Os dilemas da agenda climática da Rússia

Guerra da Ucrânia e expansão do Brics redesenham os desafios ambientais e a estratégia russa

Incêndio atinge floresta na região de Moscou, na Rússia. | Imagem : Wikimedia Commons

do Brasil de Fato

Os dilemas da agenda climática da Rússia

por Serguei Monin, do Rio de Janeiro (RJ) 

Nos últimos anos, a questão climática na Rússia vem sendo tratada pelo governo de maneira paradoxal. A dependência de combustíveis fósseis para impulsionar a economia vem contrastando com o aumento da importância que as autoridades começaram a dar para a agenda ambiental para justamente diversificar a economia do país e fortalecer o protagonismo da Rússia no cenário internacional. Como pano de fundo, o aumento da cooperação com o Brics e o Sul Global no contexto da guerra da Ucrânia, apresenta novos dilemas para a estratégia russa.

Tais desafios foram expostos na recente cúpula do G20, que foi finalizada no último 10 de setembro com uma resolução conjunta para eliminar progressivamente o uso de combustíveis fósseis. Os líderes também concordaram em buscar aumentar em três vezes a capacidade de energia renovável no mundo até 2030.

No entanto, a questão climática divide o grupo. Países como Rússia, Arábia Saudita, China e Índia são altamente dependentes da energia fóssil e ofereceram resistência à proposta de cortar das emissões de gases de efeito estufa em 60% até 2035, segundo relatou a Reuters. A declaração final foi, então, encarada como modesta em termos de apontar medidas concretas.

Do lado russo, o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, acusou o Ocidente de não cumprir com a promessa feita pelos países mais ricos de destinar 100 bilhões de dólares anuais aos países mais pobres para combater os efeitos negativos das mudanças climáticas.

“A declaração [da cúpula do G20] também afirma a necessidade de cumprir promessas de longa data de transferir tecnologia para os países do Sul Global, e não apenas importar deles matérias-primas, e depois receber valor acrescentado e lucros correspondentes. Foi destacado também que o Ocidente assinou há muito tempo a atribuição de 100 bilhões de dólares anualmente para preparar as economias para combater as consequências negativas das alterações climáticas. Nada disso foi feito”, destacou Lavrov em coletiva após o G20.

O chanceler russo enfatizou a necessidade do Ocidente de cumprir as suas obrigações e promessas de longo prazo, incluindo a transferência de tecnologia. “A mensagem clara é que os países em desenvolvimento já não aceitarão ser confrontados com a falsa escolha de combater a pobreza ou investir na luta contra as alterações climáticas. Esta é uma falsa alternativa”, acrescentou.

Outro ponto controverso no G20 foi a guerra da Ucrânia. A resolução final sobre o tema foi discreta e se limitou a condenar o conflito sem denunciar a Rússia diretamente. De acordo com o documento, “todos os Estados devem abster-se da ameaça ou do uso da força para procurar aquisição territorial”. A diplomacia russa classificou a declaração final como um “sucesso” da cúpula.

Os assuntos estão diretamente ligados. Em primeiro lugar, a guerra na Ucrânia exerce um impacto ambiental direto no sentido de provocar a destruição de ecossistemas, poluição química e a destruição de infraestrutura. Ao mesmo tempo, há consequências indiretas ligadas à remodelação dos mercados globais de energia e a políticas ambientais dos países.

Do lado do Ocidente, é possível identificar um corte dos programas de redução das emissões de energias fósseis por conta das grandes despesas com armamentos. Ao mesmo tempo, há uma demanda por renovação da matriz energética na União Europeia, tendo em vista a dependência que estes países têm da energia russa.

Na Rússia, com o início do conflito ucraniano, a agenda ambiental passou para o segundo plano, já que a economia do país depende do petróleo e do gás para resistir às sanções do Ocidente e financiar a guerra. Isso cria um efeito cíclico, na medida em que o país reorientou as suas exportações para países como Índia e China. Estes, por sua vez, resistem à transição para energias menos poluentes, pois conseguem grandes descontos da Rússia na compra de petróleo e gás.

Por outro lado, a Rússia vem fortalecendo as relações dentro do Brics e com o Sul Global como forma de resistir ao isolamento imposto pelo Ocidente. Assim, a agenda ambiental surge como uma potencial forma do país angariar apoio na arena internacional.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a jornalista e observadora das negociações da ONU sobre mudanças climáticas, Angelina Davydova, aponta que há uma ambiguidade na atenção com que as autoridades russas tratam a agenda climática. Segundo ela, há um “paradoxo” porque, por um lado, a Rússia permanece sendo um dos fornecedores-chave de gás natural, petróleo e carvão do mundo, além de uma série de outros metais e matérias-primas. “E no país de nenhuma forma se discute as perspectivas de diminuição da produção ou a recusa de novos investimentos em combustíveis fósseis, isso não se discute. Se presume que a Rússia continuará fazendo tudo isso. E é claro que isso é ruim para o clima global”, observa.

No entanto, a analista destaca que há na Rússia uma manifestação de preocupação em relação ao clima a partir da cooperação com países do Sul Global do Brics. “Mas isso ainda me parecem declarações muito gerais, sem nada concreto, parecem declarações que têm o fim de conseguir algum apoio político de países do Sul Global”, argumenta.

Nesse contexto, a expansão do Brics, com a adesão de seis novos membros, cria novos desafios para combater as mudanças climáticas. Com a exceção do Brasil, que tem 54% de sua matriz energética baseada em combustíveis fósseis, a África do Sul tem uma dependência de fontes fósseis em 97%, a Rússia em 94%, a Índia em 92% e a China em 87%.

Para Davydova, será difícil esperar um compromisso real dos países em desenvolvimento sobre a redução de combustíveis fósseis. Ela aponta que o fato de importantes produtores de combustíveis fósseis entrarem no Brics, em particular os países do Golfo Pérsico – Arábia Saudita, Emirados Árabes e Irã -, é um aspecto negativo. “Isso provavelmente não vai fortalecer a agenda climática do Brics”, afirma.

Ao mesmo tempo, Davydova observa que a vulnerabilidade de alguns novos Estados que entraram no grupo pode impulsionar a adaptação aos problemas ambientais nestes países. “Surgiram países que sofrem bastante com as mudanças climáticas, são os países mais vulneráveis, e a adaptação às mudanças climáticas, as questões financeiras, vão ter um papel mais importante nos países do Brics”, afirma.

“Talvez no Brics haja uma adaptação mais determinada em relação ao financiamento climático internacional, mas impulsionar os temas da diminuição dos combustíveis fósseis, diminuição e recusa de produzi-los provavelmente será mais difícil”, completa.

Edição: Thales Schmidt

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