O Brasil de costas para sua indústria, por Germano Rigotto

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Foto: Agência Brasil
 
Da Abimaq
 
O Brasil de costas para sua indústria
 
Germano Rigotto *
 
A indústria sempre teve um papel decisivo nos ciclos econômicos mundiais, seja nos movimentos de crescimento ou de recessão. Esse dado é perceptível na história de países de todas as dimensões e continentes. Quando o vetor de uma nação é de decréscimo, normalmente sua indústria tem sérios problemas. O inverso também é verdadeiro. Quando o país está bem, o setor secundário está puxando a frente. 
 
Não é diferente do que vemos, agora, no Brasil, embora as causas não sejam apenas atuais. Faz tempo que a área reclama por uma visão estratégica dos governos, calcada numa política nacional duradoura para a indústria, bem como de medidas que protejam a competitividade imediata dos produtos brasileiros. Não raras vezes, nossas empresas são lesadas por práticas desleais de comércio internacional, sem uma reação proporcional das nossas representações. Nas últimas décadas, em governos de todas as matizes, não fomos bem em nenhuma das duas dimensões, isto é, nem na visão de longo prazo, tampouco no combate conjuntural.

 
Veja-se, por exemplo, a situação do setor de bens de capital, a chamada indústria de fazer indústria. A cadeia em questão amargou uma queda de quase 50% no faturamento em comparação a 2013. No mercado interno, a baixa chega a 60% das receitas no mesmo período. As consequências não podiam ser outras: Desemprego, queda de renda do trabalhador, parques industriais desativados, venda de empresas para grandes grupos internacionais, perda de competitividade, deficiência nas exportações e um sem-número de outros danos diretos e indiretos. Como já se disse, a indústria é uma espécie de motor do PIB. 
 
Impressiona, porém, que, mesmo com a série histórica e com as consequências explícitas na atualidade, erros semelhantes continuem ocorrendo. Na segunda quinzena de fevereiro, o governo mudou as regras da política de Conteúdo Local, reduzindo em 50%, em média, a exigência mínima de equipamentos e serviços produzidos no país para licitação de exploração de petróleo e gás. Isso abre portas para que o mesmo viés se repita em outras áreas. Na prática, afeta diretamente milhares de empresas nacionais e satisfaz meia dúzia de petroleiras, dentre as quais a Petrobras. 
 
Claro que a proteção da indústria local precisa ser graduada dentro da dinâmica do livre mercado, afastada a nociva superproteção. Mas não deve ser demonizada. Nossa aposta estratégica apenas em commodities é inconsistente, pois tem pouca capacidade de agregação de valor.
 
Países como Noruega, Estados Unidos, Reino Unido e Arábia Saudita adotam a política de Conteúdo Local, enquanto Venezuela, Nigéria, Angola e Iêmen não adotam. Essa lista deixa claro em qual grupo deve estar nossa inspiração. Outro exemplo: O Japão protegeu sua indústria de automóveis por mais de quatro décadas, a ponto de a Toyota bater a GM. Ora, quem poderá dizer que foi uma decisão equivocada dos japoneses? 
 
Cito outro sinal de desprestígio para a indústria brasileira: A equipe econômica estaria disposta a mudar o cálculo da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), utilizada pelo BNDES para financiar investimentos. A intenção maior seria reduzir a diferença entre SELIC e TJLP, o que é meritório, mas isso pode ocorrer por meio da desaceleração da taxa básica. Assim, num futuro breve, o Tesouro ficaria desobrigado de subsidiar operações do BNDES. O que não pode é ocorrer por meio da inibição direta dos investimentos de longo prazo, sinônimo de tirar o pouco oxigênio que ainda resta no mercado. O efeito imediato será a progressiva substituição da produção local e, mediato, o aumento ainda maior do desemprego. 
 
Estamos tratando, portanto, da assimetria entre produzir aqui ou produzir no exterior. Simples assim. Pragmático assim. A sustentabilidade do setor secundário passa pela abordagem adequada de temas como Conteúdo Local, política industrial, juros civilizados, investimentos e, sim, ajuste fiscal. Vejam: Todas as pautas se confundem com a sustentabilidade do próprio país. E não há um Brasil próspero com uma indústria fraca. Assim como não haverá saída da crise sem o potencial deste setor. É hora de o governo demonstrar, na prática, que tem a clara dimensão do que significa a indústria brasileira.
 
* Germano Rigotto  é ex-governador do Rio Grande Sul, presidente do Instituto Reformar de Estudos Políticos e Tributários, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República e diretor de Ação Política da ABIMAQ (www.germanorigotto.com.br).
 
