Embraer alerta para pouco ou nenhum lucro nos próximos anos

Acionistas apontam que transação de venda do setor comercial da Embraer para a Boeing irá travar crescimento por 2 anos
 
O cargueiro KC-390 da Embraer. Foto: Tereza Sobreira/Ministério da Defesa/Fotos Públicas
 
Jornal GGN – A Embraer não receberá os dividendos (parte dos lucros) da Boeing nos próximos cinco anos após a finalização do acordo com a norte-americana. A  previsão foi confirmada por executivos da brasileira, durante um evento em Nova York, na semana passada.
 
“Geralmente, o mercado não atribui um grande mercado ao nosso negócio de [aviões] executivos e de defesa, mas achamos que há uma grande vantagem”, defendeu o diretor financeiro da Embraer, Nelson Salgado, em entrevista à Reuters
 
A companhia brasileira está finalizando um acordo para vender 80% do setor de aviação comercial (sua unidade mais lucrativa) para a Boeing, por 4,2 bilhões de dólares. Dessa negociação irá surgir uma nova empresa. As tratativas preveem, ainda, a criação de uma segunda joint venture para produzir o KC-390, onde a Embraer irá deter 51% da sociedade e a Boeing os 49% restantes. 
 
Neste mês, o governo Bolsonaro aprovou o acordo. O segundo passo é a votação entre os acionistas da Embraer, em fevereiro, antes do esperado fechamento de final do ano. A negociação requer também a aprovação dos órgãos de regulação dos EUA e do Brasil. A previsão é que, até o final de 2019, tudo esteja concluído.
 
Neste ano, a  Embraer indica que deixará de produzir lucros por causa do custo com os trâmites burocráticos, incluindo despesas com juros e impostos. Em 2020, o primeiro ano de vigência do negócio fechado com a Boeing, a companhia brasileira prevê que a sua receita cairá em cerca de 50%. 
 
O procurador do Trabalho, Rafael de Araújo Gomes, disse ao GGN que as declarações apontam para o que o Ministério Público do Trabalho (MPT) vem alertando desde o início das negociações entre as companhias: a tendência de desaparecimento da Embraer ou, pelo menos, da sua importância para economia do país. 
 
“[Os executivos] estão prevendo a morte da Embraer ao declararem que o dinheiro dos dividendos da participação de 20% [que a brasileira terá] da nova empresa não entrará, senão, após 5 anos! Ela acaba antes de começar a receber dividendos da NewsCo”, avalia.
 
O governo e da Embraer defendem o acordo como uma forma de assegurar a sobrevivência da companhia brasileira. Em 2018, a Embraer não conseguiu atender às suas projeções, chegando a 250 milhões de dólares abaixo da previsão para o setor de jatos executivos e 200 milhões de dólares abaixo do previsto para a divisão de defesa. Com o dinheiro que será recebido da Boeing (4,2 bilhões de dólares), ela espera um fluxo de caixa positivo de 1 bilhão de dólares, se a tendência de vendas registradas em 2018 continuar.
 
Apesar do cenário, Salgado chamou o acordo da “nova Embraer” de “bem valioso”. Lembrou, ainda, do potencial de mercado da companhia: os recém-lançados jatos executivos e o avião de defesa KC-390, que a Boeing ajudará a comercializar para “aliados geopolíticos” dos Estados Unidos. 
 
Mas o MPT rebate apontando que o negócio será positivo apenas para a fabricante de aviões dos EUA – que conseguirá expandir a intensa competição entre ela e a Airbus no mercado da aviação executiva. 
 
“A Embraer poderia buscar outros parceiros, dada a existência de possíveis competidores na China, Rússia e Japão, entre outros países, que não possuem aeronaves competitivas em escala comercial”, aponta o órgão em um trecho do relatório encaminhado à 1ª Vara do Trabalho de São José dos Campos, onde tramita uma ação civil pública pedindo que o contrato de fusão inclua dispositivos que garantam vantagens econômicas e postos de trabalho no país. 
 
“Nestes casos [de parcerias com outros países], a Embraer teria a dianteira tecnológica, ao contrário do que acontecerá com a parceria firmada com a Boeing, em que está fadada a ocupar uma participação minoritária, se isso não desaparecer por completo”, aponta o MPT. 
 
 

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