Embaixador do Egito nega golpe de Estado no país

Jornal GGN – A destituição do presidente eleito Mouhamed Mursi, na última terça-feira (2), pelas Forças Armadas, colocou o mundo em alerta sobre o que ocorrerá no Egito. Em entrevista à Ag~encia Brasil, o embaixador do país no Brasil, Hossam Edlin Mohamed Ibrahim Zaki, negou que tenha ocorrido um golpe militar em seu país ou a ruptura da ordem democrática.

Para o diplomata, que acompanha as reações no país sobre as mudanças no Egito, só haveria uma ruptura democrática se as Forças Armadas tivessem abolido a possibilidade de eleições. “Mas não, foi firmado um compromisso de que haverá eleições”. Para Zaki, “a democracia não é apenas uma urna, é muito mais do que isso: é diálogo, busca pelo consenso e respeito pela identidade”.

Ex-porta-voz do governo do ex-presidente Hosni Mubarak, deposto em 2011 depois de quase 30 anos no poder, Zaki, que está há sete meses no Brasil, disse que os militares atenderam aos apelos dos manifestantes que queriam mudanças e a saída do então presidente. Para o embaixador, a sociedade também não gostou de ver o processo de islamização no país, não havia diálogo com o povo.

Outro ponto destacado pelo embaixador foi que, no momento do anúncio oficial das Forças Armadas, os militares estavam acompanhados pelos líderes de vários segmentos do islamismo e também do cristianismo no Egito, assim como de Mohamed Elbaradei, principal líder da oposição.

Leia abaixo entrevista do diplomata egípcio para a Agência Brasil:

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O que se passa no momento no Egito? Por que o presidente deixou o poder?

Para compreender o momento atual é preciso entender a sequência dos fatos. Tudo começou em novembro de 2012 com a forma como foi conduzida a discussão sobre a nova Constituição. Não houve acordo nem consenso, a Constituição foi apenas referendada. Houve aí uma divisão na sociedade egípcia. A sociedade também não gostou de ver o processo de islamização. O segundo aspecto foi o agravamento da situação econômica: um crescimento abaixo do esperado e [também] o desemprego. Para completar, não havia diálogo. O partido que estava no poder dizia que buscaria o diálogo nacional. O partido queria governar sozinho.

Para quem acompanha os acontecimentos no Egito, houve golpe de Estado, na linguagem diplomática, “ruptura da ordem democrática”. Como o senhor recebe essa avaliação?

Eu concordaria com a interpretação de ruptura democrática, se as Forças Armadas tivessem abolido a possibilidade de eleições. Mas não, foi firmado um compromisso de que haverá eleições. A democracia não é apenas uma urna, é muito mais do que isso: é diálogo, busca pelo consenso e respeito pela identidade. Esse é o discurso da liberdade e da democracia. É preciso considerar também os aspectos que envolvem as instituições, a Justiça e a mídia.

Assusta ver várias emissoras de rádio e televisão sendo fechadas, isso não é um atentado à democracia?

O que tenho conhecimento é de que as poucas emissoras fechadas estão impedidas de atuar porque estimulavam uma verdadeira guerra civil no país, levadas pela interpretação de defender o presidente “com sangue”. Se elas continuassem funcionando, poderia haver uma guerra civil no Egito. São poucas emissoras.

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É possível ter confiança no futuro governo do Egito em meio à situação atual?

É um governo interino. Repito, interino. O senhor Adly Mansour [então presidente da Suprema Corte, nomeado pelos militares para substituir Mursi] ficará no poder cerca de seis meses. Em breve, as Forças Armadas promoverão eleições presidenciais. No momento do anúncio oficial das Forças Armadas [quando foi anunciada a deposição de Mursi], os militares estavam acompanhados pelos líderes máximos de vários segmentos do islamismo e também do cristianismo no Egito, assim como com o senhor Mohamed Elbaradei [principal líder da oposição]. Há uma longa trilha a ser percorrida e a busca pela conciliação nacional. Será um governo de técnicos, não de políticos.     

Mas a violência das manifestações chocou quem acompanhava os desdobramentos no Egito. Será que os protestos agora param?

As manifestações praticamente acabaram. As pessoas já estão voltando para suas casas. A vida agora é bela. 

Para o senhor, mudarão as relações do Egito com o Brasil a partir do novo governo e da saída de Mursi?

As relações não são afetadas pelas questões políticas em nenhum dos dois países. As relações são excelentes e continuarão a florescer. São relações antigas e muito boas entre duas nações que se respeitam, além de preservar parcerias importantes. [O Egito está entre os principais parceiros do Brasil entre os países muçulmanos. Em 2012, o volume do comércio bilateral atingiu US$ 2,7 bilhões].

Além de acompanhar o que ocorre no Egito, o mundo pode fazer algo mais pelos egípcios?

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A primeira coisa a ser feita é tentar entender o Egito: como é o país em si. Se não houver essa compreensão, haverá erros de interpretação. O mundo pode colaborar com o Egito, incentivando os investimentos no país para a geração de emprego, a renda e o mercado turístico. Há muitas possibilidades. O mundo pode apoiar o Egito para ele se reerguer economicamente. A economia é a base desse apoio. Nós, egípcios, lembramos e apreciamos os que estão ao nosso lado.

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