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9 comentários

  1. Mas o Presidente Temer está

    Mas o Presidente Temer está trabalhando exatamente para reorganizar o que estava em processo de deterioração. A principal medida, e notória, é a terceirização, que dará mais jogo de cintura às indústrias, tanto em relação ao mercado interno como ao externo.

    • Terceirização??

      Quem atua com processo trabalhista e ja viu empresas “treceirizadoras” fechando e deixando muitos funcionários com uma mão na frente e outra atrás?? Eu ja vi muitas.

      Defender isso é insanidade em nivel alto.

      Cobrar impostos de grandes empresas, e ajustar a carga de impostos em folha não vão fazer nunca, mas colocar no c.. do povo vão mesmo.

      Isso que é triste no Brasil, pessoas que se colocam de forma degeneradora e não tem culhão pra defender o que é certo.

  2. o….

    O problema sr. Germano é que no Brasil foi instalada há 1 século uma esquerdopatia baseada numa espécie de anticapitalismo tupiniquim. E para anticapitalistas a solução não se baseia em capital. Então não se baseia em industrialização, comercialização, empregos, salários e por consequência formação de uma classe média. Basta ver como é atacada e sabotada nossa maior área industrail legitimamente nacional: a indústria agropecuária. Milhões de familias de pobres  retirantes da região sul do país não se encaixam no padrão reforma agrária. Por que as divisões de terra e a agricultura familiar nas regiões nordeste, norte, centro oeste,  produzida por tais pessoas não entrou no padrão da Gestapo Ideológica Tupiniquim. Autonomia, soberania economica e financeira, desenvolvimnento, cooperativismo, sucesso, meritocracia, salários, empregos, riqueza foram rotuladas, por que este tipo de retirante não necessita do parasitismo do Estado para prosperar. E sem parasitismo do Estado, quantas ideologias teriam que acordar cedo e trabalhar, não é mesmo?  

    • Eu vi gnomos….

      Não sabia que a esquerda estava no poder há 100 anos…..certamente os governos militares, Getúlio, Juscelino, eram perigosos comunistas.

      Alguém aqui parece estar bebendo/cheirando/fumando alguma coisa uma boa, me dá a receita, ze sergio?

    • Sério??

      Vamos ficar nessa de esquedopata e de fascista mesmo??

      É claro que a discussão com o famoso socialismo falido e captalismo falido são etiquetas de livros em preto e branco que são tiirados da estante por quem não tem informação somente congectura mesmo sendo de esquerda ou de direita.

      É claro que se o captalismo funciona que fique, agora ver os EUA implantando traidores em governos de outros paises e esses individuos sem nem disfarçar ja abrem para venda tudo o que temos.

      Vamos nos unir logo de uma vez caramba e colocar esse pais pra funcionar, estou nessa luta pra deixar algo de bom para os meus filhos nao estou por gostar ou não de alguem.

      Veja a venda dos poços do présal!! A infustria naval já está acabando agora tiraram a obrigação de utilizar te cnologia local, pode chingar o que for isso vai refletir sim na economia e quem gostou vai sim pagar o pato.

  3. Mas a quanto tempo a indústria nacional não tem sido protegida?

    Mas a quanto tempo a indústria nacional não tem sido protegida, e só clama por mais e mais proteção?

    A indústria naval, quantas vezes surgiu e ressurgiu?

    Acho que o tempo áureo da indústria nacional foi mesmo aquele tempo em que chegava aqui um imigrante, montava uma fabriqueta, trabalhava feito um corno de deixava para seus filhos um império. Mas os netos dele preferiram mamar no Estado.

  4. O que pode resolver?

    Sou fan do Lula e da Dilma, mesmo eles não consguiram alavancar a industra por um tempo mais gradual.

    O que falta a industria é competitividade, não esportamos porque temos custo alto com impostos e infraestrutura.

    Sou contra o governo golpista ainda mais vendo eles falar em privatixações.

    Mas minha posição politica não pode influenciar o meu senso critico.

  5. Somos ou não somos brasileiros??

    Esse papo de esquerda, direita, fascista e comunista é balela pra nos desunir.

    Somos brasileiros temos que nos unir enquanto é tempo, não dá mais pra ficar perdendo tempo.

    Sou mortadela e tenho amigos coxinhas e gosto deles, não me importo com a opinião politica deles se eles querem o bem do nosso pais não tento mudar a opinião deles, só digo que temos que resolver a corrupção e deposi sim vamos evoluir e debater as coisas de forma mais progressita.

    Voce vai lá nos EUA e se assusta com o nivel de vida deles e percebe que não perdemos em nada pra eles.

    Temos sim que mudar mas mudar para melhor, não da mais.

     

     

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