A história da neta negra de um comandante nazista

Sugerido por sergio g

Da Deutsche Welle

 
Aos 38 anos, Jennifer Teege descobriu sua verdadeira identidade: é neta de Amon Göth, o assassino sádico de “A lista de Schindler”. O novo capítulo de sua vida – doloroso, mas catártico – é agora contado em livro.
 
“Muita gente não consegue acreditar que essa história não é ficção”, comenta Jennifer Teege. Parece, de fato, um tanto absurdo uma mulher de pele escura, de 40 e poucos anos, contar que descobriu que seu avô era um notório criminoso nazista. Trata-se de Amon Leopold Göth, ex-comandante do campo de concentração de Plaszów, nas cercanias da Cracóvia.
A autora Jennifer Teege, filha de um nigeriano com uma alemã

 
 
Amon Leopold Göth na prisão na Polônia, 1946

O nome é conhecido até hoje. O filme A lista de Schindler, de 1993, narra a história de dois homens: enquanto Amon Göth mata judeus no campo de concentração, Oskar Schindler salva centenas deles, ao recrutá-los para trabalhar em sua fábrica, livrando-os, assim, do campo de extermínio.

Schindler foi honrado em Israel como “Justo entre as Nações”; Göth foi enforcado como criminoso de guerra na Polônia, em 1946. Um alemão e um austríaco, ambos nascidos em 1908: num deles a guerra enfatizou o lado bom; no outro, o mau.

Uma cena do filme de Steven Spielberg, em especial, fica marcada na memória: a partir da varanda de sua casa em Plaszów, Göth dispara contra os presos do campo. Sem mais nem menos. Ainda em vida, esse homem era considerado a acepção do assassino nazista sádico.

Jennifer, neta de Göth, registrou a saga de suas origens no livro Amon. Mein Grossvater hätte mich erschossen (Meu avô teria me fuzilado, em tradução livre), recém-lançado na Alemanha.

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Choque de identidade

O pai dela é nigeriano e a mãe, alemã. Jennifer foi criada por uma família adotiva. Ela sabe bem o que acontece quando uma pessoa chama a atenção por ser diferente. “Já quando eu era criança havia comentários, também sobre a cor da minha pele, e na época isso mexia comigo”, relata à DW.

Ela estudou em Israel, onde também conheceu muitos sobreviventes do Holocausto. Lia para eles em alemão, e ficava feliz por, mesmo assim, nunca ser percebida como alemã. Ninguém poderia ter imaginado em Israel que justamente essa mulher de pele escura fosse descendente direta de um criminoso nazista.

Durante muito tempo, a própria Jennifer nada sabia de seu histórico familiar. Ela fora entregue ainda pequena à família de criação. No começo, sua mãe natural e a avó ainda a visitavam, depois o contato foi suspenso.

Somente aos 38 anos ela encontrou, por acaso, um livro onde reconheceu sua mãe. O tema era Amon Göth, capitão da SS e comandante de campo de concentração, e sua filha Monika – a mãe natural de Jennifer.

Cena de “A lista de Schindler”. Ralph Fiennes (d) representa Amon Göth

Culpa de geração para geração

Nesse ponto começa o livro escrito por ela juntamente com a jornalista Nikola Sellmair. Com o drástico título, a obra é o relato íntimo da busca de Jennifer por uma identidade, e fala do silêncio do pós-Guerra, cujos efeitos se estendem até hoje.

“Assumam o passado de vocês!”, exigiram as gerações mais jovens aos que haviam vivenciado ativamente o nacional-socialismo. “O que o próprio avô fez, muitos não sabem”, aponta a jornalista, que no livro situa historicamente a trajetória individual de Jeniffer. “Muitos filhos de nacional-socialistas de destaque oscilam entre a glorificação dos pais e o ódio ilimitado aos seus genitores.”

O filho de Rudolf Hess, vice de Adolf Hitler, passou a vida tentando reabilitar o pai. A sobrinha-neta do comandante supremo da força áerea nazista, Hermann Göring, preferiu esterilizar-se – “para não gerar mais um monstro desses”, como afirmou.

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Monika Göth, a mãe de Jennifer, deu uma série de entrevistas sobre seu pai, onde oscilava entre o ódio a ele a justificação de seus atos. “Os filhos ainda processavam, elaboravam os crimes de seus pais. Já os netos reavaliam os comprometimentos de suas famílias”, analisa Nikola Sellmair.

Esse processo mantém os descendentes orbitando em torno da culpa de suas famílias; somente ao reavaliar o passado, os netos encontram o caminho para se libertar dele.

Vítima do silêncio

“Amon. Mein Grossvater hätte mich erschossen”, de Jennifer Teege e Nikola Sellmair

“É bem fácil se distanciar de Amon Göth, um símbolo tão forte do mal, e dizer: eu sou diferente”, admite Jennifer. “Mas existem nuances, o ser humano não é ‘bom’ ou ‘mau’.” Ela considera essa distinção importante, justamente para evitar a demonização. Pois, afinal, foi precisamente isso o que nutriu o nazismo.

Jennifer Teege assume a própria história familiar, olha as fotografias da avó – que passava temporadas com Amon Göth em sua casa no campo de concentração –; viaja para a Cracóvia, local dos crimes de seu antepassado; encontra-se com testemunhas da época; lê tudo o que lhe caia nas mãos a respeito do passado nazista; conversa com psicólogos.

“As pessoas pensam que aquilo sobre que não se fala não tem consequências. Mas, no meu caso, o silêncio teve um efeito destrutivo”, resume. Durante toda a vida, ela teve surtos de depressão, e hoje se sente bem. “A origem é fundamental para a própria identidade”, conclui.

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Até o momento, a história familiar alemã esteve em primeiro plano para Jennifer. Mas, no futuro, ela pretende também conhecer a África. E viajar para a Nigéria, a pátria de seu pai natural.

 

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3 comentários

  1. Caramba, que história. Uma

    Caramba, que história. Uma destas ironias do destino.

    Recentemente assisti “Rapsódia em Agosto” e conta-se o outro lado da guerra: uma avó japonesa que perdeu seu marido devido a bomba atômica em Nagasaki.

    O filme não é recheado de raiva, nem de tons revanchistas (até porque Kurosawa não estava de um lado nem de outro; era um pacifista, igualmente contra o Imperialismo americano e o Militarismo japonês), mas a mensagem importante é: nunca esquecer, para que não volte a acontecer novamente.

    Geralmente, os parentes de comandantes nazistas notórios se escondem, ou mudam de nome, reação plenamente humana e justificável pelo medo de execração pública. 

    A autora do livro, quando passa a história sobre o seu avô a limpo, se reveste de coragem e dá uma contribuição importante para que os alemães coloquem a limpo sua história recente.

    Ao contrário de esconder o passado, é preciso discutir amplamente sobre as razões históricas e circunstâncias que levaram grande parte do país a abraçar o nazismo.

  2. Segue o lead!

    Ou a tradução foi muito ruim ou a DW está padecendo do mesmo mal que ocorre por aqui. História muito muito mal contada; quase não dá pra ler sem ter que voltar o tempo todo no texto.

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