.
 
“As empresas que não estão diversificando suas forças de trabalho e seus líderes irão apenas desenvolver soluções direcionadas às classes econômicas mais altas, ou às classes mais baixas, e não pensando no ‘todo mundo'”, concluiu Williams.
 

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8 comentários

  1. Educação pública de qualidade

    A péssima qualidade do ensino básico oferecido pela esocla pública, ainda mais agravada nos bairros mais pobres, é o principal perpetuador das desigualdades sociais do país. Medidas proativas mitigadoras da situação são importantes, mas também impotentes frente à dimensão do problema. Educação pública de qualidade e em tempo integral é o único caminho para a superação das nossas injustiças sociais e raciais. 

  2. Pais racista que teve dois

    Pais racista que teve dois Vice Presidentes mulatos na primeira metade do Seculo XX no meio da Republica oligarquica?

    Em nenhum outro Pais das Americas isso aconteceu.

    Mas é preciso inventar aqui um racismo artificial para gerar capital politico a movimentos e grupos.

    • Leia antes de escrever.

      Rapaz, você insiste em comentar a partir de seus “juízos” pré-concebidos e não dos fatos. Leia a reportagem e preste atenção, por exemplo, à comparação entre o perfil étnico e a renda a partir dos bairros de Parelheiros e Pinheiros; depois, reflita se isso aconteceu por vontade divina ou pelas condições históricas de inserção dos negros na economia brasileira, na qual nossa porta de entrada foi a escravidão; só opine depois disso.

      Quanto a dizer que, por ter tidos governantes negros o Brasil está imune ao racismo, só há uma palavra para responder: quaquaquaquaquaquà!!!!!!!!!!! Daqui a pouco, você, rapazola, vai dizer que não existe racismo nos EUA porque Obama foi eleito e reeleito presidente (obviamente com a contribução majoritária do voto dos brancos).

      • Meu caro, tarata-se de fatos.

        Meu caro, tarata-se de fatos. Como é que em uma sociedade racista poderia existir um Nilo Peçanha Presidente do Brasil e Fernando de Melo Vianna Vice-Presidente? E naqueles tempo só votava a elite, pois votaram neles. Cadê o racismo?

        Pobres e excluidos existem no Brasil de hoje milhões de brancos puros, trata-se de uma situação ECONOMICA e não racial.

        Prefeitos de S.Paulo negros, Paulo Lauro e Celso Pitta, Governador do Rio Grande do Sul, Alceu Collares, se o Brasil é tão racista como foram eleitos?

         

  3. Nilo Peçanha, tido como nosso primeiro negro Presidente

    http://www.negrosgeniais.com.br/2014/07/nilo-pecanha-o-primeiro-negro.html

    Neste outro sítio é classificado como o primeiro mulato a presidir o Brasil. Era o vice-presidente de Afonso Pena e este faleceu – ocasião em que Nilo Peçanha assumiu.

    http://www.geni.com/projects/Presidentes-do-Brasil-Brazilian-Presidents/8911

    Em outro texto, a wikipedia diz que 

    Houve um presidente mulatoNilo Peçanha e um vice-presidente mulato Fernando de Mello Vianna

    Mello Vianna nasceu em Sabará, MG, e foi à vice-presidência:

    https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Fernando_de_Mello_Vianna

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