Empresas brasileiras transferem produção para o Paraguai

maquiladora_2.jpg
 
Jornal GGN – Com o objetivo de cortar gastos, empresas brasileiras tem transferido sua produção para o Paraguai. Um exemplo é a Estrela, fabricante de brinquedos, que decidiu investir US$ 2 milhões em uma planta no país vizinho.
 
As fábricas como a da Estrela são conhecidas como “maquiladoras” e são beneficiados por um sistema que permite redução de impostos para quem exporta. O executivo-chefe da empresa fala em “flexibilidade laboral e encargos sociais baixos nos salários” como um dos motivos para a escolha do Paraguai. 
 
O secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Anthony Lisboa, critica este sistema e diz que ele é baseado em trabalho escravo. Já as empresas e economistas afirmam que os empregos criados no Paraguai substituem os da China, não do Brasil. “À medida que a China se torna mais cara, torna-se viável para algumas indústrias produzir mais perto de casa”diz Thomaz Zanotto, da Fiesp.

Leia mais abaixo: 
 
Da Reuters
 
 
HERNANDARIAS, Paraguai (Reuters) – Quando a fabricante de brinquedos Estrela decidiu trocar a China pela América Latina, apostou 2 milhões de dólares em uma nova fábrica, não no Brasil mas no Paraguai.
 
A unidade, que abre neste mês na cidade fronteiriça de Hernandarias, fica próxima de um parque industrial de 4.500 hectares repleto de empresas brasileiras que fabricam de peças automotivas a roupas.
 
As scooters elétricas azul-escuras montados por 200 operários na fábrica da Estrela, uma das muitas conhecidas como “maquiladoras”, serão enviados pela fronteira mediante um sistema paraguaio que permite grande redução de impostos para exportadores.
 
Para Carlos Tilkian, executivo-chefe da Estrela, foi uma decisão fácil abrir a fábrica de montagem na nação de 6,8 milhões de habitantes espremida entre Brasil e Argentina.
 
“O Paraguai tem vantagens competitivas importantes: energia barata, flexibilidade laboral e encargos sociais baixos nos salários”, disse em entrevista antes da inauguração da fábrica. “No Brasil, isso seria muito mais caro”.
 
Cada vez mais empresas brasileiras estão indo ao Paraguai desde a eleição do presidente Horacio Cartes em 2013, quando o ex-empresário conduziu a nação à direita, na esteira do impeachment de seu antecessor de esquerda, Fernando Lugo.
 
Almejando criar empregos, Cartes expandiu uma reforma de 1997 que permitiu que exportadores estrangeiros paguem impostos na faixa de um dígito e os excluem do pagamento de tarifas alfandegárias com medidas adicionais pró-negócios.
 
Embora mais de 90 por cento dos produtos manufaturados paraguaios sigam para o Brasil, a filiação do Paraguai ao Mercosul também deu a seus exportadores um acesso fácil à Argentina e ao Uruguai.
 
Desde a posse de Cartes, o número de indústrias estrangeiras no Paraguai quase triplicou, segundo cifras do governo, também estimulado pela pior recessão brasileira da história. O declínio econômico tem obrigado fábricas a cortar gastos para se manterem à tona em meio às taxas onerosas e à burocracia.
 
Das 126 indústrias manufatureiras estrangeiras hoje em solo paraguaio, quatro quintos são brasileiras – mas a migração de companhias para o sul está revoltando sindicatos brasileiros.
 
Anthony Lisboa, secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), criticou o sistema das maquiladoras, afirmando que ele se sustenta no trabalho escravo. Ele disse que está tentando congregar a oposição paraguaia, que carece da tradição de trabalho organizado do Brasil.
 
Empresas e economistas brasileiros dizem que os empregos criados no Paraguai estão substituindo vagas na China, não no Brasil, e que o Brasil se beneficia de um vizinho mais próspero.
 
“À medida que a China se torna mais cara, torna-se viável para algumas indústrias produzir mais perto de casa, e o Paraguai é perto de casa”, argumentou Thomaz Zanotto, diretor de comércio exterior da Fiesp.
 
“Isso não vai roubar a indústria brasileira – o Paraguai não é grande o suficiente para isso- mas mostra que podemos ser mais competitivos se tivermos políticas econômicas melhores”.
 
QUALIDADE DE VIDA MELHOR
 
Os moradores de Hernandarias são majoritariamente favoráveis às fábricas brasileiras. A cidade de 80 mil habitantes tem sido ofuscada há tempos por sua vizinha Ciudad del Este, segunda maior do país e sede de um mercado de rua gigantesco em que se vende de perfume contrabandeado a televisões e armas.
 
Fabiola Vargas, 22 anos, trabalha numa loja de conveniência e diz que as fábricas oferecem uma opção aos moradores que dependem de empregos de meio período ou informais em Ciudad del Este no momento em que o Paraguai tenta se livrar da reputação de polo de comércio e finanças ilícitos.
 
“Não teremos que viajar tanto e teremos uma qualidade de vida melhor”, disse.
 
Os brasileiros investiram 101 milhões de dólares no Paraguai em 2015, de acordo com os dados mais recentes do banco central paraguaio, mais de um terço do investimento estrangeiro total de 260 milhões de dólares.
 
