A armadilha da taxa de câmbio da China, por Barry Eichengreen

Jornal GGN – A política cambial da China tem preocupado o mercado há meses, a ponto de causar agitação com qualquer tipo de notícia. A comunicação das autoridades chinesas mostrou-se falha, e encorajou a percepção de que eles não sabem o que estão fazendo. Entretanto, tudo indica que o país não conta com opções mais favoráveis.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, o professor da Universidade de Berkeley, Barry Eichengreen, diz que o país estaria em uma situação cambial mais flexível, que eliminasse as apostas unidirecionais para os especuladores e funcionasse como um amortecedor de choques econômicos. O articulista diz que a opção menos ruim para a China seria manter a estratégia de indexação do renminbi (yuan) a uma “cesta” de moedas estrangeiras e avançar com o seu programa de reestruturação e reequilíbrio da economia. Porém, considerando os erros recentes, será preciso tempo para convencer os observadores de que estão empenhados nesta estratégia.

Entretanto, os investidores não acreditarão nelas – mas, na verdade, eles já não acreditam. “As saídas de capital ascendem a montantes de US$ 100 bilhões por mês. A aritmética simples sugere que com US$ 3 trilhões em reservas, as autoridades têm condições para resistir por, pelo menos, dois anos. No entanto, a fuga de capitais tende a aumentar drasticamente à medida que o fim se aproxima. Uma janela de dois anos é uma ilusão”

Outra alternativa citada seria uma flutuação mais livre do renminbi. O Banco Popular da China pode permitir a sua desvalorização contra o cabaz de referência em, por exemplo, 1% por mês, a fim de reforçar a competitividade das exportações chinesas e responder às preocupações associadas à sobrevalorização da moeda. “Porém, dada a fraca procura mundial, este tipo de desvalorização modesta não contribuiria muito para impulsionar as exportações e apoiar o crescimento econômico. Além disso, com o renminbi perdendo mensalmente 1% do seu valor, a fuga de capitais aumentaria a um ritmo ainda mais acelerado”, diz Eichengreen.

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Uma terceira opção é uma desvalorização única de, por exemplo, 25% – o que, na visão do articulista, ajudaria a aumentar a competitividade das exportações e a gerar nos investidores a expectativa pela recuperação. Tal prognóstico pressupõe que todos concordam com a ideia de que uma desvalorização não é prenúncio de outra, e que os investidores permaneceriam imperturbáveis quando as autoridades abandonassem a promessa de evitar uma mega desvalorização. “Ignora o fato de que as empresas chinesas, já em apuros, têm cerca de US$ 1 trilhão em dívida denominada em moeda estrangeira cujo serviço seria muito mais difícil de assegurar. Além disso, minimiza o impacto econômico devastador de uma mega desvalorização sobre os países concorrentes da China”.

Eichengreen diz que alguns observadores, como o Presidente do Banco do Japão Haruhiko Kuroda, sugeriram que a China podia considerar o reforço dos controles. No entanto, a maioria dos economistas mostra-se relutante em contemplar esta opção.

“Os controles de capital afetariam negativamente os esforços da China para internacionalizar o renminbi e causariam constrangimento ao Fundo Monetário Internacional, que recentemente adicionou a moeda à cesta das quatro moedas mais importantes que sustentam a sua unidade de conta (…) A objeção mais preponderante, porém, é a de que a reinstituição dos controles eliminaria a pressão a favor das reformas. Livres da pressão exercida pelos mercados internacionais de capitais, as autoridades chinesas se curvariam à vontade das empresas estatais e das autoridades locais que preferem continuar num regime de fácil cedência de liquidez e ver os bancos a reconduzir os seus empréstimos”.

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