A Ucrânia e o erro do unilateralismo numa época global

Enviado por Paulo F.

Do Diário do Notícias de Lisboa

O unilateralismo
 
por ADRIANO MOREIRA
 
O perigo crescente da situação internacional que a questão da Ucrânia suscita, e embora não seja possível antecipar a dimensão das consequências, sublinha, com evidência, o erro do unilateralismo numa época de globalismo, uma realidade mais invocada do que conhecida na sua estrutura, interdependências e consequencialismos.
 
Talvez a evolução do Iraque pudesse já servir de aviso para o unilateralismo exclusivamente imputável aos EUA, reforçado pelo que aconteceu com a Líbia, e não parece imprevisível no Afeganistão. Não era imaginável, depois do que se passou na Segunda Guerra Mundial, e da gravidade do que acontecera no interior de cada um dos países que foram ocupados, que os unilateralismos atuais levassem povos a meditarem sobre o passado abolido como sendo visivelmente desejável em comparação com o desastre em curso, em que as principais vítimas são as populações, nestas os jovens, sobretudo as crianças, acrescendo o facto de as crenças religiosas contribuírem para agravar os enfrentamentos e não para ajudar a consolidar a paz e o desenvolvimento. Como é de tradição, o jogo de imputação de culpas e assunção de virtudes torna-se dominante na tarefa de orientar a opinião pública internacional. Nestas circunstâncias, a visão internacional é mais obscurecida do que informada da realidade, incluindo a circunstância de o Estado espetáculo intensificar a sua ação em termos de mobilizar as componentes nacionais, culturais, ou ideológicas, agravando a dificuldade das intervenções pacificadoras ou preferivelmente preventivas. 

 
No caso do unilateralismo que se agrava na Ucrânia, e que progressivamente exige a atenção dos europeus, e dos americanos, o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder, que pode, sem riscos eventuais, personalizar a perspetiva alemã dominante na União Europeia em regime de tolerância, considera que a União Europeia é a principal responsável por ter levado Kiev a escolher entre a União e a Rússia, não atendendo à profunda divisão cultural da Ucrânia. Nesta culpa coletiva é duvidoso que inclua a própria Alemanha, por razões evidentes de relacionamento económico, e consequentemente político.
 
Talvez porém a principal causa política esteja no facto de a política de fronteiras, que tanto a oeste como a leste do Muro de Berlim, sofreu uma inquietante modificação no entendimento de conceitos estratégicos de governo. Quer a NATO quer a Rússia, que viu desmantelado o Pacto de Varsóvia, definiram, para além das fronteiras geográficas, conceito tradicional, as fronteiras de interesses como orientadoras do seu conceito de governo.
 
O unilateralismo americano teve as consequências sofridas e frequentemente referidas, e a Rússia não admitiu o esquecimento da sua proclamação de Império do Meio, cuja fronteira dos interesses o levou a dar um passo exemplificativo na Crimeia, com esquecimento da violação do direito internacional vigente, e, não obstante ocasionais encontros aparentemente apaziguadores, que dificilmente escondem que os passos seguintes são de obrigar a uma Ucrânia culturalmente dividida.
 
O credo do mercado vigente entre ocidentais usa a sua excomunhão privativa que são as sanções económicas, mas quando tanto fala em contágio na área das finanças que aflige os ocidentais, talvez esqueça o contágio que pode multiplicar-se em pequenas pátrias na sua área específica, em vista dos separatismos que animam movimentos em alguns dos países da União, e cujas populações não parecem satisfeitas com o supranacionalismo que pratica, o qual mais uma vez se ocupou de alargar o seu espaço à Ucrânia sem estudos prévios cuidadosos da governabilidade em paz, nem com estudos de fronteiras amigas que o alargamento poderia afetar. O desamor europeu, num inquietante crescimento que as últimas eleições mostram, exige que as inquietações com os orçamentos não façam esquecer que governar tem ainda outras questões essenciais.

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