China. Economia de mercado? Por Rui Daher

A China foi admitida na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, mas não reconhecida como economia de mercado. Pediram-lhe esperar 15 anos para os demais membros estudarem o caso. O prazo vence em 11 de dezembro deste ano.

Estranho. Se existem operadores que vendem dinheiro e se autodenominam “o mercado”, acho justo que vender mercadorias (daí a origem do termo), e pertencer a uma organização mundial de comércio são condições para uma economia ser de mercado.

Sabem disso todos aqueles que procuram uma rua de São Paulo que no dia de hoje comemora sua data. Em famosos “caixôtes”, sacolões espalhados no chão, “lôjinhas” e “baracas”, você encontrará de tudo, dizem, a preços mais baixos. Entre multidão de passantes, atordoados balconistas, sua atenção será atraída por alto-falantes ou homens com pernas-de-pau, indicando pechinchas.

Sim, viva o dia e a Rua 25 de Março que internacionalizou o comércio à nossa moda de abertura imigrante. Árabes e turcos, italianos e portugueses, coreanos e nigerianos, haitianos e nordestinos brasileiros, espalham-se por lá. Japoneses, a partir do cinturão verde paulistano e depois de todo o estado de São Paulo e do país, preferiram andar mais duas quadras e, de forma imperial e categórica, tomaram o Mercadão (olha ele aí outra vez).

Pois bem, lá os chineses e suas lojas 1,99 ou mais são admitidos como economia de mercado. No planeta, ainda não.

Em minhas colunas mais recentes no site de CartaCapital tenho comentado o protagonismo chinês em seu processo de internacionalização patrimonial e comercial, sobretudo no que se refere aos segmentos do agronegócio.

A aquisição de ativos ocidentais tem sido expressiva; sua sustentação ao comércio internacional pós-crise 2007/2008 se mantém até hoje, tanto em economias hegemônicas como emergentes; as principais marcas e grifes do luxo mantêm lojas nas maiores cidades chinesas; fundou e fez o maior investimento no banco dos BRICS; foi o principal motor da economia mundial nos últimos dez anos. Mas não é considerada como economia de mercado.

Os argumentos que a faz esperar são pífios, políticos e ineficazes. Em momento nenhum, nesses 15 anos, a China deixou de estar no mercado, mas agora exige reconhecimento.

A primeira queixa se refere aos subsídios para o mercado doméstico chinês, o que faz os preços serem mais influenciados pelo governo do que pelas forças do mercado, impedindo a concorrência internacional. Da mesma forma, invadem com exportações os demais países e por isso ganharam sobretaxas maiores sem se queixarem.

De subsídios nem preciso comentar. Conhecemos vacas suíças, algodão norte-americano e gás da Rússia. Existem a torto e direito.

O processo de transição na China, iniciado em 1978, por Deng Xiaoping, que a levou à atual proeminência, é centralmente planejado e moderado pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Necessariamente. Resultaria nada se fincado em modelos ocidentais. São diferenças históricas, culturais, econômicas e sociais desde o Império do Meio, que já teve período hegemônico.

A China quer fazer valer o compromisso de 2001 e deixou isso claro aos demais países do G-20 quando de sua última reunião, em Xangai.

Percebendo a tendência do governo brasileiro de fazer o tal reconhecimento, mais de 40 associações de empresários já se manifestaram contrárias. Nada diferente poderia se esperar de uma Federação de Corporações que precisou se encantar com um apaniguado das Organizações Globo, elegê-lo presidente, e depois, vendo-o retirar toda a proteção que fazia da indústria brasileira uma longa fileira de diligências, afastá-lo.

O retorno protetivo não foi completo, seria impossível, mas muitos setores, aos poucos, foram sendo contemplados com medidas antidumping discutíveis. Temem que a Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), responsável por decreto presidencial pela decisão, ao reconhecer o status requerido pela China, ficarem desprotegidos, uma bobagem, pois vira-e-mexe entramos em contenciosos com países de economias consideradas de mercado.

Bem, mas o que esperar de uma paróquia instalada na Avenida FIESP que publica anúncios de página inteira nos jornais pedindo a renúncia de presidente, eleita pelos votos da mão-de-obra que mais lhe paga dízimos, e apaga suas luzes quando tais cidadão vão se manifestar à sua porta?    

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