Pelosi em Taiwan é “indicação de nova Guerra Fria”, diz especialista

Elias Jabbour comenta na TVGGN o conflito entre China e Estados Unidos após a visita de Nancy Pelosi. Assista

Elias Jabbour
Elias Jabbour, especialista em China. Ele é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ

O mundo estremeceu na terça-feira (2). A parlamentar democrata americana Nancy Pelosi, equivalente à presidente da Câmara dos Deputados nos Estados Unidos, pousou em Taiwan, ilha considerada rebelde pelo governo chinês. O local historicamente é origem de rusgas diplomáticas com o Partido Comunista da China.

Há ali uma disputa de reconhecimento de território. Enquanto a maioria da comunidade internacional reconhece Pequim como área legítima, Taipé reivindica esse posto. Ao mesmo tempo em que os EUA consideram Pequim como “a verdadeira China”, o país fornece apoio militar a Taiwan.

Portanto, somente a mera presença de Pelosi na ilha é um movimento diplomático, e eventualmente bélico, imenso entre as duas maiores economias do mundo. Foi a primeira vez em 25 anos que alguém de tamanha importância da política americana pisou em Taiwan.

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Em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas [assista abaixo], comandado por Luis Nassif, o especialista Elias Jabbour, escritor, professor da Universidades Estadual do Rio de Janeiro e estudioso do desenvolvimento chinês, definiu o cenário como “indicação de nova guerra fria”

Desde os anos 2000 para cá, os americanos deixaram um vazio imenso no Oriente Médio. Eles foram expulsos do Afeganistão e sequer vão participar dos acordos de paz daquele processo. Quem estão participando são China, Rússia, talvez o Irã. E esses arranjos estão sendo muito bem encaminhados por China e Rússia. Isso não é um ponto fora da curva. Existe um deslocamento do eixo da política externa americana do Oriente Médio para a China. Especificamente, para o mar do sul da China

explicou ele

Dado o cenário, para Jabbour, era “altamente previsível” que os estadunidenses aumentassem sua presença em Taiwan. Porém, segundo o especialista, também seria natural que Pequim “não caísse nessa casca de banana que os americanos estão colocando lá”.

Porque a China não tem mais o fator surpresa na intervenção militar em Taiwan. Desde o ano passado, a China já está fazendo exercícios militares declaradamente com objetivo de intervir militarmente em Taiwan. Segundo, a China sabe que poderá enfrentar tropas guerrilheiras financiadas por estrangeiros por 10 anos [caso decisa invadir Taiwan]

declarou o sinólogo

“Blitzkrieg americana”

Para Elias Jabbour, a ação em Taiwan é parte da estratégia dos americanos de desestabilizar os chineses, seja jogando a opinião pública mundial contra o País, dentro do script da “blitzkrieg americana”.

A blitzkrieg norte-americana também envolve ofensivas tecnológicas, econômicas, diplomáticas e, finalmente, bélicas, contra determinada nação.

Blitzkrieg era a estratégia militar de Hitler na Segunda Guerra Mundial, em que os nazistas atacavam o inimigo simultaneamente por meios terrestres, aéreos e eventualmente marinhos.

Na visão do especialista, porém, a tática só funcionaria com “países que não têm capacidade de reação”, o que não se aplicaria à China.

Xadrez chinês

Por sua vez, o Partido Comunista chinês utiliza outro tipo de estratégia, batizada de “xiangqi”, um jogo de tabuleiro chinês semelhante ao xadrez. Nele, vence quem melhor aproveita as fraquezas do adversário.

A China conseguiu controlar a Covid, está crescendo (economicamente) apesar dos lockdowns, já quebrou o monopólio dos semicondutores e dos chips de 7 nanômetros, o que é uma notícia semelhante a uma bomba atômica. Ou seja, quando o Truman fala para o Stalin que tinha bomba atômica, aquilo mudou completamente o equilíbrio de forças no mundo, naquela época. E hoje, quando a China fala que tem como produzir o chip de 7 nanômetros, também tem o efeito de bomba nuclear

afirmou o sinólogo

No outro lado, explicou Jabbour, Xi Jinping observaria os EUA em decadência socioeconômica.

48% da população americana acredita que o país está numa guerra civil. É um país em estagnação econômica, que passa pela maior inflação de todos os tempos

definiu ele

O que a China deve fazer

Na opinião do especialista, a China deve “manter o foco”, ao continuar no processo de avanço tecnológico e econômico e continuar reduzindo a diferença do País nessas áreas em relação aos “grandes capitalistas”.

Além disso, Elias Jabbour acredita que o chineses precisam “formar uma força armada capaz de defender o país”. Na visão dele, o exército chinês ainda é inferior em relação a outras potências militares, como os próprios Estados Unidos.

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Assista ao programa completo:

3 Comentários

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Carlos Lima

- 2022-08-03 23:50:44

Nassif, não vejo assim, os EUA, estão, desde 2008, arrastando o mundo para sua crise, só assim manteriam a hegemonia, isso não está acontecendo, o mundo quer desenvolver, eles não deixam, e eles só produzem catástrofes humanitárias, se o mundo não desvencilhar deles, o orgulho deles levará o mundo ao imaginável caos. Esse lance em Taiwan foi um tiro no pé e sem lógica geopolítica e econômica nenhuma, foi desespero. Então em todos os cantos do mundo produziram inimigos. Bem vindos ao mundo multipolar.

carlos silva

- 2022-08-03 17:05:51

Essa parte que a china tem que formar uma força armada capaz de defender o país não procede. O exercito chinês é o maior do mundo, com 2,035,000 soldados em 2022. Obtido de fontes em lingua inglêsa. Os Estados Unidos é o terceiro. Se procurar em fontes na lingua portuguesa, os fanboys americanos dizem que os Estados Unidos tem o maior poderio militar, o que não é verdade. Fonte: https://www.brookings.edu/articles/chinas-hollow-military/

José de Almeida Bispo

- 2022-08-03 16:23:54

A Liga de Delos, com o discurso único de superioridade e defesa da liberdade - a deles escravizarem - vai ter que se remodelar.

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