Após ter um crescimento chinês no começo da década, época do boom das commodities, o Brasil testemunha hoje a maior taxa de desemprego da história. Em contraste, o Paraguai viu seu Produto Interno Bruto (PIB) crescer ao menos 4 por cento no ano passado, auxiliado pela expansão do setor manufatureiro.
 
Eduardo Almeida, representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Paraguai, disse que uma lei de 2015 que garante a empresas estrangeiras que invistam mais de 100 milhões de dólares uma taxa de juros estável por 20 anos propiciou uma estabilidade vital.
 
A JBS, maior processadora de carne do mundo, disse que a estabilidade no Paraguai foi importante para sua decisão de dobrar a produção no país em 2017 e fez as receitas nacionais aumentarem para 550 milhões de dólares.
 
“O Paraguai é uma economia que cresce, tem políticas claras e uma política monetária estável”, disse seu diretor local, Felipe Azarias, à Reuters.
 
No Brasil, ranqueado entre as nações mais caras do mundo para se fazer negócios, os benefícios e os impostos inflam os salários dos trabalhadores em 40 a 60 por cento, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV).
 
Os custos trabalhistas são em média 45 por cento menores no Paraguai, e ali as companhias pagam impostos médios de cerca de 3,5 por cento – no Brasil são de 36 por cento, comparou Almeida.
 
O governo de Cartes disse ter criado 21.333 empregos no setor manufatureiro entre agosto de 2013 e dezembro de 2016, gerando 900 milhões de dólares em exportações.
 
No Paraguai, alguns acadêmicos argumentam que as políticas de Cartes estão privando o país do desenvolvimento de longo prazo, particularmente na infraestrutura.
 
“Quanto mais exceções e isenções na manufatura, mais privamos o tesouro de algo que os próprios investidores estrangeiros precisam – financiamento para infraestrutura”, alertou Fernando Masi, diretor do Centro de Análise da Economia Paraguaia.
 
Uma fonte de uma grande empresa brasileira de infraestrutura disse que a maioria das empreiteiras do Brasil deixou o Paraguai devido aos temores de que o governo não tenha dinheiro para oferecer apoio ao investimento privado em pontes, represas, aeroportos e outros projetos.
 
O ministro de Comércio paraguaio, Gustavo Leite, disse que Cartes está comprometido com a política de impostos baixos e não planeja extrair mais renda das empresas brasileiras.
 
“Se os empregos são tão importantes, por que não cuidaríamos dos empregadores?”, disse Cartes na abertura da fábrica da Estrela. “Este é o Paraguai em que acredito: cuidamos daqueles que proporcionam empregos”.
 
(Reportagem adicional de Caroline Stauffer e Daniel Flynn)
 
0gif-tarja-fale-com-editor.jpg

7 comentários

  1. Para conseguirmos manter  o

    Para conseguirmos manter  o nivel de emprego no Brasil, e não perder para o Paraguay, teremos de dar uma de Trump – Só comprarmos o que realmente é feito no Brasil –   Emcertos momentos  quem não chora não mama.

     

  2. Qual a novidade?
    Assim como o capital vão para onde se paga mais, as indústrias vão para onde se cobra menos. E não é de hoje.

    • É verdade.

      É verdade. O modelo centralizador e, estatizador imposto por Lula e Dilma, abriu as portas para empresas fugirem do País.

      • Para onde vamos . . .

        É isso mesmo! Sempre que houver lugar onde possa explorar mais os trabalhadores, os exploradores irão para lá. E, assim, o trabalho escravo vai sendo disseminado no mundo todo. Para concorrer com aqueles que estão ferrando os trabalhadores e aumentando seus lucros empobrecendo a população geral, os outros são forçados a fazer o mesmo. Um dia, ou haverá uma grande massa de escravos domesticados “satisfeitos” no mundo todo, alimentando a super riqueza de poucos, . . . Ou haverá uma grande revolução de descontentes com a injustiça da exploração e do enriquecimento em cima dos outros. . . Talvez, guerra civil, mortes aqui e alí, incêndios, sei lá.

         

  3. Coréia do Sul …

       Na década de 60 os sul coreanos montaram um modelo similar, criou um parque industrial com empresas estrangeiras com baixos impostos, empresas exportadoras, assim todo produto que fosse desses parques industriaís, não competiam com empresas nacionaís, a indústria nacional foi preservada ao mesmo tempo que tinha investimento externo.

        Um dos erros da zona franca de Manaus foi esse, empresas de outras partes do país sofria com uma competição desigual.

  4. Carece de uma análise pelos

    Carece de uma análise pelos economistas do blog. Mas reduzir o custo da mão de obra e reduzir os impostos pagos pelas empresas, sem um projeto de nação, todos irão empobrecer. A China tinha um projeto de nação, Paraguai e, Brasil agora, não têm. Todos os países que entrarem nesse processo serão arrastados para a desindustrialização e redução do mercado interno. Vejo isso como uma armadilha, ninguém se beneficiará,  com exceção dos poderosos de sempre, que comandam o processo. 

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome