A pressão popular sobre o TRF 4 não é apenas legítima: é necessária e urgente, por Gilberto Maringoni

Pela ordem, desembargadores Gebran, Paulsen e Santos Laus

do DCM

A pressão popular sobre o TRF 4 não é apenas legítima: é necessária e urgente

por Gilberto Maringoni

Faço campanha política desde 1974. Aprendi a pedir voto, a fazer panfletagens, a tentar convencer o eleitor, a organizar campanhas etc. Sei ler resultados eleitorais de centro acadêmico a pleitos presidenciais como qualquer um que lide com o assunto.

Também sou capaz de verificar movimentos em pesquisas de opinião, buscar identificar tendências e construir cenários através da tabulação das intenções coletadas de centenas, de milhares, de milhões de pessoas de acordo com múltiplas variáveis que compõem a decisão do voto. Repito, não é prerrogativa exclusivamente minha. Qualquer ativista mediano com alguma cultura política tem obrigação de fazer isso.

Mas não consigo ler racionalmente a tendência de três votos. Os dos desembargadores do TRF-4.

Talvez porque a palavra “voto” seja ali mal empregada. Não há objetividade clara nos movimentos dos três que se arrogarão ao direito de decidir o destino de um homem. Aliás, não é de um homem. Trata-se dos destinos de milhões de brasileiros e brasileiras. O trio decidirá se mais de cem milhões de pessoas poderão exercer plenamente suas prerrogativas cidadãs ou não. Sim, eu sei que a justiça tem determinados ritos e procedimentos, mas não é esse o caso.

Os desembargadores não votam nada. O voto que está em jogo lhes é alheio. Proferirão doutas sentenças num processo de rarefeita objetividade jurídica e prenhe de subjetividade política.

Além da falta de provas já exaustivamente argumentada por muitos, há algo mais. Algo que não cai bem para nós de esquerda.

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Por força um moralismo demagógico que tomou conta de vários setores progressistas – PT, PSOL, PCdoB -, estes se aliaram com a direita e aprovaram no Congresso, em 2010, a lei da ficha limpa. O nome é lindo.

A norma permite que se faça o que o TRF-4 buscará fazer com o ex-presidente Lula: torná-lo inelegível a partir de uma decisão de segunda instância. O irônico da coisa: o dispositivo foi sancionadao pela própria vítima, Lula. A aprovação e a sanção se deram num quadro feito para saciar a sede de sangue de uma classe média narcotizada pela mídia e impulsionada por uma esquerda que viu na pura e simples denúncia de corrupção o caminho da construção de um projeto de país.

Valeria a pena realizar um colóquio de Ciência Política e verificar como e porque a esquerda – aqui o PT – viu na reedição do velho udenismo a melhor maneira de se legitimar, a partir do início dos anos 1990.

O período coincide com a derrocada de Collor de Mello. É bom lembrar que a campanha pelo impeachment não tinha por mote a selvagem implantação do modelo neoliberal por parte do “caçador de marajás”, mas tão somente saber se ele havia roubado ou não. Dia 2 de outubro de 1992, Collor caiu.

No dia seguinte, Paulo Maluf elegeu-se prefeito de São Paulo, mostrando o fôlego curto das campanhas de moralismo estreito. No cargo, Maluf deu início a um processo de privatização semelhante ao aberto pelo mandatário deposto.

Estão guardadas na memória as imagens dos deputados petistas José Dirceu e Aloísio Mercadante – no Jornal Nacional! – acompanhando diligências da Polícia Federal como fiscais de costumes no combate ao collorato.

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A volta do udenismo se deu também na conjuntura da derrocada dos regimes socialistas do Leste europeu. Havia uma intensa campanha midiática de desqualificação da esquerda e da possibilidade de se mudar a sociedade de forma radical. É deste 1992 também o “Fim da História e o último homem”, best seller de Francis Fukuyama, que chegou para nos convencer da inevitabilidade do futuro capitalista (algo tão mecanicista quanto as piores vulgatas marxistas).

Se mudar o mundo não era mais possível, a saída é que ele continuasse ruim, mas com menos roubalheira. Não se ligavam injustiças sociais e concentração de renda à corrupção. No centro de tudo estava a necessidade de se saber se fulano é honesto ou não, de acordo com formalidades miúdas. Exemplo: um triplex sem provas é algo muito pior que uma taxa de juros – legal – que arrebenta o orçamento público, ou que um ajuste fiscal a ceifar verbas de setores essenciais.

O primeiro slogan criado para o PT por Duda Mendonça, na segunda metade dos anos 1990, era “Combater a corrupção e melhorar a vida do povo”. Sim, nessa ordem. A banda de música da União Democrática Nacional não faria melhor, quatro décadas antes…

Voltemos ao TRF-4. Os desembargadores não votam, não julgam. Decidem “sem interferências indevidas” o que pode e o que não pode, de acordo com o Alcorão íntimo de cada um. Ou com a Bíblia, ou com o Livros dos Mortos etc. A Constituição estará lá para decorar o ambiente.

Os Huguinho, Zezinho e Luizinho dos pampas decidirão pelos homens de bem, pelo futuro da nacionalidade, pelo lindo pendão da esperança e pelos sempre bem ocultos interesses de classe, que se vendem como interesses de todos.

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Só não tendem a decidir muito pela democracia e pela política.

Por isso, a pressão popular não é apenas legítima. É necessária e urgente. Porque aquele troço lá não é voto!

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4 comentários

  1.  
    Enquanto a Lava Jato –

     

    Enquanto a Lava Jato – instrumento, peça e mecanismo do maior assalto ocorrido no país – prossegue, o corporativismo de certos setores da Justiça pretende dar as cartas e se firmar corrompendo a CF, as leis e a Justiça.

    Lava Jato (pontue-se, instrumento, peça e mecanismo do maior assalto ocorrido no país), mega-golpe muito superior aos golpes financeiros do assim chamados encilhamentos (quando da passagem da monarquia para a república e da implementação e execução do plano real).

    Superior ao dos golpes do  Banestado (desvios de dinheiro e evasões de divisas que atingiram – segundo Requião- a cifra de 124 bilhões de dólares, ao do Sudan, ao das privatizações…

    Lava Jato, um breve resumo do assalto:

    – indústria da delações

    – balcão de benefícios penais e pecuniários

    – honorários fabulosos

    – corrupção da CF e das leis materiais e processuais

    – indústria das indenizações (ex. acordo da Petrobrás nos EUA de mais de 9,6 bilhões de reais)

    – desvalorização dos ativos e valores da empresas denunciadas

    – ataque à soberania nacional

    – privatizações

    – Temer e entourage

    É o que se pode deduzir da vastíssima publicação de matérias, fatos, narrativas, artigos e entrevistas produzidos por autores sérios e responsáveis das mais diversas correntes.

  2. “Mas não consigo ler

    “Mas não consigo ler racionalmente a tendência de três votos. Os dos desembargadores do TRF-4.”

    Eu consigo. 3×0 para os golpistas. Lula inelegível.

    Afinal, os bandidos do judiciário foram muitíssimo bem pagos para que?

  3. SIM! MAS COMO DEVERÍAMOS LUTAR CONTRA ISSO?

    PRECISAMOS REVELAR OS CULPADOS POR ESSE ABSURDO!

    Por pior que o Lula seja, não podemos desejar um julgamento injusto! Pois amanhã podemos estar em seu lugar…

    MANEIRA CORRETA DE SE ENFRENTAR O CASO:

    1) Pedir o impedimento desse juiz, afastando-o desse processo, devido às suas declarações.

    2) Fazer o pedido parar no STF.

    3) O juiz ou juízes que negarem o pedido, diante de flagrante falta de isenção dentro do processo, a gente pede o seu impeachment!

    4) O presidente do senado engaveta o pedido, como de costume, e a gente convoca seu REFERENDO REVOCATÓRIO DE MANDATO, cassando-o de seu cargo, e encerrando sua carreira política.

    SÓ TEM UM PROBLEMA!

    O próprio PT não defende esse nosso direito, e ele mesmo retirou da lei esse poder do povo convocar REFERENDOS com seus ABAIXO ASSINADOS. Confiram:

    https://democraciadiretanobrasil.blogspot.com.br/2017/06/lindberg-farias-traiu-o-povo-brasileiro.html

    Lula prova do próprio veneno, ou está aprontando de novo?

    E se houve acordo pra livrar a cara do Aécio e do Lula? Confiram como o PT defendeu com unhas e dentes a impunidade dos políticos:

    https://democraciadiretanobrasil.blogspot.com.br/2017/09/o-pt-apodrece-defende-aecio-e-impunidade.html

    Nesse caso, os facilmente previsíveis como desgastados Moro, Temer, e globo, são seus melhores cabos eleitorais. Ou seja, quanto mais batem, mais votos ganham pro Lula…

    Não seria Lula o candidato do imperialismo estrangeiro e dos neoliberais, para quando a direitona estiver desgastada?

    Por que será que em 13 anos ele não quebrou o monopólio da globo?

    Lula coloca novamente os coxinhas no bolso! Junto com os “cumpanherus”, é claro…

    https://jornalggn.com.br/fora-pauta/qual-a-razao-do-presidente-do-trf-4-optar-pelo-acirramento-politico-por-erick-da-silva

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